Sexta edição do Kugoma sem filmes Moçambicanos

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imageEspectadores distraidos, dirigem-se ao auditório do Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM). No palco, a presença de um “txova” é desconfortador e inevitável. Desconfortador porque não fazia parte das actividades do Kugoma (Fórum de curta metragem) e inevitável porque penetra na visão de cada um carregado de um montão de ferro. Por cima deste, estava ali um microfone. Uma voz chama atenção dos presentes na sala, é do apresentador David Bambo. Senhoras e senhores, vai começar o Kugoma.


Texto: Pretilerio Matsinhe
imageUma fotografia pode mudar a história de um povo, de uma nação e de todo o mundo. A estreia do kugoma foi “Jonah”, um filme de um jovem arquitecto inglês, de ascendência africana. Estamos em zanzibar, uma terra ambientalmente estável. Dois jovens, munidos de uma câmera, fotografam tudo em seu redor. Na sua galopada pela bagunça nas fotografias, acertaram a imagem de um peixe enorme que revolucionou a cidade. Zanzibar tornou-se num centro turistico, uma cidade atractiva e famosa por possuir peixes enormes.
Nasceram as indústrias e com elas a poluição do meio ambiente. O tempo passou, as pessoas tornaram se ricas e ninguém se lembrou de cuidar da fonte de riquesa da localidade. A 6 ͣ edição do kugoma, que decorreu de 9 a 12 de Julho no CCFM, trouxe para a reflexão, a preservação do meio ambiente.
Diana Manhiça, coordenadora do Kugoma, explicou que a temática desta edição era apenas uma forma de orientar a sua programação e que não constituia nenhum condicionamento para a participação dos realizadores e cineastas moçambicanos: “o tema que escolhemos este ano é so apenas algo geral, não colocamos nenhuma condição para a participação, só que a curadoria foi feita pensando no planeta, no que vem acontecendo”.
Kugoma sem filmes moçambicanos
As cinco anteriores edições do fórum de curta-metragem rodou-se filmes moçambicanos. Este ano foi uma excepção. Na verdade, esta edição foi a mais problemática de sempre. O dilema dos recursos continua sendo o centro das atenções e quando acompanhada pela falta dos recursos humanos para fazer com que aquele evento se tornasse uma realidade, as coisas pioram.
De longe, nota-se a movimentação de Diana. Transtornada, sente-se obrigada a mexer até na área técnica. Ela conversa com nossa equipa, vezes sem conta rompe com a entrevista para atender ao público que ali se fazia presente. Simpática, sorri com todos, mesmo porque o kugoma é a realização de um sonho, mas algo a perturba:
“Tivemos poucos patrocínios, então foi difícil, mas tentamos passar por todas as dificuldades e estamos aqui”. Nas palavras de Diana, esta edição foi frustrante: “nao podemos criar uma equipa que podesse fazer esse trabalho sair como queriamos, mas nunca deixaremos, pensamos que sempre deverá e haverá parceiros ou outra forma de fazer a ideia continuar”.
Quando o assunto é falar da produção de filmes de curta metragem em Moçambique, Diana solta um sorriso leve, bem descontraido e de forma suave tece alguns comentários: “não há muita produção de filmes de curta metragem, nem nos realizadores mais antigos e nem nos novos. Se existem então não se inscreveram”.
A escasses na produtividade fez com que esta edição passasse sem se rodar nenhum filme Moçambicano: “esses se esqueceram que as curtas metragens são como que cartão de visita, é a cara que lança alguém para o mercado, mas nem os mais novos querem produzir esses filmes”. A desilusão agrava-se quando o assunto são as escolas. Estas, não movem nenhuma paliha para incentivar, ficam quietas, intactas, apesar de se saber que a curta metragem é o filme mais barato.
“Não se passa nada na televisão moçambicana”
A televisão Moçambicana também não fica por fora quando o assunto é contribuir para a falta de hábito de consumo dos produtos nacionais, sobretudo os cinematográficos. Descepcionada e desiludida, Diana solta o verbo e aponta o dedo:
“Não se passa nada na televisão que seja uma produção nacional”, disse. Manhiça chegou mesmo a propor que se criasse leis que regulassem as televisões e que as obrigassem a passar o que se produz internamente: “ nem que isso sirva para compararmos o que vem de fora com o nacional”.
“Arranjista revolucionario” no kugoma
