Não me considero um ícone

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Quando o manuseia, até parece uma extensão do seu próprio corpo. Tem um cuidado acima da média quando o assunto é a música. Cultor do Jazz, aprecia e executa outros tantos estilos musicais. Tem uma paixão profunda pela música tradicional moçambicana. Sem medo, fala da “colonização” que a música moçambicana está a sofrer. Diz que o facto de haver muitos moçambicanos a tocar passada ou kizomba só beneficia os ocidentais. “Já não se sabe bem quem é quem. Os angolanos tocam passada. Os cabo verdianos também. Os são-tomenses idem. Já não querem tocar marrabenta, semba ou mornas. Só passada. A ideia de Comunidade de Países Africanos de Língua Portuguesa não me parece que seja esta de uniformização. A diversidade é um factor importante para o desenvolvimento das artes”- diz o professor Orlando. Na conversa com o músico, também ficamos a saber que quase virou padre mas a arte de tocar falou mais alto. Música que, defende, deve chegar a todos os moçambicanos independentemente da sua condição social. “A música deve ir ao encontro das pessoas. Faltam espaços para isso. Os festivais são importantes mas devem ser alargados para outras esferas do nosso país. Não se ficarem apenas pelas capitais. Os dirigentes têm responsabilidades acrescidas neste quesito. Com mais de 30 anos de carreira artística, o professor Orlando ainda não gravou nenhum disco mas tem isso nos seus planos e proclama: “não sou um ícone da música moçambicana!”

Não me considero um ícone
Do mais simples cidadão, Orlando Conceição transformou-se numa verdadeira referência para muitos artistas. É professor de música. Toca saxofone, clarinete, guitarra, percussão e piano. Diz ser mais intérprete que compositor. E tem mais: é actor de teatro e bailarino. Tem as suas inquietações, naturalmente. Na alma, uma dor: “há oportunismo no jazz”.
A vida de Orlando Conceição, carinhosamente chamado professor Orlando, divide-se entre a docência e os palcos. Quase religiosamente, aos domingos, dirige-se ao bar Dom Manhelete, ao longo da Estrada Nacional nº 1, em Marracuene, para uma secção de música ao vivo. A sua agenda está sempre super preenchida, os seus serviços são tão solicitados, que até aos fins-de-semana o celular não pára de tocar.
O homem que vive na cidade de Maputo, tem um espaço também em Marracuene. É o seu refúgio. Todo fim-de-semana “esconde-se” naquele lugar com os amigos para tocar. O ambiente é de muita calmaria; logo na entrada da “quinta”, nota-se a presença duma estátua segurando um livro, mais à fundo, um grupo estatuetas de animais selvagens dão outra sensação ao lugar.
Mas o espaço parece também ser sombrio, coberto de árvores, plantas e frutas silvestres. De longe, a presença de animais domésticos é inevitável. Esse ambiente não assusta o professor Orlando Conceição, que sentado debaixo duma árvore frondosa, com um copo na mão e noutra, a fruta (mapfilwa), conta o seu trajecto de vida.
Gosto muito da natureza, é por isso que mantenho este espaço. Gosto de respirar o ar puro. Tenho outro espaço igual em Inhambane e, quando compro, não mexo nas árvores, apenas construo uma casinha e deixo assim”, diz, justificando-se pelo facto de manter aquelas árvores frondosas em todo o lado. E é neste lugar que professor Orlando põe o dedo na ferida, fala da sua história e do estágio actual da música em Moçambique.
NÃO ME CONSIDERO
UM ÍCONE
Fala com rigor e firmeza, características de quem domina e tem noção do que diz. Com uma bagagem maior que as suas próprias costas, continua a tocar com artistas da velha guarda por uma questão de preferência, até porque eles dominam o estilo que faz. Mais do que ter domínio, diz, os jovens também não estão preparados para fazer o estilo de música que ele gosta. Um pouco revoltado, para ele, as pessoas precisam aprender a lidar com artistas mais velhos, porque eles também foram jovens e não “vendedores de barracas”. Mas mesmo assim, em relação a música actual, expressa seu pensamento: “está a progredir, estão a tocar e isso é sinal de crescimento”.
Para o professor, há muita coisa que se deve melhorar, a começar pelo facto de todos terem de passar por uma escola, não obstante o facto de se ser fiel à música, ou seja, viver só da música, Orlando aponta a necessidade de existir mais produtores, excluindo a ideia de gravar-se sem pensar na qualidade: “Grava-se porcarias. Só ouvimos Demos. Eles não se preparam para fazer algo bom, mas também temos certo público que não está preparado para escutar boa música. Há muito que não se toca regularmente ao vivo aqui em Maputo e ou em Moçambique”.
