Cineasta José Cardoso: um homem sonhador

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CardodoO mais sonhador de entre os seus amigos, com uma máquina de filmar ansiou fazer cinema para melhor se expressar. E conseguiu, graças à sua força de vontade e ajuda dos seus amigos.

Calmo, pouco falador, sempre com um olhar distante, um cigarro entre os dedos, irónico e bem-humorado, José Cardoso deu vida aos seus sonhos e tornou-se num cineasta premiado, fonte de inspiração para seus filhos e espelho de força de vontade.
Cardoso nasceu em Figueira de Castelo Rodrigo, numa aldeia do Norte de Portugal, a 6 de Abril de 1930. Perdeu os pais quando tinha um ano de idade e veio a Moçambique com o seu tio paterno, em 1939.
No dia 4 de Outubro assinalou-se o primeiro ano do seu desaparecimento físico. Ele foi-se, mas a sua história prevalece. E é na voz dos que o viram em vida que a mesma é contada.


Cardodo
Na sala da casa de Cardoso evidencia-se uma foto de casamento de Laura e José Cardoso. Os dois conheceram-se na Beira, província de Sofala, onde ela sempre viveu. “Cardoso foi um homem apaixonado e sabia demonstrar. Recordo-me de um poema que ele redigiu, cada verso começava com uma inicial do meu nome. Casámo-nos, em 1957, e dois anos depois tivemos a nossa primeira sorte, João. Eu dediquei a minha vida ao meu marido. Eu era a sua fiel companheira e ‘secretária’. Acompanhei sua carreira até ao último dia de sua vida”, conta.
Sempre na primeira fila dos eventos do marido, além de memórias, Laura guarda fotografias, recortes de jornais e anos de convivência.
“No dia das nossas bodas de ouro, meus filhos e amigos surpreenderam-nos com uma festa surpresa. Era costume irmos a casa de Álvaro Simões, o melhor amigo de Cardoso, na Matola. Foi lá onde se realizou a festa, foi algo único”, revive Laura com uma expressão de felicidade.
A FORTUNA DE CARDOSO
Antes da sua morte, Cardoso deixou um testamento onde declara ao mundo que os seus três filhos são a sua maior fortuna: João, Luís (1962) e Alexandre (1975).
João é fotógrafo. Luís é artista plástico. Alexandre, o mais novo, é profissional de Marketing e é o único que vive em casa dos pais. Eles acompanharam a carreira do pai de forma atenta e conhecem e compartilham os seus sonhos.
“Ele para nós é um exemplo, um espelho. Cardoso ensinou-nos a não discriminar, seja o mais pobre que está na rua. Ensinou-nos a relacionarmo-nos com as pessoas sem olhar para a cor da pele, raça, religião ou posição social. Graças a isso, integramo-nos em qualquer ambiente com facilidade”, afirma João.
“O Sr. Cardoso era mais de diálogo. Ele podia ficar uns dias a pensar na melhor forma de te dar uma advertência. Minha mãe é que tomava as decisões radicais. Em casa não havia decisões duplas. Se a mãe dizia não, meu pai também dizia não, e vice-versa”, explica Alexandre; e Laura emenda: “Quem fazia queixas apanhava no rabinho”.
Nos aniversários e outras datas comemorativas, José Cardoso gostava de ter a família próxima.
Cardoso foi sempre um amigo presente, conforme testemunha Álvaro Simões, o melhor amigo de Cardoso. “Vim de Lisboa, Portugal, com 19 anos, e encontrei em Cardoso um companheiro para a vida. Tínhamos os mesmos interesses. Eu ajudei na sonorização dos seus três primeiros filmes (“Anúncio”, “Raízes” e “Pesadelo”). Executámos várias actividades, dentre elas o cinema e o teatro”, recorda.
RELIGIÃO
Alexandre conta que o pai era agnóstico, não professava nenhuma religião. “Ele não era de imperar, dizer não vai à igreja, mas mostrava, através de argumentos, o melhor caminho a seguir. Um dia disse a ele que queria ir à igreja e ele interrogou: se esse Deus é tão misericordioso, onde ele estava no genocídio de Ruanda?”, revive Alexandre.
A AVENTURA DO CINEMA
Na casa de José Cardoso, a primeira imagem que chama atenção é a máquina de filmar estacionada na mesa de uma cabeceira que está ao lado de um sofá. Este pequeno engenho metálico, com dimensões irrisórias, foi o instrumento que engrandeceu Cardoso e lhe ofereceu os prémios que a mesa encostada no corredor da casa de Cardoso mal consegue albergar.