Fora do auditório acontecia a apresentação e venda do documentário da vida e obra de Chico António, de Lionel Moulinho. De nome “arranjista revolucionário”, o documentário conta a história do músico Chico António desde as suas origens no Magude, passando pela péssima fase em que morou na rua, transformou se num verdadeiro bébado e drogado até conseguir reconstruir-se.
Moulinho conta que o grande desafio que teve foi retratar em todas as facetas a vida de Chico. Para já, prefere artistas com mais de 50 anos, pois segundo ele, “ esses já não vão mudar”. O sentimento de dever cumprido enche Lionel de emoção porque ele acha que a memória desses artistas deve ser preservada em forma de video para as geracoes vindouras. O trabalho durou cerca de quatro anos. Como sugestão, diz pretender documentar a história de Zena Bacar, mas para tanto, precisa ultrapassar os problemas fundamentais: os capitais.
As coisas de lá de casa em exposição
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Quem tem crianças em casa sabe que os brinquedos perderam sua funcionalidade. Agora, a pequenada prefere instrumentos caseiros como escova de dente, vassoura, biquine e tantos outros. “As coisas de lá de casa” , uma série de animação com 26 episódios, está patente em exposição no instituto camões, de dez (10) até 24 de Julho.
Nele, o realizador português José Miguel Ribeiro procura mostrar a história de duas meninas que mostram a funcionalidade dos objectos caseiros para a criação de filmes de animação infanto-juvenil. Segundo o representante do instituto camões, “o kugoma se associou a nós e estamos com eles para mostrar, nesta exposição, como o cinema é criado”. De realçar que não há ninguém com especialização em cinema infantil no país.
SOMAS: VERGONHA E VERGONHA
A Sessão de debates sobre os direitos de autores aconteceu no dia 10 de Julho com representantes da SOMAS, um número considerável de brasileiros e alguns jornalistas. O debate era para ser direcionado às televisões, mas estes optaram por gazetar sem justificar. Tratando se de cinema, o propósito era questionar porque os conteúdos moçambicanos nao passam nos seus canais.
Sendo assim, a corda acabou sufocando a Sociedade de Autores Moçambicanos (SOMAS), que no meio de tantas dificuldades, tentou responder aos questionamentos dos que ali se faziam presente. Esta associação foi criada em 2000 com o intuito de proteger os artistas e velar pelo cumprimento das leis no que tange aos seus direitos. O contexto que ditou o seu nascimento fez com que se definisse a música como prioridade. O assessor de imprensa da SOMAS disse que “os músicos na altura é que se sentiam mais lesados”.
Sendo os músicos os que mais sofriam, o primeiro passo foi conseguir o licenciamento em utilizadores como Rádio Moçambique, o que se conseguiu em Julho de 2002. A rádio começa a pagar e entra-se em negociações com a televisão e obteve-se o primeiro acordo em 2003.
Durante esses anos, outras áreas como teatro, cinema, quadros foram esquecidas. A carência de associações é outro dilema. Num país com um número considerável maior de artistas, precisa de outras sub associações para poder gerir os conflitos. No brasil por exemplo, é assim que acontece. Mauricio Squarisi, do núcleo de cinema de animação de campinas, explicou que no seu país é assim que as coisas funcionam. “ nesse universo de associações, a que tem mais confusão é a da música porque não se confiam”.
Outro dilema que atrapalha os planos da SOMAS é convencer os artistas a se registarem. Alguns por não conhecerem seus direitos e logo os beneficios, outros, no caso de cinema, estão registados na França. Augusto Mauaie, responsável pela pasta de cinema e artes plásticas na SOMAS, disse que o passo agora é ganhar confiança dos artistas.
Para já, a SOMAS ainda não tem mecanismo de controlo de quem utiliza as obras. Por exemplo, não se sabe quando é que alguém está a tirar cópia de uma obra original. A situação de plágio é outro demónio que tira sono aquela associação e o mesmo acontece no Brasil. Sobre a transparência, Augusto diz: “faz se auditoria interna e externa e realizamos assembleias”.
De referir que as sessões do kugoma tiveram fim no domingo, 12 de Julho, em alguns bairros periféricos da cidade de Maputo, tal é o caso do bairro da Mafalala, na Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV) e no CCFM. Nestes locais foram exibidos filmes, no INAV o produto cinematográfico foi concebido por alunos pelos alunos que participaram numa oficina de cinema. Fechava se assim o kugoma, com o intuito de voltar no próximo ano, e quiçá, com mais força.

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