Entrevista com Deodato Sikir

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“A música me fez encontrar réis e rainhas”

Deodato-Siquir-Vilkaviskis (1)A parede frontal da sala está vestida de uma estante de madeira, com três divisões. Na divisão de baixo vê-se uma colecção de venil com as capas desbotadas, marcas do tempo. Uma TV, duas colunas, entre outros objectos preenchem as outras duas divisões.

No meio da sala, há um jogo de cadeiras sofá e no centro uma mesinha, na ponta de uma das cadeiras há um laptop que liberta uma combinação de ritmo, melodia, som, numa riqueza de instrumentos, ouve-­se um saudável Jazz.

No outro extremo da sala, Deodato Sikir janta com a sua família. Num ambiente alegre, entre conversas faz-se a refeição. As crianças bricam e as vezes ouve­se berros (das crianças).

Depois da refeição, Deodato toma um gole de uísque, leva-me para um canto mais reservado e se mostra disponível a abrir algumas páginas da sua história.


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Auto-Radiografia

Quem é Deodato Sikir?

Deodato Sikir é um jovem cidadão moçambicano, nascido no Hospital Central de Maputo. Viveu, durante 11 anos, no bairro de Maxaquene e frequentou a Escola Primária Unidade 24. Em 1986, passa para a Escola Secundária Noroeste 2. Aos11 anos, meus pais divorciaram­se e eu passei a morar no Alto-Maé com meus avós. Algum tempo depois, minha mãe fixa residência no bairro em expansão e foi por lá onde, então, construo a minha primeira bateria e, depois, passo a tocar com a organização Continuadores de Moz, na escolinha “vamos brincar”. Uma escola de actividades extra curriculares fundada por Malangatana.

Hoje, sou pai, sou músico, sou educador, professor primário formado pelo Instituto Magestério Primário, na altura Centro de Formação de Professores Primários. “Aqui atrás ( apontando a zona traseira do seu quintal), eu saltava aqui o muro para ir a escola” (risos).

És filho de pais separados. Como é que lhe deu com o divórcio dos seus pais?  

O divórcio é um retrocesso e, portanto, nós como filhos tivemos momentos difíceis na vida, por que papa e mamã já não estavam juntos. Tivemos então que nos adaptar a esse novo modo de vida, estar em casa de papa ou estar em casa de mamã.

Como foi a sua infância?

Foi uma infância difícil, minha mãe não tinha condição financeira. Eu vendia palha, às vezes para comprar caril. Ajudava minha mãe a vender frango nas vivendas das avenidas da cidade. Moravamos numa casa de caniço.

Percurso de Deodato

De onde surgiu este bichinho da música em ti?

Eu nasci numa família de fazedores de música, o meu avô, que foi um dos membros fundadores da orquestra djambo. Meu pai e meus tios eram músicos. Meu pai e minha mãe ficavam na “bicha” para comprar venil . Então, essa cultura de música já existe desde o berço. Na sala, aqui de casa, tem uma extensa colecção de vinil, alguns meus e outros comprados pelos meus pais. Então, quando descubro o Triller (o álbum de maior sucesso) de Michael Jackson em …- foi quando me desperta a paixão pelo canto. O irmão gémeo da minha mãe era baterista. Então isto vem codificado no meu DNA.

Deodato construiu seu primeiro instrumento musical aos 11 anos.

Foi uma bateria, feita de latas. O bombo era feito por uma lata de vinte litros e os tontos que era construído de latas de dois litros e meio de salchichas, umas que andaram aqui por volta de 1983 até 87/88. Esta geração actual não conheceu.

Quando é que Deodato faz a sua primeira composição?

Eu penso que foi em 1998/9, quando me surge a ideia de fazer Mozafro. Foi quando eu comecei a compor.

Conte como foi ser membro da Organização dos Continuadores de Moçambique (OCM)

Foi fantástico porque foi nessa altura que muitos dos que são da minha geração, que hoje em dia fazem música, estou a falar de pétalas amarelas que, depois, uma parte constituiu o Top 90, e outra parte virou Kapa 10. E dai também surgiu o Moz Pipa. E nós, a malta da Escolinha, alguns de nós continua nisto, como o Jojó que actualmente é o teclista dos Ghorowane; Dodó, guitarrista da Banda Nkuvu. Comecei a trilhar com todos esses no mundo da música.

Depois de ter saído da OCM na companhia de Jojó, Dodó e outros funda a Jasde. Como é que este agrupamento surge?

Jasde era um grupo constituído por ex-membros da Escolinha Vamos Brincar. Nós crescemos e saímos da OCM. Dai, criámos a Jasde, uma banda.

