O POVO SÓ QUER SONHAR

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O medo é daqueles negócios de que a maioria das pessoas quer distância, menos os que o produzem. Disse Mia Couto: “Há quem tem medo que o medo acabe”. Será mesmo que eles não têm medo? – Parece que me equivoquei no primeiro período do texto (eu desistiria da leitura de um texto que começa equivocado).

Há diversas formas e manifestações do medo. Na verdade, as culturas, construções do homem, é que guiam as sociedades. O medo de morrer fez brotar a medicina; o medo do frio inventou as roupas quentes; o do verão, o ar condicionado; o medo de perder o poder, em África, matou a democracia, e por aí em diante.

Os nossos medos, enquanto pessoas, ditam-nos o caminham a seguir. O medo é a mais excelente e convencedora tirania.

Nos dias que correm, o país (in)veste (n)um medo antigo, que existe desde a sua infância, quando ainda era inocente, que limpou o seu ranho e lhe arrancou a magia de sonhar. Coitado, só tinha dois anos Moçambique quando foi assaltado pela guerra civil que o acompanhou, como babá, até aos 18.

Passados os 16 anos de guerra, como se diz comumente, “a pomba branca voou”, e as pessoas instalaram em si a esperança – essa concorrente do medo. Os anos foram passando até sermos considerados exemplo a nível mundial. Que orgulho!

Mas parece que há quem quer engaiolar a pomba branca. O seu voo incomoda-o, provoca-lhe náuseas, dá-lhe tranquilidade, permite-lhe ver gente prosperando; crianças indo à escola; o país sonhando. Essealguém ameaça a paz.

Na moeda há sempre dois lados, não me interessa aqui discutir esses lados: tenho medo do rumo que esse debate pode levar, mesmo porque a polícia municipal prende quem joga batota.

De há uns anos para cá, vem-se cultivando o medo da guerra. Regado diariamente como temos visto nos media. E, ao que parece, não há só um jardineiro nesse jardim. Há vários: a nossa polícia, vulgo cinzentinhos, que garantem a nossa (in)segurança, ao perder tempo nos BI’s, ao invés de caçar criminosos; ao não conseguir encontrar os culpados pelos crimes; ao soltar criminosos por “refresco”; a polícia de trânsito, por parar na estrada à caça do refresco – questiono-me se não temem ter diabetes –; os que não distribuem oportunidades de forma equitativa; os que não garantem um transporte público digno; os que não distribuem estradas para os agricultores escoarem os seus produtos; os que vão ao diálogo para se impor; os que não proporcionam educação de qualidade; os que não criam condições para que as crianças não morram à fome e tenham acesso a um sistema de saúde rápido e eficaz, entre tantos outros. Acho que poderia esgotar o texto apontando só esses jardineiros.

A questão que faço com teimosa insistência é: o que é que os fomentadores do medo ganham com tal produção? Infelizmente não acho resposta. Há quem diga que o que realmente vale são as perguntas e não as respostas. Tenho para mim que isso é muito filosófico e não elimina os nossos medos.

O doloroso nisso é que tanto uns quanto outros usam os desejos do povo para argumentar as suas atitudes. Qual povo? Que povo é esse que quer guerra?

É triste perceber que eles não fazem parte desse povo, que para eles o povo são os outros, pois não são parte desse povo: deixaram de o ser, faz muito tempo. O povo nunca provou se quer um trago desse vosso uísque escocês, nunca andou nesses vossos carros de último grito – que até nos provocam surdez à vista -, o povo nunca sentiu o ar condicionado que vos clareia a pele e o seu interesse nem é de perto essas mordomias. O povo só quer sonhar, e só.

Por: Leonel MatusseJr.

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