Futuro com outro endereço

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Futuro é sinônimo de poesia. Dá-se aos poetas o direito de não pertencer ao universo dos normais viventes; a possibilidade de criar o que Mia chamou de pluriverso – o universo é de uma unanimidade inviolável.
Os poetas inventam mundos, nomes. Os poetas mergulham nas letras, namoescrevem ideias e vê o que o universo não permite. Assim é com o futuro: um lugar que vive em todos com um sabor de (im) possível. O futuro torna a realidade um caminho (Sartre).
O futuro é a história que todos temos escrita na nossa mente. É uma espécie de memória que visitamos com saudades.
A nossa educação nos ensina, na lógica do agricultor, que o futuro planta-se hoje para colher amanhã. Assim passamos 16 anos a nos formar para a dita colheita.
Porém chegados lá percebe-se que não obstante a escolha minuciosa das sementes, o constante cuidado com o regadio e a luta contra as pragas, ser bom agricultor, não basta. São necessários outros requisitos na colheita: a apadrinhação, a sobrinhação, filhação (apelido), e o cartão daquela cor.
A falta desses requisitos que não se traduzem no papel, dissolvem o futuro de ontem. A costura do agricultor com a as suas sementes desfaz-se. O futuro começa a morrer. Não morre de morte imediata, é lenta.
Não é uma questão de procurar um alfaiate para refazer a bainha, ajustar o tamanho desse futuro. Porque na verdade ele deixa de existir, esfumaça e se desertifica.
Com o futuro vai a poesia (…).
Em outras geografias –  também nossas – jovens e famílias inteiras, cansadas de não ter futuro – já que nem presente tem! –  mergulham, literalmente, nos seus futuros. O Mar Mediterrâneo são águas presentes, é a estrada que leva a esse futuro. A morte é um mal menor, mesmo porque é um futuro certo.
Fotografias de crianças, famílias inteiras mortas, nas margens, são o retrato dessa ausência de futuro nas nossas geografias. O futuro, para eles, tem outro endereço.
 

De Leonel Matusse Jr.

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