Como foi que a Jasde terminou. Qual foi a razão?   

Pelo que eu me lembro, em 1990 ganhámos o primeiro concurso de novos talentos, organizado pela associação dos músicos moçambicanos. Nós crescemos e começamos a ter visões diferentes. Eu virei free lancer, o Dodó e os outros idem…

Quando cria sua própria Banda?        

Em 1999 decide criar a minha própria banda (Mozafro), com meus próprios temas. Com a Banda Mozafro éramos residentes no Splash, onde é Elvis Bar hoje, na altura estava tudo coberto, vendia­se sorvete e cachorro quente ali. Nós tocávamos ali todas as sextas feiras e em alguns outros espaços desta cidade que já nem se quer existem.

O que antecedeu este feito (Criação da banda)?

Antes de formar a banda comecei a receber muitos convites de músicos que tocam jazz, eu sou baterista, não entendia nada de harmonias, o quê que toca e que não toca. Era ” 1,2, 3″ e eu tocava (risos). tocar então com o professor Orlando as vezes que nem foram muitas vezes pelo que me recordo, e essas poucas vezes são momentos inesquecíveis. Lembro-me que depois conheci a Irina, que é uma cantora de jazz aqui da praça com a qual trabalhei. Conheço também o guitarrista Julinho que hoje está no Freshly Ground e o Hélder Gonzaga, muito novo mas já era um músico muito talentoso. A história colou e passei a trabalhar com estes dois, este trio acompanhava diferentes artistas como o Dua, Paulo Wilson.

Um artista a procura de identidade

Deodato tocou Rock, passou pela kwassa kwass e depois na companhia do Professor Conceição entre outra toca Jazz. Como foi passear por estes estilos totalmente distantes?

Ya, eu lembro que tive um período metal, gosto muito do metal. Custuma­se dizer que todo mundo começa do metal e termina no Jazz. No período eu fiz rock com o Alfa Tulane, que muitos o conhecem por Tulane, ele é que fazia as composicoes e era um grande compositor, a quem respeito muito. Eu era o baterista, O Danito era o baixista que actualmente vive na Suazilandia e o vocalista era o Joel…

Foi um período bom, porque haviam eventos, muitos eventos de rock. Lembro-me que se fazia muitos eventos no pavilhão da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e nós participávamos lá.

E depois Kwassa Kwassa…

Eu sou um indivíduo que nunca teve medo de experimentar coisas novas. Então, quando me apareceu a sugestão de tocar Kwassa Kwassa, música do Zaire (Actualmente, República Democrática do Congo). O convite veio de trabalhadores do Zaire que trabalhavam cá na embaixada. Eram vocalistas que não tinham instrumentistas e, para fechar essa lacuna, optaram por recrutar moçambicanos. Era, portanto, uma banda constituída por zairotas (congoleses) e moçambicanos. Daí o nome Zamoc Stars. As estrelas éramos nós os artistas.

Foi outro período muito bom. Na altura, fiz uma parceria com o Roland que a presentou o projecto a Oroin, uma editora que existiu aqui na década de 90 e, prontos, fizemos aí um álbum.

Foi com esta banda que eu conheci todo o país. Viajamos de ponta a ponta. É um período que está gravada em mim. É inesquecível.

Sim, pelo que se diz foi a banda de maior sucesso a nível nacional nesse ritmo…

Não havia outra banda que tocava esse ritmo aqui. É por nossa causa que realizadores de eventos que começaram a contratar bandas de Paris, de músicos zairotas (Congoleses) para cá. Nós é que abríamos os concertos, partilhamos o palco com Yondo Sister, Lucciana … Então, tive oportunidade de conhecer estes músicos e aprender alguma coisa deles.

Como é que descobre o Jazz e ficou no Jazz porquê?

Nunca me considerei um músico do Jazz, porque nunca fui à escola de música para aprender jazz. Toco alguma coisa que é música instrumental com algumas influências. Então, o pessoal aqui de Maputo diz que é Jazz, mas eu não chamo Jazz.

Que nome dá ao seu estilo de música?

Esse tal estilo que apareceu, quando eu estava no Zamoc apareceram Baba Haris, Tchica e Lote Paulo a convidar com eles no TXOVA xitaduma por que eles estavam sem baterista naquele momento. Nós tocávamos marrabenta, ritmos africanos e funk misturado com mais alguma coisa. Nessas sessões apareceram o Ivan Mazuze, o Moreira Chonguiça entre outros fazedores de jazz para pôr nome ao que estávamos a fazer, portanto chamaram de Afro jazz.