As aventuras cinematográficas de Cardoso iniciaram em 1955 e 1956. A sua equipa de trabalho era composta por empregados de comércio, dois contabilistas, um trabalhador dos Caminhos-de-Ferro de Moçambique, entre outros amigos.
Este cineasta começou a gravar numa casa de madeira e zinco, no local onde hoje está o Cinema Nacional da Beira. “Eu era o maior sonhador de entre eles. Filmávamos aos fins-de-semana e tínhamos de coordenar com a disponibilidade dos restantes membros da equipa”, revela numa entrevista dirigida por Rui Trindade, em 2013.
Cada plano gravado era mandado para a Itália para ser revelado. O material demorava em média três meses para chegar a Moçambique. Às vezes detectavam alguns erros, como problemas de continuidade e dessincronização, nas gravações, e tinham de repetir algumas cenas.
Na década 1950 foi formada a Secção Cineastas Amadores e mais tarde Cine Clube da Beira. “O cinema é algo que tive sempre dentro de mim. Não sou muito bem a me expressar em palavras; expresso-me melhor através do cinema, da imagem. O trabalho era feito por minha conta, usando fundos próprios”, confessou Cardoso na mesma entrevista.
O Cine Clube da Beira ganhou notoriedade e veio a tornar-se o segundo mais importante do mundo português. Nele eram organizadas secções de cinema, concursos, entre outras actividades”, lembra Álvaro Simões.
Na década 1960, José Cardoso realizou três filmes (curtas-metragens) de ficção: “Anúncio”, “Pesadelo” e “Raízes”.
“Anúncio” foi o primeiro filme de ficção de Cardoso e traz a história de um homem desempregado e que anda à procura de emprego na época do carnaval. “Precisava de um actor para interpretar o papel principal. Tinha de ser um homem com aparência de esfomeado, um indivíduo que passava mal na vida. Procurei o actor, juro que procurei. Num dia, barbeando-me, olhei para o espelho e encontrei-o, fiz-lhe o convite e ele aceitou”, ironiza Cardoso.
A canção (Vejam bem) que abre o filme “Anúncio” é da autoria de Zeca Afonso, o conhecido compositor e cantor de baladas de intervenção. É uma referência como cidadão, política e socialmente, não apenas em Portugal. Ele viveu em Moçambique na década de 1960 e escreveu a canção especialmente para o filme “Anúncio”. A curta-metragem demorou um ano para a sua execução e é um dos filmes mais premiados de Cardoso.
“Escrevi o filme de uma forma ligeira, agradável. ‘Anúncio’ representa um cinema directo, mais populista, enquanto ‘Pesadelo’ e ‘Raízes’ são filmes mais intelectualizados, cheios de simbolismo”, explica o realizador dos filmes.
“Raízes” traz os problemas que muitos pais sentem na educação dos filhos e reflecte sobre as influências nocivas que se encontram na educação das crianças.
O filme “Pesadelo” trouxe complicações para Cardoso. Ele foi apreendido pela censura portuguesa no Festival de Lobito, em Angola, acusado de protestar de forma camuflada e mostrar a luta de libertação nacional que já havia eclodido em algumas colónias portuguesas.
Com estes filmes, Cardoso participou em festivais nacionais e internacionais e ganhou reconhecimento, menções honrosas até os grandes prémios (primeiro, segundo e terceiro lugares).
O XADREZ E O TEATRO
Para além do cinema, José Cardoso e os seus companheiros faziam tertúlias de poesia, música, cantigas, teatro, campismo, entre outras actividades. “Tínhamos um grupo de teatro e representávamos várias peças de Gil Vicente e de vários outros dramaturgos. Ainda me lembro de uma peça de Bertold Brecht, que até incluía fados e guitarradas de Coimbra, cantadas por Zeca Afonso depois de enfrentarmos a censura”, recorda Álvaro Simões.
“Para o nosso lazer e distracção, jogávamos xadrez. Esta arte era a minha válvula de escape. No xadrez, eu encontro-me, ganho forças para resolver determinados problemas da minha vida”, revela Cardoso no documentário “Xadrez da Vida”, realizado por Licínio de Azevedo.
“Cardoso era um grande jogador de xadrez, não tinha adversários, até de costas ele me vencia”, relata Álvaro Simões. Laura acrescenta que “ele um dia desafiou cerca de uma dezena de jogadores lá na Beira e venceu todos”.
