Um avião cruza o céu de Fuerteventura, projectando a sua sombra sobre o deserto árido da segunda maior ilha das Canárias. Em terra, um homem de fato — Wilson (Ian David McShane) — sai do aeroporto e entra num Volvo, iniciando a jornada contemplativa e mortal que define American Star.
Realizado por Gonzalo López-Gallego, o filme segue mais uma missão de assassínio, mas o seu verdadeiro tema é o tempo: o que resta, o que foi perdido e o que se esgota silenciosamente. Wilson, interpretado por um McShane de 81 anos, carrega no olhar e nos gestos a resignação de um homem que já esgotou o seu tempo. A sua interpretação transmite menos a frieza de um assassino profissional e mais a melancolia de quem revisita erros passados — incluindo os que ainda está por cometer.
O ritmo é o de um caçador experiente, mas a ilha impõe a sua cadência. As ondas do Atlântico quebram metronomicamente na praia; a câmara detém-se em pormenores (um envelope cor de caqui, uma fotografia antiga, a porta fechada de um quarto de hotel onde uma criança, Max, ouve discussões violentas). Wilson observa, espera e, em raros diálogos com Glória (Nora Arnezeder) — a mulher que surge no caminho do alvo —, revela fissuras na sua armadura.
O título do filme remete para o American Star, um navio naufragado que surge repetidamente na narrativa — tão imponente quanto corroído pela ferrugem, espelho da própria jornada de Wilson. Como o casco abandonado, ele é um homem fora do seu tempo, preso entre a missão e o peso das suas escolhas. Glória, que fotografa os destroços do navio, parece compreender essa dualidade: há beleza no que está prestes a desmoronar.
Aos elementos do film noir (a femme fatale, o assassino ambivalente), somam-se influências do expressionismo alemão nos contrastes de luz e sombra, e um suspense que evoca os clássicos dos anos 30. Mas American Star é menos sobre um assassínio e mais sobre a espera — do alvo, da morte, de um perdão que nunca virá. Wilson, tal como o navio que dá nome ao filme, é um sobrevivente à deriva, e a câmara de López-Gallego captura essa decadência com uma beleza quase cruel. Resta ao espectador decidir se há redenção no seu silêncio.