Com Mozafro…  

Viajamos até Inhambane, Gaza e gravamos também para uma compilação por uma editora sueca, a Caprice Records. Esse período passou, fomos crescendo e fomos convidados a tocar no f…. festival na Suécia, mas só haviam três passagens e eu decide mandar os três elementos da banda.

Uma semana depois da ida deles, recebi outro convite para viajar a Suécia. Então fui lá pela primeira vez em Agosto de 2000.

A internacionalização de Deodato

Como é que fixa residência na Suécia?

Depois da minha visita à Suécia, voltei e fiquei seis meses. Quem me convida para morar lá foi a minha ex-namorada.

Lembro-me que foi um pouco difícil, porque na altura nasceram os meus primeiros dois filhos. Mas nada me deixava pesado, porque eu pensava: tens que ir pelo teu povo. eu podeia ser o elo de ligação entre os de lá e os de cá. E fui, já estou lá há aproximadamente quinze anos.

Como foi recebido na Suécia?

Muito bem, se não teria voltado. É certo que tive os meus desafios. Cheguei lá, não conhecia ninguém. Tive que começar do zero. Ir à escola aprender a língua, entre outras coisas. Tive que procurar músicos de lá e não foi fácil. Remei muito e continuo remando.

Certamente que quem está do lado de fora não tem o mesmo ângulo de visão de quem está dentro. Quem está do lado de fora pode ter uma visão privilegiada, principalmente se já tiver estado dentro. Estando na Suécia como é que vê a musica moçambicana?

Estando do lado de lá a gente vê até onde a notícia vai, a noticia do meu povo desde a situação política à cultural. Pelo lado de lá, observa-se que está a se trabalhar deste lado, embora ainda existam alguns obstáculos em termos de suporte, as coisas acontecem e quando acontecem é bom. São poucas as pessoas que acreditam naquilo que os artistas fazem. Portanto, não estou a falar só de música, falo de teatro, dança…

E, na verdade, o artista só precisa ter alguém que acredite naquilo que ele faz, que assim o artista faz e o faz muito bem.

A relação de Deodato e música

Qual foi o pior momento da sua carreira?

O pior momento da minha carreira foi quando eu não tinha casa para morar, na Suécia. A vida tem altos e baixos e eu já provei de tudo.

Que mensagens pretende levar nas suas composições?

Falo de coisas que já foram faladas pelos nossos mais velhos Nfany Mphumo, Felisberto Felix, Elsa Mangue, Magid Mussa, Pedro Beny, Wazimbo, Orquestra Marrabenta, Stewart Sukuma. Então, se eu tivesse que meter um rótulo nas minhas composições, diria que elas focam mais em aspectos como paz, prosperidade e amor.

A história do álbum Mutema

  1. Mutema… Antes desse, fiz o Balanço que foi o meu álbum de estreia. A produção Balanço durou seis anos. Três anos mais tarde, eu já estava a preparar o segundo e se chamaria Mandamentos da Vida. Mas nessa altura minha mãe ficou muito doente e perdeu a vida, isso me levou dar a uma pausa nisso. E depois peguei no que já tinha e preferi dedicar à minha mãe. Mutema é seu nome tradicional.

O que é que a música deu ao Deodato?

Me deu diferentes ângulos de visão. Me fez encontrar pessoas diferentes, diferentes culturas. Me fez encontrar, viver e trabalhar com alguns daqueles que eu cresci ouvindo a sua música, meus ídolos. Me fez encontrar reis e rainhas.

Deodato está na música há mais de quinze anos e não é um nome popular. Isso não lhe frustra?

Não. Sinto-me bem assim, me permite privacidade. Posso ir ao mercado do Xipamanine à vontade. Para a minha família e para os meus amigos, eu sou popular, isso a mim já satisfaz. O que eu quero ser capaz de fazer é pagar as minhas contas, ter um canto para dormir sem mosquitos. O resto a gente vê.

Influências e inspirações

Quais foram as influências que Deodato teve?

Metálic me lembro que, na altura, Mozafro tocava música africana com influência rock.

É fácil perceber esta semelhança entre Deodato Sikir e Phill Collins. Phill Collins também é baterista e vocalista, assim como Deodato Sikir. Em algum momento, este músico do rock o influenciou?

Nós, em casa, ouvíamos muito Genises o Peter Gabriel, Phill Collins e dos outros membros que de momento não recordo. Mas, em casa, eu tinha outro grande baterista também, que era o irmão gémeo da minha mãe, o tio Armandinho. Esse era muito bom. Muito antes de ouvir Phill Collins, a referência que eu já tinha era ele. Ele tocava e cantava que era outro nível.