AS TRANSIÇÕES NA VIDA DE CARDOSO
José Cardoso fez o nível primário no Instituto Mouzinho de Albuquerque, na Namaacha, e o secundário na Escola Comercial e Industrial Sá da Bandeira, em Lourenço Marques. Sonhava em seguir Desenho, Artes Visuais, mas o tio desincentivou-o, pois este acreditava que o curso era para ricos. Com 14 anos, Cardoso iniciou-se como farmacêutico na Farmácia Central.
Em 1946 rumou à cidade da Beira para trabalhar na Farmácia Graça. “Em 1975, depois da independência, recebi um convite para trabalhar no Instituto Nacional de Cinema (INC), actual Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC) – desde 2000. Mesmo sabendo que na farmácia recebia 30 contos e no INC ganharia 12 contos, sem hesitações aceitei, pois sempre gostei de cinema”, conta Cardoso no documentário.
Na Beira, este cineasta criou uma delegação do INC e meses depois foi transferido para Maputo, para executar uma missão: chefiar a produção cinematográfica deste instituto. De referir que nesta época Cardoso criou O projecto do Cinema Móvel, que se pensava estender-se por todo o país.
Passados dois anos, Cardoso deixou o cargo para executar o trabalho de realizador. Em 1981 realiza o seu primeiro documentário (“Que venham”), baseado no comício do Presidente Samora Machel sobre a agressividade dos ataques perpetrados pela África do Sul.
Em 1982 é realizada longa-metragem a cores “Canta meu irmão, me ajuda a cantar”. “Meu pai percorreu todo o país, de Niassa a Maputo. A ideia era a partir do Festival Nacional Canção Tradicional e filmar as vivências dos artistas no seu local de origem”, explica João. Nos dois anos seguintes, Cardoso realiza “Buzi: as duas margens de um rio” e um filme sobre as crianças.
“O Vento Sopra de Norte” foi o primeiro filme de ficção moçambicano feito de raiz, com fundos e pessoal nacional. O filme foi criado 20 anos depois das primeiras experiências cinematográficas de Cardoso, na década 1960. O filme é baseado na leitura de uma crónica de José Carlos Areosa Pena, com o título “O costa barrigudo”.
A história do filme decorre na década 1960, quatro anos depois da inclusão na luta de libertação nacional e retrata o sentimento que se viveu naquela época. Cardoso usou a obra de Pena como apontamento e juntou com as suas experiências de vida e conversas, que travou com algumas pessoas que viveram nesse tempo. A ideia inicial de Cardoso era fazer uma “curta”, mas acabou criando uma longa-metragem.
Manuel Maló, ex. trabalhador do INC, foi o primeiro a mexer o material (fitas) do filme “O Vento Sopra de Norte”. “Naquele dia senti o peso da responsabilidade em minha costa. Cardoso era muito exigente e queria que as coisas estivessem ao mínimo detalhe. Dei o máximo de mim e revelei o filme com afinco e dedicação”, recorda Maló.
Ainda no INC, este cineasta foi o mentor e co-realizador do Jornal de Actualidades KuxaKanema. A iniciativa tinha a finalidade de difundir os feitos do governo. O KuxaKanema é apontado como um marco que catapultou o surgimento da Televisão Experimental de Moçambique (TVE), actual Televisão de Moçambique (TVM).
A MORTE DO CINEMA E A TREISTEZA DE CARDOSO
Com a morte do Presidente Samora Machel, o cinema nacional perdeu o seu fulgor. “Depois da morte Samora, o KuxaKanema perdeu a sua força. Posso dizer que aí foi a morte do cinema”, conta João.
Em 1991 ocorre um incêndio no INC, as chamas devoram o arquivo comercial e algumas salas onde ficavam os materiais de produção cinematográfica.
“Quando isso aconteceu ele disse: eu não vou estar num instituto que não tem nada a fazer e estar no fim do mês a recolher dinheiro”, relata Laura num tom de tristeza. Para João, quando Cardoso perdeu a oportunidade de fazer o que mais gostava, perdeu um certo entusiasmo para viver. “A morte do cinema foi a sua morte. Assim que ele deixou de fazer cinema foi a sua queda”.
José Cardoso deixou o INC e com um grupo de amigos de vários sectores de Comunicação Social, na sua maioria, forma a Coop Imagem, a primeira agência publicitária depois da independência nacional.
