Azgo Bazou

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DSC_9667 copyDois palcos compõem o festival Azgo, Gil Vicente, em homenagem a uma das casas mais populares da música moçambicana, o Café e Bar Gil Vicente e Fany Mfumo, nome de uma das maiores referências da música popular moçambicana, a marrabenta. Com 15 anos de carreira, Neyma, que é considerada por muitos a diva da marrabenta homenageou Fany, cantando Hodi, um dos seus maiores sucessos, muito conhecida na voz de Hortêncio Langa, justamente no palco com o nome deste “mosnstro” monstro da nossa música. Com a animação que lhe é característica agitou o público no mesmo palco por onde passaram depois da sua actuação, Paulo Flores, Tributo ao Alexandre Langa – intérprete que esboçou as vivências de Mocambique, particularmenete de Maputo, nos anos oitenta – e antes a Lura, Açúcar Castanho Experiment entre outos.

À entrada, os seguranças do campus universitário da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), guiavam os condutores no parque para estacionamento. Não se viu, como é comum em eventos desta envergadura, carros estacionados tocando música alta e gente circulando do lado de fora. Apenas as filas de entrada, divididas entre a vip e a normal.

Já, no interior, a frente do palco Gil Vicente, havia uma feira gastronómica para alimentar aos famintos que para lá se se deslocaram, ladeada, próximo ao portão pela exposição de quadros de artes plásticas e pelas casas de banho, a ligeira distância. Podia-se degustar na feira desde frango assado a amendoim cozido, molina, castanhas. Dona Amélia, que normalmente vende os seus produtos na rua, teve a oportunidade de expor no Azgo. Comentou que aquela foi “uma boa oportunidade para vender maçaroca cosida para alimentar as crianças em casa”.

No interior do cerco vedado para o Festival Azgo, dispersas, estavam as bancas de artesanato, bares, “barracas” para sorteios e stands dos parceiros do festival, para além da tenda de venda de artigos Azgo e Cd’s dos músicos que actuavam.

O público, cerca de oito mil pessoas (de acordo com a organização) composto por jovens e adultos, entre estrangeiros e nacionais circulava pelo pátio, fazendo selfies e vídeos das performances para postar nas redes sociais.

Neyma anima

São necessários todos os dedos de ambas mãos e a totalidade de um pé, 15, para contar os anos de carreira da diva da marrabenta, Neyma. Esses anos transpirados de sucessos sucessivos foram expressos na sua actuação animada. A manhã de sexta (20) iniciou com chuva, tendo, em algum momento, posto em dúvida a adesão em massa do público, porém, com o fim da precipitação ao meio dia, as pessoas sentiram-se mais seguras de ir. E Neyma, numa noite coberta de lua, fez a sua parte para garantir que não se arrependessem.   

Seu repertório composto pelos hits “dzimeni”, “nuna uanga” entre outros, foi ingrediente suficiente para animar aos presentes. Alegre, segura e conectada com o público, Neyma, entre os passos de marrabenta passeava por todo o palco, que se tornava pequeno para “despejar” a sua energia. Os admiradores, parados defronte do palco Fany Mfumo, respondiam cantando consigo e ensaiando alguns passos de dança.

 Porque suas referências são as lendas da marrabenta, não perdeu a oportunidade de os homenagear. “É a segunda vez que faço isso. A primeira foi no meu concerto de 15 anos de carreira. Foi a maneira que encontrei de imortalizar músicos como Elsa Mangue, Zaida Lhongo (por exemplo) ”, esclareceu a diva, ainda transpirada, nos camarins, depois da sua actuação. A interpretação de Hodi de Fany Mfumo, justamente no palco com o seu nome não foi propositada, “não tinha pensado nisso, para ser sincera, apenas cantei e foi bom”.

A performance de Neyma foi uma das mais animadas da noite, tendo ajudado a “sacudir” o frio que se fazia sentir.