Firme nas suas palavras, Conceição diz haver a necessidade de se promoverem espectáculos de música ao vivo para todas as camadas sociais. Os festivais não ficam de fora nas urgências e desejos deste professor que, para ele, os bairros são a base da cultura e que é lá onde tudo deve começar:
Queremos que haja boa música para todos; para aquele cidadão humilde, para aquele moçambicano que não trabalha, queremos muitos festivais por todo o país, eles são o campeonato de música. Sem isso não se vai além. É preciso ter essas coisas como o futebol que tem campeonatos. Deve se começar dos bairros a fazer os cidadãos ouvir música ao vivo, divulgar a cultura e não só falar e viver de projectos. Queremos coisas concretas”, diz.
Ele chama a urgência de se preparar mais festivais, sem lhes tirar o direito de tocar em espectáculos, festas de casamento, porque é onde há muita gente que “precisa de música ao vivo”, argumenta orlando, que para ele, os empresários é que devem tomar a dianteira e fazer com que a cultura progrida.
Mas o grito de orlando Conceição não pára por aqui, ele alerta sobre o surto dos Dj’s que usurpam o espaço dos artistas e pede mais: “queremos mais casas de jazz, temos que ter essas casas para todos os estilos musicais. Há muitos bares sem música ao vivo. Os Djs estão a roubar o espaço que é nosso. Onde há gente tem que haver música ao vivo porque em todo lado é assim.”
Orlando Conceição, diz que apesar dos anos de estrada que já leva, tem ainda necessidade de aprender mais na música. Ele recusa a ideia de ser considerado um ícone na música moçambicana: “ainda não atingi esse nível”, diz.
ORLANDO
“SAXOFONE”
Orlando José da Conceição, 54 anos, é natural de distrito de Inharrime, província de Inhambane. Filho de Samuel, um professor primário e dona Aleixa, uma doméstica, nasceu a 18 de Fevereiro. Frequentou o ensino primário na localidade de Munjote, Inharrime. Quando passa já para a 4ª classe, mandam-lhe para a missão são Francisco.
Aos 12 anos muda-se para a então “Lourenço Marques”, juntamente com a tia, onde frequenta o primeiro Ciclo Preparatório no Noroeste. Longe dos planos que os pais tinham para o menino, o imperativo nacional falou mais alto. Na década setenta, a Frelimo precisava formar quadros para recomeçar a construção dum país desconjuntado pela guerra de libertação.
“Quando era criança, a minha ideia era ser padre. Minha mãe é que queria que fizesse esse curso. Meu pai queria que fosse engenheiro. Mas como vivia com a mãe então acabei indo parar no São Francisco”, conta.
Em 1978, foi frequentar o Centro de Estudos Culturais. Fez curso de Amadores Culturais e até 1980 já havia aprendido muitas artes desde a dança, o teatro e artes plásticas: “quem mesmo me descobre nessa área de artes foi um professor de desenho. Ele achou que devia seguir essa área porque tinha algum talento”, conta.
Em Setembro de 1981 ganha uma bolsa de estudos para a Rússia, onde vai fazer um curso preparatório em Moscovo e depois, em 1986, aprende música na Arménia. “Formei-me como professor e director de orquestra de música clássica”, conta Conceição. Mas quando regressa a Moçambique depara se com outra realidade. O país ainda não tinha condições para seguir com aquele estilo de música: “fui convidado a integrar num grupo de jazz. Lá tocava clarinete e depois saxofone que aprendi a tocar na Rússia também”.
“É preciso ter condições para avançar com um projecto de música clássica, ela funciona como uma empresa, é preciso ter instrumentos e uma casa para tocar”, acrescenta na justificativa. No mesmo ano, Orlando começa a dar aulas na Escola Nacional de Música.
Actualmente, o professor Orlando afirma ser apenas um artista orientado para os espectáculos e educação, e não deixa de alertar a nova geração para que trilhe o mesmo caminho que os outros, buscando mais ferramentas no ensino: “um artista pode ter talento mas sem capacidade para avançar por falta de conhecimentos técnicos”, ensina.
A veia artística herdou da sua família. Seu avô era líder de uma orquestra de Timbila e era pastor. Consciente do que lhe aconteceu no passado, lembra que teve acesso aos palcos ainda cedo, embora não fosse de brilho. Presentemente, trabalha com a “Big Band”: “sou o director de orquestra do jazz juntamente com Moreira Chonguiça. Estamos também com o Ernest Dawkins, um americano, que é director do New Horizonte Ensamble. Estamos a formar este grupo com jovens que saem da Escola Nacional de Música para a promoção desta arte”.