Muito novo, eu ia assistir na praça de Torres, Ntsandzala, Folclore. Essas coisas hoje não existem. Eu descubro Phill Collins no Another day in paradise, aquando do repatriamento dos moçambicanos que trabalhavam na  RDA. Não com isso querendo dizer que ele não me tenha influenciado. Ele era um grande compositor, mas não foi por ai.

Quais os músicos que mais admira?

Eu escuto mais a velha guarda, não que não escute os jovens. Estou atento ao que eles estão a fazer, sei que foram lançados bons trabalhos discográficos tais como a Banda Kakana, Isabel Novella. Me identifico com Pedro Beny, Nfunny Mpfumo, Wazimbo, Alexandre Langa, Fernando Azevedo, Resiana Jaime, Elsa Mangue entre outros, por acaso até são nomes que hoje não se ouve. Acho que esta geração perde muito por não ter acesso a essas músicas.                    

O olhar de Deodato ao actual cenário musical Moçambicano

Indo precisamente à música, a malta jovem hoje está a fazer kizomba, house e por ai em diante. A marrabenta e nosso folclore onde ficam?

É uma fase. Um dia eles vão acordar, quando estiverem maduros. O que lhes vai aconchegar é o que é deles. O que eles fazem hoje é necessário, nos enriquece. Eu não estou contra isso. O pessoal jovem está a fazer kizomba e tal, porque este é o tempo deles. Eu também tive o meu período rock, mas teve um dia que eu parei e vi que não tinha nada da minha identidade. E decidi fazer o que é meu, porque eu nunca farei melhor o que é do outro.

Perspectivas para a música moçambicana. Se prestou atenção, no ano passado, muitos álbuns foram lançados. Só para citar alguns exemplos: a Banda Kakana, Isabel Novela, Carlos Gove entre outros…

Kakana, são meus miúdos aqueles. Alguns aprenderam a tocar aqui na minha casa. Ainda tinha casa de caniço aqui. Alguns dos que fizeram o Mozafro, fizeram Banda Azul, hoje, são membros da Banda Kakana. Cresceram aqui. Vindos do Alto-Maé. Na altura, eu tocava com Dua, eu pagava-lhes semanalmente para que não houvesse preocupações de dinheiro de chapa, às segundas-feiras. Às segundas, não havia ensaio, era só um metting. Depois, eu ia dar aulas depois disso. Terça-feira, começavam os ensaios aqui, de manhã ensaiava com Tchica, das nove às doze, voltava a correr para meter qualquer coisa no estômago e depois ia dar aulas. Quando eu voltasse, às dezassete e trinta, a malta do mozafro estava aqui. Ensaiávamos até por volta das vinte e trinta, e as vinte e uma horas saia porque tinha que ir tocar com Zamoc às quartas, no Madjedje.

O que se percebe hoje é que qualquer cultura entra e senta aqui (em Moçambique), depois no final das contas ficamos sem saber o que é nosso. Se pudesse mudar isso, como faria?

Eu sei o que é nosso, o que é meu. Estamos a viver a globalização. Estamos a partir as paredes das desigualdades.

Deodato o pacifista  

Estamos, actualmente, a viver um conflito político-militar. Que opinião tem o Deodato em relação a isso e qual acha que pode ser a solução?

Não estou a favor, nem contra nenhum dos envolvidos. São dois partidos necessários para o desenvolvimento deste país. Não estou a favor da Guerra porque isso é matrequice, retrocesso. Eu creesci em momento de guerrra civil. Ouvia  histórias tristes sobre a guerra e, se a coisa continuar como está, meus filhos poderão ouvir as mesmas histórias. Temos um país com espaço e recursos para todos. O íntimo de um músico

É casado

Já casei, e divorciei. Recasei e estou casado agora há cinco anos. Estou numa relação muito séria. Sou pai de cinco filhos. Ela não é uma moçambicana, mas podia ter sido. Mas não é.

Como é a relação de Deodato com a família?

Eu sou uma pessoa muito presente. Estou em Moçambique há quase um mês, apesar de estar a morar na Suécia, eu sei onde pinga água na minha casa; sei onde partiu-se um bloco porque eu falo todos os dias com a minha família.

Como define o amor?

Tem a ver com percepção, respeito, perdão, crítica. A essa eu chamo de amor. Se eu te vejo a errar e não lhe corrijo , isso não é amor.  

Tristeza e alegria. O que mais lhe inspira?    

Alegria. Não gosto da melodia vinda da angústia.

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