Sábado, Associação dos Músicos. Chegámos pouco antes das 19 horas, a hora marcada para a subida ao palco dos GranMah, depois de os DJ’s terem aquecido a sala para a noite. A fila à entrada já era longa, as mesas no interior estavam preenchidas e um sem-número de espectadores espreitava o palco. Afinal, aquele seria o primeiro concerto dos GranMah em nome próprio, depois de um longo período longe dos palcos. Não que não os soubéssemos com vida, não que tivessem desaparecido do universo da palavra-música; continuaram a juntar às melodias as letras que fizeram deles uma banda do mundo. E, a partir do canal da banda no YouTube, iam-nos chegando as músicas, talvez engodos para o novo álbum. A última música, Calling, parece ter sido lançada mesmo para preparar o caminho para este concerto, um convite a um get-together, longe das roupas formais, dos sapatos apertados, das gravatas que condicionam a respiração, longe da vida de trabalho presa na rotina dos ratos de laboratório.
Pouco depois das 19 horas, no palco, ainda apenas o peso dos instrumentos, como se nos avisassem – e garantissem – que a banda andava por ali. Mas estavam os cinco no backstage, uma espécie de caixa de madeira com reminiscências do Cavalo de Troia.
Já uma multidão abraçava o palco quando ouvimos o nome da banda. E nós, que já os vimos umas tantas vezes, tínhamos uma expectativa para o início. Mas, como um costureiro sem grande paciência para encontrar a ponta do novelo, puseram-se a inventar novas pontas, logo, novos começos.
Vestidos de noite, primeiro entraram os instrumentistas: Migzz para a bateria, Luís Silva para a guitarra, Miguel Marques para o teclado, Leo Fernandes para o baixo e… outro exercício de paciência. Regina demorou-se a chegar, e talvez só depois percebêssemos porquê. Entrou em palco com uma blusa (ou um colete de guerra?) de missangas pretas, amarelas e vermelhas, pacientemente entrelaçadas, e calças tácticas, mas com os bolsos feitos de capulana. As novas guerras têm outras fardas. “I’m a warrior, don’t forget I’m a fighter”, cantaria em palco, com máscaras evocativas das nossas formas de fazer guerra a passarem na tela ao fundo.
A marcha seria ainda longa. Quando introduziram, numa espécie de prelúdio para I Got to Move, o refrão de I Gotta Feeling, o hino dos Black Eyed Peas, todos já tínhamos a certeza de que estávamos a ter uma grande noite. Mas não foi uma noite apenas de celebração. Depois de um percurso de feeling good music feito com músicas como GranMah Sound e Perfect Plan e com a bandeira maior, I Got to Move, ouvimos músicas mais contaminadas pelo chão que lhes sustenta o caminho, pelos tempos sombrios que vivemos. Talvez completamente despropositado, mas na grande sorte da conjugação dos astros a acrescentar camadas, às 20:17 cantavam Danger Zone. 20:17 invoca 2017, o ano em que os ventos das praias de Cabo Delgado começaram a chegar com pólvora e grandes labaredas de fumo, deixando para trás mortos, muitos mortos. Danger Zone, uma faixa nascida depois da morte viral de uma mulher às mãos de homens de farda, quer lembrar-nos de uma guerra que caminha para o oitavo ano e que já nos cansámos de sentir e chorar, como um coveiro anestesiado pela morte.
“Já não é notícia, mas a guerra em Cabo Delgado continua”, lembrou-nos Regina, naquela voz a que nos habituámos a ouvir cantar, mas que pouco ouvimos falar. E tê-la ouvido falar fez-nos perceber de outra forma o que canta, porque o jornalismo – e assim foi com o terrorismo em Cabo Delgado – espreme até sair sangue e, depois, são apenas mortos prensados nas caixas impessoais das estatísticas. E é por isso que existe a música.
Ghaya, outro aceno ao terceiro álbum, é este reflexo deste tempo, destas manhãs que chegam sem nunca sabermos se com sol ou com sangue. “Eu quero é viver num mundo mais lindo, minha terra / O amanhecer não é garantido, minha terra”, cantava Regina, e todo um coro adensava a intensidade da incerteza. E já ninguém dançava; as cabeças abanavam levemente por cima dos ombros encurvados pelo peso das dúvidas. E nunca chegámos a ter a certeza se aquele refrão era uma aspiração ou uma constatação.
Quase no fim, como se o amor nos redimisse das grandes agruras, o último acto do espectáculo foi embalado pelas love songs, como 3.23 e Sing About You, com a cadência lenta de dois corpos a acordar depois de uma noite de revolução.



