Mido das Dores: Escrevo por paixão à vida

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A escrita é uma arte que nos leva a viajar pelo mundo desconhecido, que só a imaginação nos pode transportar. Experimentamos o diferente e o livro torna-se o “meio de transporte” dessa viagem. Visitamos os quatro cantos do universo, o céu, o passado, o presente e o futuro. Ele transporta-nos para os mais fantasiados desejos do escritor.
O livro e a arte da escrita são as razões para um dedo de conversa com Dom Midó das Dores, escritor que deu vida a Bíblia dos Pretos, obra literária que faz um questionamento à Bíblia Sagrada.
Emídio Xavier ou Dom Midó das dores nasceu em 1978 na província de Gaza. É licenciado em Relações Internacionais e Diplomacia pelo Instituto Superior de Relações Internacionais. Foi docente na universidade Pedagógica e actualmente é deputado na Assembleia da República.
O verde, o silêncio e o ar fresco do Jardim dos Professores acompanha-nos nesta conversa.


Texto: Safira Chirindza
Safira Chirindza (S.C.): Quem é Dom Midó das Dores?
Dom Midó das Dores (D.M.D.): Eu sou um activista de causas. Sou alguém que se interessa muito por causas sociais, artísticas e literárias. Sempre pertenci à arte, pois ainda criança cantava, fazia teatro e declamava poesia.
S.C. Porquê Dom Midó das Dores? Qual é a proveniência do nome?
D.M.D. O nome tem origem no meio familiar. Midó é diminutivo de Emídio e das Dores foi uma sugestão do meu pai, quando eu acabava de nascer, de dar-me um nome que entrasse Dores, mas minha mãe não aceitou e quando cresci ela contou-me. Quando entrei no mundo da literatura juntei o diminutivo (Midó) ao nome proposto pelo meu pai (Dores) e assim ficou Dom Midó das Dores.
S.C. Quando surge a paixão pela escrita?
D.M.D. Bom, eu nasci num ambiente de poesia. A minha mãe, Clara Boane, escrevia e declamava poesia em eventos e desde pequeno ela impulsionou-me a declamar. Aos cinco anos de idade declamei a primeira poesia dedicada ao Presidente Samora Machel e ele estava presente, tendo sido aplaudido e elogiado até pelo próprio presidente e esta emoção toda deu-me força para seguir a literatura.
S.C. Qual é a sua fonte de inspiração?
D.M.D. Inspiro-me na vida social, na paixão que tenho pela vida e na preocupação com o saber e o conhecimento (suspiro de alegria).
S.C. Escritores em que se espelha?
D.M.D. A nível internacional aprecio autores como Luís de Camões, Fernando Pessoa e Giovani Papini. Em Moçambique espelho-me em Noémia de Sousa, Rui de Noronha e Mia Couto.
A Bíblia de Midó das Dores

S.C. É o autor da “Bíblia do Pretos”, uma obra literária que nega Jesus Cristo que nos foi passado pelo ocidente. Porquê Bíblia dos Pretos?
D.M.D. (risos e suspiro). Confesso que é uma obra artisticamente louca. Ela provém de uma vontade de sacralização de algo que seja dos pretos. Em algum momento perguntei se será que a universalidade da cristandade é tão universal assim? Será que o cristianismo responde à cultura e tradições africanas ou ela é mais um “produto” importado como tantos outros?
S.C. Acredita em Deus e em Jesus Cristo?
D.M.D – (risos) Estranhamente, eu acredito nos dois. Já li a Bíblia Sagrada e penso que não haveria alguém tão inteligente e criativo para inventar um personagem capaz de mexer com a vivência humana. Eu sempre tive a curiosidade em querer perceber a bipolaridade Negro/Branco: porque é que nós somos negros? Porque é que o preto representa a escuridão e a tristeza e o branco representa a luz e a paz?
A morte e a vida da Literatura Moçambicana
S.C. O que lhe levou a defender a tese da morte da literatura moçambicana?
D.M.D. Foi a aversão à mediocridade que estava instalada na literatura moçambicana nos finais da década 90 e início dos anos 2000. Já não se escrevia. Escritores de renome na praça acabavam 3 a 4 anos sem lançar obras nenhuma.
S.C. E esta posição e debate levantados ressuscitaram a literatura?
D.M.D. A discussão era feita por escritores na perspectiva de avivar a literatura e penso que contribuiu na melhoria do cenário que se vivia. Os grandes autores de obras literárias voltaram a escrever e regista-se o aparecimento de novos escritores.
S.C. Há valorização da escrita em Moçambique?
D.M.D. Não. Ainda há muito que fazer para a sua valorização. Há um grande desafio que é a colocação de Bibliotecas e livrarias nos distritos, pois até então estas estão centralizadas nas principais cidades do país.
S.C. Existe um público leitor em Moçambique?
D.M.D. Existe sim, mas é muito reduzido.
S.C. Qual é o público que mais lê?
D.M.D. Jovens universitários. Acredito que seja por causa da obrigatoriedade da academia e não por hábito. Não há cultura de leitura no país.
S.C. Qual é a causa da fraca leitura?
D.M.D. Eu penso que primeiro é o facto de termos uma cultura de oralidade. Segundo porque os livros estão caros e o nível de vida é baixo e por último há pouca promoção da cultura livresca (de ler livros).
S.C. Comemora-se, a 23 de Abril, o Dia Mundial do Livro e dos Direitos do Autor. Na sua óptica, há respeito pelos Direitos do autor em Moçambique?
D.M.D. Não há e estamos muito longe de ver os direitos de autor respeitados. Tinha que se consciencializar as pessoas primeiro.
S.C. Próximo livro de Dom Midó da Dores?
D.M.D. Está a caminho e o lançamento é para este ano.

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