Bodas de ouro dos Galltons

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??????????É comum familiares e amigos reunirem-se no final-de-semana em confraternização, para partilhar as novidades, recordar episódios passados e perspectivar o futuro. No último final de semana – sexta-feira -, a família (banda) Galltones se reuniram para celebrar a sua história, percurso de 50 anos, as bodas de ouro. Na Associação dos Músicos Moçambicanos, entre os presentes, encontravam-se antigos membros, amigos, admiradores e curiosos.


Texto: Leonel Matusse Jr.

MÚSICA-OS-GALLOTONES-Um-trajecto-de-aplausos-e-falta-de-reconhecimento

A noite de sexta-feira deu espaço a festa dos Galltones, a Associação dos Músicos moçambicanos, que habitualmente as sextas acolhe vários músicos para o Jam Section, fugiu a rotina para acolher o concerto das Bodas dessa banda. Num ambiente descontraído e livre os músicos, convidados, amigos e o público que se fez presente circulava no pátio daquela associação sediada no Bairro Central da cidade de Maputo, enquanto a música ia rolando com a banda Real acompanhando aos músicos, excepto aos Galltones.

Para esta celebração, foram convidados músicos da vanguarda e os mais jovens: Xidiminguana, como já é a sua marca, começou a sua actuaçao com um “papo” com a sua guitarra. Joana Coana, António Marcos , Edu, Mabermuda, entres outros.

Os donos da festa subiram ao palco para cantar os seus sucessos: Papaiane, Albertina, Txula Ngoma e Uta Tsaka. Levou ao delírio cantando «Juro palavra de hora sinceramente vou morrer assim. A guala a ni que li tsique ni cumi lintsutsu la wona (não largarei a bebida descobri a sua essência/sabor)».

Membros da banda: Pedro Tchau (57 anos), Américo Mavue (56 anos), Cezar Sitoe e Ernesto Francisco Zevo (67).

Surgimento e percurso

 A história testemunha que a metade do século vinte – décadas 50, 60, 70, precisamente – foi um período de transformações a nível de África. Os africanos despertavam e, de diferentes formas se rebelaram contra os regimes coloniais instalados em toda África. Em simultâneo, buscavam identidade própria, embora, na sombra do colonizador.

Nesse processo, em Moçambique surgia a Marrabenta, que gradualmente foi ganhando espeço nos  arredores de Lourenço Marques (actual Maputo).

Em meados da década (19) 60, o então jovem músico António Marcos, depois de ter actuado na praça de Torres, foi questionado pelo promotor de eventos daquele espaço, de referência na época, se ele tinha uma banda, a que respondeu que «sim», mas «era mentira, ainda não tinha (para não perder a oportunidade). O promotor convidou a minha banda (ainda inexistente) a tocar na semana seguinte», contou o fundador da banda, que saiu do local para forma-la, «convidei ao Aurélio Mondlane, Daniel Langa e o Miguel Dimas, (aceitaram o convite) fundamos a banda. Como eu recrutei os membros, eles deram-me a possibilidade de dar o nome. Então, eu tinha uma guitarra da marca Galltones. Dei o nome Galltones, que foi a guitarra que me fez músico.»

Atingir as bodas de ouro, não estava nas espectativas de António Marcos «não esperava chegar até aqui.»

A actual composição do agrupamento não é a primeira, fundada por Marcos, em meados de 1978, este abandonou-o por desentendimentos com alguns membros. Porém, não deixou de acompanhar o percurso da banda e felicitou Ernesto Ndzevo por continuar a dirigir o grupo de maneira «criativa». E, orgulhoso, disse: «A minha semente germinou.»

Conquistar lugar ao sol, não foi processo fácil, visto que, na altura «havia muitas bandas que não tocavam o nosso estilo (marrabenta), para entrarmos era uma confusão, para tocar uma guitarra eléctrica. As vezes chegávamos nos sítios a chuviscar, ficávamos a espera, depois não nos pagavam nada. Todos tocavam Pop, mas insistimos e furamos até sermos fortes. Fomos convidados a outros sítios.»

Ernesto Francisco Zevo (1948) “Ximanganine”, actual líder do grupo, desde de 1995, após a morte do então líder, Aurélio Mondlane. Entrou para a banda em 1973, sete anos após a sua fundação.

Depois da actuação, com o seu bandolim ao colo, era um homem «realizado», por ter transmitido «toda energia. Aquilo que eu aprendi com o meu professor, falecido Nfany Mpfumo, e o que apresentei no palco. Porque quando se trata de um aniversário, por mais que haja problemas (fazendo referencia ao facto de estar viúvo desde o passado mês de Outubro), temos que descontar.»

Ximanganine decifrou a fórmula da longevidade do seu grupo, proeza conseguida por poucos: «a contagem do trabalho foi sem discussão, com entendimento. Os anos sempre avançam, aqui é como um casal, se não há entendimento, divorcia logo depois do casamento. Temos que dividir sempre por igual.»

Lembrou na ocasião que, como diz o adagio popular, “não há bela sem senão”, os Galltones atravessaram por «várias dificuldades, mas como não dependemos da música, temos alternativos (actividades extras-música), estamos aqui.»

Pedro Tchau (57 anos) quando entrou para o grupo a convite de Salomão Muchanga em 1976, como dançarino, ainda não sabia tocar nenhum instrumento. Actualmente é vocalista e toca guitarra soul. Aprendeu a tocar esse instrumento «nos intervalos dos ensaios, eu pedia ao Ernesto para me ensinar, os fundadores não deixavam, diziam “esses vão rebentar as cordas”. Mas ele respondia “deixa eles, eles é que vão dar continuidade ao nosso trabalho”. Comecei ai aprender a tocar guitarra, tocava ritmo, depois baixo, passei para voz, escrevia as letras do conjunto», contou entusiasmado, depois da actuação.

A banda Galltones é de um significado para Tchau, tão grande que gaguejou, a procura de palavras para defini-la, mas a resposta saiu: «a banda para mim, é meu pai. O conjunto Galltones é que me mostrou o que é a música. Essa banda me ensinou muita coisa.» Nos dias que correm, Galltones é um nome do qual não se faz referência, Pedro Tchau vê este facto como consequência do surgimento «jovens, com playback, já não ao vivo».

O pico da banda foi nos anos «79,80,90 ate 2000, eramos muitos conhecidos nas províncias, mas de 2000 para cà, as coisas começaram a mudar.» O músico que vive a música moçambicana a aproximadamente 40 anos, ainda observou: «a música evoluiu muito, os nossos jovens, estão a recriar a marrabenta.» Para exemplificar citou os jovens «Mr.Bow, Mabermuda.»

Um dos maiores hits dos “Galltones”, foi a música “Juro Palavra de Honra sinceramente vou morrer assim”, música esta que nasceu nas andanças de Pedro, «eu estava num lugar ai a beber alguma coisa e ouvi um jovem lá a tocar essa música. Quando cheguei em casa desenvolvi e dei ao Abílio para cantar.» A música foi um sucesso e, continua sendo, quando se toca nos dias de hoje, vibra aos ouvintes.

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