NUNCA GRAVEI
NA MINHA VIDA
Com tantos anos de carreira, professor Orlando já tocou com artistas internacionais como Ernest Dawkins, Fred Anderson, Abgar Muradiane, mas também com alguns nomes nacionais como o grupo os Galletones, Guilherme Ramos, Mandinho, Artur Garedo, Oslo Baloi. Conhecedor do mundo artístico, diz não ter nenhuma referência pelo simples facto de cada um ter a sua especificidade. Hoje, já com cabelo branco, explica o porquê nunca ter nenhum registo discográfico:
Acho que ainda não fui descoberto e esse não é meu trabalho. O nosso país ainda não tem produtores, quando os houver, irei gravar. Mas também nem todos os músicos tem que gravar, talvez eu não tenha sido feito para isso, não sou músico de estúdio, sou homem de palco”. Orlando diz ainda que na situação em que se encontra ganha mais fazendo espectáculos que gravações: “quando tiver motivação vou”, promete.
Com muitas composições, garante que se quisesse editar, o que ele chama de Demo, já o teria feito há muito tempo. Longe dos estúdios, nos seus sons retrata o quotidiano, canta os problemas do dia-a-dia dos moçambicanos, em função do que vê. Conhecedor de várias línguas, canta em Changana, Chope, Maconde, a´jawa e Português.
Em relação a Indústria Cultural, o professor vê logo uma certa anarquia no que acontece: não há uma política de quem faz o quê, cada um vende o que tem. Não há profissionais, as pessoas não querem estudar, mas a produção estuda-se, porém só querem fazer tudo com base no talento. É preciso ensinar desde criança o gosto pela música, para que se possa distinguir o bom do mau: “Mas só lhes entulham com um barulho”, lamenta.
SÓ PATROCINAM
MANEQUINS E MODELOS
No que tange a questão de patrocínios, professor Orlando, não dá voltas, sem medo põe o dedo na ferida. Os patrocínios, no pensamento dele, são invisíveis: “se estão, então não se vê”, diz, que para ele está sempre a se apoiar as mesmas pessoas. Ele vai mais longe e diz que em Maputo só se patrocina coisas fúteis e que há uma certa descriminação principalmente dos artistas que vivem fora da capital.
“As pessoas pensam que a música só se faz aqui em Maputo. Eu nunca vi artistas de outras províncias aqui. Será que musica só se faz em Maputo?”Questiona. Acrescenta que há a necessidade de se andar por todo o país e promover arte por todo o canto até para os que encontram-se em zonas recendidas. Cita o exemplo de Gwaza Muthine, um evento que acontece em Marracuene todos os anos, em que o público não tem de pagar nada para participar, ouvir música. “O governo tem de organizar mais eventos e deixarem de celebrar e cortar bolos toda a hora”, emenda.
Orlando Conceição questiona como é possível acabar com a pobreza quando, para os patrocinadores, artistas são os que servem apenas para alimentar a moda: “Nunca vi um músico diferente, um artista cego por exemplo a ser patrocinado por eles, mas eles tocam instrumentos que nem conhecemos”.
Esses artistas teriam o seu próprio dinheiro, fruto do seu trabalho para resolverem os seus problemas e evitar pedir esmola para construir uma casa.
“Para os pés descalços nem olham”,lamenta.
Para orlando, a cultura está estagnada, numa altura em que os artistas nem têm uma agenda. “Estão a enganar-nos”, diz, que o ministério da cultura devia andar de província em província e em localidades fazendo com que a cultura gire.
O caso mais chocante, segundo o professor, é do Festival Nacional de Cultura. Os artistas que actuam lá deviam em seguida percorrer o país para serem conhecidos já que nem as emissões televisivas transmitem esses eventos. Alvitra que pode ser resultado do facto de terem a música tradicional como o seu forte. Acrescenta que está cansado de viver de ilusões e que é a hora de coisas concretas:“talvez com a junção da cultura com o turismo as coisas melhorem”.
Os recados não param por ai; para a nova geração, Orlando diz esperar que não seja de simples imitadores porque o pais é rico em matéria cultural. “Eles que procurem mais, que esqueçam essas tecnologias, procurem falar suas línguas para se conhecerem melhor, conhecer as suas bases, ouvir a sua música e não sair para o interior para gravar um velhote com a nova tecnologia sem conhecer as raízes”, comenta.
PAIXÃO
PELO TEATRO
Orlando Conceição, além de ser músico, também foi actor de teatro. Foi um dos membros fundadores do grupo teatral Hôpangalatana. A génese foi um projecto, em 1989, para um filme sobre a guerra em Moçambique mas as negociações para o Acordo Geral de Paz, que entretanto já estavam em curso, fizeram com o que mesmo não fosse materializado. Frustradas as expectativas, juntamente com actores como Victor Raposo, Carlos Alberto, entre outros, fizeram nascer o Hôpangalatana.