O poeta cronista de Luanda

Paulo Flores, um dos músicos figura de cartaz, foi recebido em alvoroço pelo público. Sua resposta foi cantar as músicas que marcaram o início da sua carreira, muito conhecidas pelos maputenses, como “cherry”. As pessoas cantavam junto. No seu jeito humilde e simples, com lágrimas a espreitar seus olhos, não parou de agradecer: “obrigado Maputo”.

“Não cantei músicas novas. Cantei as antigas, são as que o povo de Maputo gosta ”, disse, em entrevista a jornalistas, entre cumprimentos a músicos moçambicanos, como Stewart Sukuma, que foram ao camarim saudá -lo.

O semba, sua bandeira, dominou a uma hora que lhe pertencia. Em coro, levou casais a cantar e dançar quando permitiu ouvir da sua voz natural: “Minha senhora tranca só sua filha”. Entre as conversas masculinas dos espectadores, ouvia-se, ironizando, “é melhor trancar mesmo, se não…”.

O compositor e intérprete foi acompanhado por instrumentistas moçambicanos, Nelton Miranda no baixo, Samito Tembe na precursão, e o guinense Manecas na guitarra. Sua conexão não transparecia os apertados três dias de ensaio que tiveram. Mas foi com Manecas, seu convidado especial, com quem fez boa parte do show.

Calças rasgadas no joelho, sapatilhas sport e a basebol jacket customizada com capulana de estampas verdes, chamativas eram o retrato desse eterno jovem de, agora, 44 anos que canta crónicas em jeito de poema, da “senzala” de Luanda. Seu rosto e gestos traduziam o estado de espirito de um adolescente tímido, alegre por ter ganho a atenção das pessoas. Talvez seja o adolescente de 16 anos – idade que tinha quando lançou seu primeiro álbum -, que, na verdade nunca “bazou” no Paulo Flores.

 Para encerrar a actuação com chave de ouro, pediu que o público pusesse as mãos no ar para “tocar as estrelas… tocar os sonhos”, enquanto o Manecas libertava acordes da sua guitarra, num acústico, cantou “A carta a querida mãe”, do seu último álbum, “O País que nasceu meu pai”.

Um fiasco do tributo ao Alexandre Langa

Um dos momentos mais esperados do festival foi a apresentação de todo o conjunto que se juntou para homenagear Alexandre Langa. Músico que na voz de Hélder Leonel, um dos Mc do Azgo, “cantou os problemas de Moçambique dos anos oitenta”.

A apresentação seguiu a sequência da disposição do cd, tendo começado, numa actuação sem nenhum entusiamo, com Bernardo Domingos. Agitada e animada, a música assim exigia, distribuiu a sua voz a Sandra Isaias que é igualmente, ao lado da Sizaquel, corista do projecto. Outro momento alto foi do Roberto Chitsondzo, o público cantou junto, coube-lhe apenas dar as melodias certas a aquela “desafinação generalizada” do público. Sem o charme que nos habituou, Wazimbo passou pelo palco. A sua voz poderosa ficou na teoria numa actuação para esquecer, manifesta falta de preparação e ensaio. Assim foi com Elvira Viegas. E Muzila, que desafinou na entrada e depois, sem “ntsutsu” continuou.

Quem levantou o público foi Bob Lee ao cantar “Rosa Maria”. A presença em palco e a conexão com a plateia foram os ingredientes que lhe possibilitaram uma exibição formidável. Como forma de valorizar o que é nosso, como nos confidenciou nos bastidores, depois do seu show, levou para o palco a Companhia De Canto E Dança Do Município Da Matola que dançou Xigubo.

 

Azgo entre os dez melhores de África

A cantora cabo-verdiana Lura, autora do sucesso, cá entre nós, “Narina” elogiou o festival e revelou aos convivas que soube que o festival está a concorrer para os dez melhores de Africa. Na plateia, ouvimos do nosso lado o comentário “O Azgo bazou”.

DSC_9473 copyNo palco Gil Vicente actuaram Açúcar Castanho Experiment, Hmb, Cold Specks, Maya Kamaty, Afro Madjaha E Zah. No sábado seguinte com uma lista mais virada para o público jovem o festival continuou.

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