AS MEMORIAS DE NECO E ISABELL NOVELLA

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A veia artística dos Novella é um Fenómeno a estudar. O mesmo berço viu nascer Isabel e Neco, artistas que abraçaram a música como profissão e hoje colhem os frutos de seu trabalho. Com um percurso diferente e a mesma convicção, estes dois irmãos seguiram os seus sonhos e ganharam reconhecimento pelo seu esforço. O concerto acústico, “Vivencias e Memorias”,que juntou novamente os dois em palco, foi o pretexto desta conversa.   


Texto: Hélio Nguane
A música separou e uniu os Novella

pageA música sempre foi uma constante na casa dos Novella. Os seus avôs e pais estão ligados a música, de forma não profissional, e intuitivamente transmitiram a sua veia artística aos seus discedentes.

Neco Novellas cedo interessou-se pela música. “Passava o dia inteiro fora de casa, tocando e cantando. Não sentia fome nem sede. Meus pais ralhavam, mas eu não deixava a música. Me colocavam de castigo, mas fugia para ir tocar. Com o passar do tempo, ele (meu pai) apercebeu que era um artista e eu me convenci que a música fazia parte de mim”.

Isabel escutava o irmão a tocar com os amigos no muro de sua casa. Um dia ganhou coragem e pediu que ele lhe ensinasse a cantar. Neco aceitou o desafio. “Na altura não tinha formação na área, apenas aprendia música na igreja, mas transmitia a ela o pouco que sabia”, recorda Neco.

Isabel levou a arte avante e formou com suas amigas do bairro, Fomento, o grupo PECANFO (Pequenos cantores do fomento). Enquanto Isabel dava os seus primeiros passos, Neco despontava no programa Televisivo Sabadão. “A partir daí senti o compromisso com o público. Tinha de apresentar sempre algo novo. Formei uma banda e passei a olhar a música de forma mais profissional”, revive.

A música separou os irmãos Novella. Neco arrumou as malas, deixou sua família e rumou a Portugal para cursar música. As saudades o atormentavam. Longe de sua terra, as adversidades minavam o seu caminho e a incerteza reinava em seus dias.

“Seguir um sonho não é fácil. É complicado deixar amigos e família a procura de um sonho. Eu não vi o meu sobrinho crescer e hoje já tem 10 anos. Esta parte sentimental ficou para trás”, relata Neco, com o rosto amarado.

Na diáspora a vida não lhe era fácil. Sem condições financeiras confortáveis, este artista moçambicano lutou pela sua afirmação. “Fui ao estrangeiro não como bolseiro. O pouco que lá tinha era fruto do meu próprio esforço. Travei uma luta titânica (dura) para me afirmar”, lembra Neco de queixo levantado.

A arte deu forças a este músico. No estrangeiro Neco conquistou o seu espaço e tornou-se um cidadão do mundo. “Primeiro lutava para ter passaporte, um bom visto, mas agora já me sinto mais seguro. Sou reconhecido, recebo convites de embaixadas, instituições que procuram música Moçambicana, e tem-me como referência. Valeu o esforço. Fora de Moçambique colhi muitos conhecimentos, sou capaz de ensinar o país todo”.

Preservar a cultura no estrangeiro

Neco reside fora do país há aproximadamente 20 anos e tenta preservar os traços culturais moçambicanos.

“Nunca parei de falar as línguas nacionais, mesmo sem ninguém para conversar nas nossas línguas, dialogava comigo mesmo. Fazia poemas para preservar em mim esses idiomas que nos caracterizam. Fora do país procurei encontrar um instrumento musical que nos identifica: a timbila”.

Não vou regressar a casa…

Neco Novellas não tem planos de regressar definitivamente para a sua terra natal. “Quando saímos perdemos o nosso circuito. Quando regressamos temos de criar de novo o nosso espaço. Além disso, fora de Moçambique a realidade é diferente. Existem leis e instituições que protegem os artistas e suas obras, o sistema funciona. Não pensas em voltar para onde tuas obras estarão desprotegidas, queres continuar e colher mais informações. Sem falar do dinheiro, que é muito inferior ao que recebes no estrangeiro. Enfim, são vários os factores que fazem os artistas não regressarem”.

Neco é da ideia de que os artistas devem procurar novos ares além fronteiras. “Temos de descobrir novas culturas. Colher novos conhecimentos, fazer intercâmbios e desenvolver a arte”.

Isabel acredita que nem todos têm de sair. “Já estive fora, mas já voltei. Agora estou entre Moçambique e a África do Sul. Na terra de Mandela há melhores condições. Mas, na minha óptica o importante é o intercâmbio, troca de experiência. Não penso em sair, mas se surgir uma oportunidade aliciante posso rumar nesta aventura”.

O desenvolvimento de Isabel

Enquanto Neco estava no estrangeiro, em Moçambique Isabel firmou-se como cantora. Foi a primeira moçambicana a assinar com a sul Africana Native Rhytms e com a Sony Music. Gravou, em 2012, o álbum intitulado Isabel Novella.

Com a repercussão das músicas veio a responsabilidade. “Encarrar a música como profissão não é tarefa fácil. Tenho o dever de não decepcionar o público que acompanha a minha carreira. Trabalho dia e noite por eles”.

Quando Neco repara para a carreira de sua irmã apenas um termo lhe aparece na mente. “A palavra orgulho usa-se nestas ocasiões. Normalmente seria um pai a sentir isso, mas eu, irmão, sinto. Olhando para o percurso dela, começo a acreditar que é possível ter um sonho e realizar. Desde o início senti que ela era mais dedicada que as outras. A música está dentro de si”.

Musicalmente, Moçambique é só Maputo

Recentemente foi lançado um livro sobre as indústrias culturais em Moçambique. Na visão de Neco é necessário a existência de “uma instituição que proteja os direitos do autor. Antes de criarmos uma indústria temos de proteger o artista, registar as suas obras”.

Na visão deste músico a indústria cultural deve ser um veículo com o resto do mundo. A nossa música deve circular.

Em relação ao estado da música Moçambicana, na visão de Neco Novellas, o sistema não funciona bem. “As músicas do norte e do centro dificilmente chegam a Maputo. Tudo se resume a Maputo e infelizmente na capital não temos condições para desenvolver a nossa música. Por exemplo, aqui não há madeira para construir uma timbila. Temos de abrir espaço para que a música de todos cantos de Moçambique seja ouvida”.

O reencontro

No dia 12 de Dezembro, no Centro Cultural Franco Moçambicano, mais uma vez Isabel e Neco Novella dividiram o mesmo palco.

“A ideia inicial era fazer um concerto meu. Neco decidiu passar o natal com a família e aproveitamos para juntarmos o útil ao agradável: fazer um concerto duplo onde retractamos todas as nossas vivências e memórias,” Esclarece Isabel.

Neco acrescenta: “já não convivemos juntos a cerca de 20 anos. Queremos mostrar o nosso crescimento musical, como foi o nosso passado e o nosso estágio actual”.

Mário Macilau desenhou o conceito do concerto acústico com Isabel Novella. “Macilau ajudou-nos na produção do evento. Ele auxiliou-nos na preparação do palco. O concerto foi acústico para evidenciar a performance vocal”, esclarece Isabel.

 

Discografia

Neco Novellas:

Ngoma Mi sinha- 1998

Mita famba- 2006 (Gravado na Holanda Não foi distribuído em Moçambique)

Ku khata – 2008 (Gravado na Holanda Não foi distribuído em Moçambique)

Munthu- 2010

Water (2015) por estrear

Isabel Novella

EP- 2011

CD- Isabel Novella – 2012.

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