Há mulheres e mulheres nessas estradas

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imagesMeio-dia acho, o barco atracou na ponte cais da Maxixe. Desci. Ali cruzei com umas conhecidas e nos beijamos em cumprimentos.

Estava com pressa, tinha que “apanhar” o “chapa” que me levaria a Inhassoro.

Chegado a paragem procuro pelo bem dito “chapa” e me foi gentilmente indicado, nada espantoso, estava na terra da boa gente. Eis o espanto: cabelo feito em totó, rabo-de-cavalo, com alguns fiozitos de brancura bem disfarçados, camiseta vermelha de gola, saia cinzenta até ao tornozelo e chinelos de banho. Ela perguntou-me para onde eu ia, respondi-lhe, apresentou-se como chofer, machista a expressão anterior, mas desconheço o seu feminino, talvez seja também do meu pobre vocabulário «nós só ficamos a teclar no whatsapp e no facebook. Ler livros é perda de tempo, mesmo porquê, dá sono logo na primeira vírgula».

Para me livrar do susto, pois, sempre ouvi que «mulher no volante é um perigo constante», fui ali ao lado beber 3/100. Umas 2M bem geladas inundaram a minha pança.

Por volta das duas e meia da tarde partimos, o “chapa” estava oco de viajantes, já se adivinha, a viagem seria longa. A escassos metros dali, entramos para as bombas de combustível. A nossa ilustre chofer, desceu do mini bus para abastecer a viatura, percebi ai que ela viajava sem cobrador, eish, essa mulher.

 Tanque cheio, aliás, não sei, mas já tinha o suficiente para a viagem, porque não paramos em nenhuma outra bomba. A viagem viajou com muitas paragens. Tirei um livro da sacola, que não consigo terminar tem já alguns meses, fui lendo para me fingir intelectual aos olhos dos outros passageiros que lotaram durante o percurso. Não havia música, estranho, nesses lugares sempre há algum barulho, reproduzi a minha lista de jazz, aromas sonoros do piano de Omar Sosa, com sabor afro, muito blues.

– Dona, eu só tenho 140 meticais, faltam dez, vou a Vilankulo, disse um candidato a passageiro.

– É para eu fazer o quê? Perguntou a nossa chofer.

Essa pergunta pregou-me um susto, cinco polegadas sem dúvida, tamanha profundidade, «afinal, as mulheres não são mais humanas? E, guiadas pela emoção?»

Prosseguimos, o candidato saiu derrotado e em murmúrios. A viagem prosseguia.

Mais adiante, cinco Chico-espertinhos, todos limpinhos, bonitinhos e bem vestidos, a moda rural, embarcaram a bordo, creio que 12 km depois, não posso ser preciso, somente o saudoso MBS detém dessa capacidade, até vendado precisa que teria percorrido 40 km, mas pronto, isso não é da minha conta.

Eles muito barulhentos e confusos escusaram-se a pagar o valor devido para a viagem. A senhora mais uma vez não quis saber e aquilo foi uma gritaria, os cobradores da Praça dos Combatentes são mais suaves nas horas mortas.

Para a cobrança, despiu-se da sua feminilidade. Não. Me equivoquei, quando se trata de defender ou garantir o pão de suas crias, as fêmeas viram feras. Há que recordar que as leoas é que lideram a caça. Travou bruscamente, escorraçou os Chico espertinhos, limpinhos, bonitinhos, bem vestidos a moda rural. Desceu da viatura e exigiu o pagamento da viagem feita até ali, eles recusaram-se a efectuar o pagamento. Voltou derrotada, com os olhos vermelhos de meter pavor. A viagem prosseguiu.

Me veio a mente uma dessas entrevistas que a gente faz no nosso trabalho. Gilberto Mendes ia estrear uma nova peça na sua companhia, Sexo fraco. Que discutia: será que a mulher é de facto o sexo fraco?

Vinte e poucos chegamos a vila de Inhassoro. Já fiz esta viagem mais vezes, nunca durou assim tanto tempo, talvez a cautela da nossa chofer fora um tanto que exagerada, mas chegamos vivos.

Oh, nem vos disse o nome da chofer… oh, não lembro, deve ser das 3/100, a cerveja sempre afeta-me a memória. É essa uma das maleficies das benencies dos comerciantes de álcool.

Aquele abraço e votos de um próspero 2015 demorei, se ainda estivéssemos em Dezembro pedia boas festas, afinal estamos em Moçambique, aqui funciona assim. Não sabemos desejar.

Por: Leonel Matusse Jr.

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