A primeira peça que o grupo produziu foi Ualalapi baseada no livro homónimo de Ungulani Ba Ka Khossa. Nela, o professor Orlando ficou com o papel de Ngungunhane, um personagem temido mas também famoso: “O Victor Raposo ajudou-me bastante na altura; aprendi muita coisa com ele”, lembra. Facto interessante é que no Hôpangalatana o professor Orlando Na realidade tratou-se de uma reedição na interpretação do personagem Ngungunhane, papel que fizera ainda criança na escola.
“Foi uma experiencia positiva, mas também foi um desafio. Penso, se a memória não me atraiçoa, que nunca mais se fez aquela peça aqui em Moçambique. Só engrandeceu-nos como actores”,diz, acrescentando que a peça foi apresentada no teatro avenida em Maputo e em Tete. Além dessa peça, fez vários Sketchs para a RTP.
Algum tempo depois, ainda na onda do teatro, o professor Orlando da Conceição, Casimiro Nyusi, Celso Paco, Sergio Baraça, Dany Pedro e Zé Maria fundaram o Kinamataminkuluti (dança amigo as raízes, em chope), que tinha a função de pesquisar, divulgar a música de raiz e também produzir músicas para os espectáculos teatrais.
O professor participou também no projecto que fez “Romeu e Julieta” de William Shakespear, que foi apresentado num festival na Áustria. Agora encontra se distanciado desta arte, alegando motivos de agenda: “o teatro exige fidelidade e dedicação o tempo todo… e a música me rouba mais tempo agora”, explica.
Há oportunistas
que se escondem no “Jazz”
A história do Jazz em Moçambique não pode ser contada sem a menção do professor Orlando. Apaixonado pelo chamado Jazz Standard, tem estado a trabalhar tanto com artistas experimentados assim como com crianças.
Actualmente surgem novos estilos musicais, como o New Word Music, New Classic Soul, entre outros. Conceição diz não se identificar com esses estilos novos, até porque para ele, “há gente de má fé que usa o nome do jazz para atrair clientes. Mas isso também só acontece porque não há ninguém na Associação dos Músicos nem no Ministério capaz de fiscalizar essas coisas porque eles não estão preparados para isso”, lamenta.
Orlando explica que existem entretanto alguns grupos sérios que fazem o Jazz.
Líder do Malhangalene Jazz Quartet, Orlando da Conceição tocou no Maputo Jazz de onde surgiram “Os Pastores”, grupo que integrava, entre outros, o baixista Childo Tomás e Celso Paco. Recorde-se que este grupo participou na primeira edição do Fest Jazz em Luanda, Angola, em 1990.
Saxofone itnerante
O nosso entrevistado viajou pelo mundo. Passou por Chicago orientando workshops, deu uma volta pelo país do Samba, o Brasil, com o grupo CulturArte orientado para dança; pela mesma actividade já passou por Costa de Marfim, Espanha e Suíça. Participou num festival de música e dança na vizinha África do sul. Visitou França, Senegal juntamente com o Rapper Simba, andou pelo Zimbabwe e também cheirou os aromas do fado de Portugal.
Para ele, essas viagens todas só fazem com que o artista deixe de fazer música para o seu vizinho ou para o bairro: “ Temos de começar pelo mais difícil”.
Quanto à literatura, diz não ser um leitor compulsivo, que todos os escritores que têm acesso são nacionais. “ O livro também não esta barato”, comenta. Admira a escritora Paulina Chiziane pelo facto de acreditar que ela escreve de forma africana. “ Quem lê os livros dela vai entender a África, mas leio livros técnicos que é para enriquecer a minha área”.
Orlando Conceição não é só um simples músico. É casado com a dona Delfine Carlos Tembe desde 1987. Pai de 4 filhos, conseguiu formar uma família só de músicos. Seu filho mais velho, o Cremildo é baterista de Jimmy Dludlu e passou pela Escola Superior de Jornalismo. Sua segunda filha, Nguilozy faz parte do grupo Likute. Já a Orlanda toca contra baixo e agora encontra-se num estágio na Noruega. A caçula Milena toca viola.
“Vivemos de música. Todos os meus filhos passaram pela Escola Nacional de Música. Eles não foram forçados a nada. Na minha casa aparecem artistas e temos uma literatura muito grande sobre essa matéria. Desde criança ouvem-nos a tocar todos os dias para além de que penso que toda a criança tem o direito de aprender música”, destaca.
Segundo filho, num total de seis, Orlando da Conceição diz que o Jazz une a sua família e no final de tudo faz uma revelação: “na casa onde moramos viveu o maestro Tchemane, ele que é meu herói cultural, influenciou-me bastante”, revela Orlando José da Conceição.

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