Posteriormente criou, com os filhos, uma nova empresa, a Publicita, que ainda hoje se mantém e é por mérito deles e de quem nela trabalha o suporte económico da sua e de outras famílias que a ela se conservam vinculadas. A Publicita fez a produção de um total de 32 vídeos sobre educação ambiental. Depois da produção destes vídeos ele deixou o trabalho.
Cardoso conquistava o seu espaço no trabalho graças à simpatia, simplicidade e profissionalismo. Um dos colegas de trabalho de Cardoso no INC, Castigo Uamusse, refere que “José Cardoso era muito paciente e dedicado ao trabalho que executava. Ele adorava ensinar o que sabe aos outros. Apresentaram-me quando ele veio da Beira. Ele foi um pai para mim”.
O LADO ESCRITOR DO CINEASTA
“Nos últimos tempos ficava no computador. Ele refugiou-se na escrita, redigiu as suas memórias, em três volumes de 300 páginas cada, e uma série de contos. O pai raramente saía de casa, recebia algumas visitas dos amigos, Simões e Gabriel Mondlane”, conta Alexandre.
No ano de 2012, José Cardoso participou num concurso literário lusófono, com um conto (“Expedição ao futuro”) e ganhou uma menção honrosa.
“Meu pai tinha uma imaginação muito fértil. Ele falou-me do projecto do conto, que trazia a história de um menino de rua, ‘molwene’, que queria construir uma nave espacial e viajar ao espaço. Eu aconselhei-o a falar com os ‘molwenes’ para saber como eles pensam, ele fez isso e redigiu a história”, relembra Alexandre.
Além da imaginação fértil, Cardoso era aberto às novas tecnologias, e com os seus oitenta e poucos anos criou a sua conta Facebook. “Quando tinha dificuldades, ele perguntava-me como devia fazer isto ou aquilo”, lembra Alexandre.
O ADEUS
Cardoso não era muito de manifestar o que sentia. Era capaz de guardar uma dor para não afligir os que estavam à sua volta. “Meu pai era fanático pelo Futebol Clube do Porto, seguia todos os jogos desta equipa. No dia em que ele foi internado pela primeira vez, descobri o seu mal-estar graças a isso. Na primeira parte do jogo do Porto-Benfica, meu pai saiu da sala para o quarto, eu admirei, pois isso era incomum. Perguntei-lhe o que se passava e ele disse que sentia uma ligeira dor no peito. Dias depois, ele foi internado no Instituto do Coração”, relata Alexandre.
No dia da sua morte, Cardoso levantou às 7 horas e seguiu a sua habitual rotina. “O que notei de estranho foi a sua ociosidade, ele comeu mais que o normal. Às 23 horas, despediu-se e foi ver televisão no quarto. A mãe acordou e ouviu os cães a ladrar. Ele estava fora, no pátio da varanda.
Eu ainda o peguei no colo…”, controlando a respiração para não derramar uma lágrima, Alexandre finalizou: “Ele teve uma morte tranquila. Os vizinhos tentaram levá-lo ao hospital, mas já era tarde”. A morte de Cardoso deixou um vazio na família. “Nós ainda sentimos a sua forte presença nesta casa. Minhas filhas têm medo de passar a noite aqui. Cardoso marcou e marca as nossas vidas”, relata João.
HOMEM MODESTO
José Cardoso morreu sem receber a reforma no INC. No ano de 2013, um representante do governo foi a casa de Cardoso comunicar-lhe que ele receberia uma medalha de mérito. Laura conta como o seu marido recebeu a medalha: “Ele perguntou: essa medalha aqui vai-me comprar os medicamentos?”
Cardoso vivia numa casa modesta, simples. “Para quem o conhecia, sabia que ele era honesto. Essa casa onde estamos não é nossa, é propriedade da EMOSE, e nós pagamos a renda até hoje”.
Ainda em 2013, o Kugoma, na pessoa de Diana Manhiça, homenageou Cardoso, recuperando parte dos seus trabalhos cinematográficos da década 1960. Ainda no mesmo âmbito, lançou-se um DVD com os três primeiros filmes de Cardoso e uma entrevista feita com ele.
“Ele via estes novos cineastas como a sua esperança. Recordo-me da sua alegria, em 2012, quando no dia de estreia do Kugoma foi exibido o filme ‘Anúncio’. Ele era uma pessoa muito especial”, conclui Laura.
HÉLIO NGUANE

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