Lucrécia Paco: um percurso de lutas e aplausos 

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Foto: Júlio Marcos

Ao olhar o percurso de Lucrécia Paco, um dos nomes sonantes quando se fala da gênese do Teatro em Moçambique, reafirma-se o que tanto se diz “tudo parte da infância”. Para a actriz, as artes nunca foram um sonho, mas sim uma paixão. Em tenra idade, cantava, dançava e declamava, sempre que houvesse oportunidade, no bairro e até na escola, onde recitou poesia de combate de Moçambique pós-independência. Quando deu por si, Lucrécia Paco já estava mergulhada nas artes e a integrar companhias de teatro, como “Tchova Xita Duma”, que foi uma abertura para pertencer ao elenco que veio a fundar o colectivo “Mutumbela Gogo”.

“Integro o Tchova Xita Duma, um grupo que apresentava peças no teatro avenida e eu faço casting pela primeira vez porque já sabia que queria ser actriz e queria viver da arte”, conta Lucrécia Paco.

O casting exigia três expressões artísticas, nomeadamente o canto, dança e declamação que “já era minha praia”, sustenta. Aprovada, a artista recebe um papel na peça “A Revolta da Casa dos Ídolos”, um texto do escritor angolano Pepetela e encenado por José Pinto de Sá.

Depois disso, as participações não cessaram, tendo contracenado com actores nacionais que lhe serviam e servem de referência na representação.

“Tive a oportunidade de partilhar o palco com João Ângelo, Manuela Soeiro, Victor Raposo. Depois da “Revolta da Casa dos Ídolos” consegui contracenar com Ana Magaia”, revela a destacar que “foi muito bom realizar esse sonho e conseguir estar com as minhas referências”.

Lucrécia Paco continuou a representar junto dos membros da companhia a que integrava, até que recebeu um convite da também actriz Manuela Soeiro para integrar o elenco que funda a companhia de teatro “Mutumbela Gogo”. Tudo parte do sonho de Manuela Soeiro: fazer teatro profissional. 

“Neste elenco, estava, para além de João Manja, a Elisa Maússe, a Graça Silva, Victor Raposo. E é daí que integro o elenco que funda Mutumbela Gogo”, avança Paco.

Um desafio: A aceitação na família

Conciliar os estudos e fazer arte foi um dos principais dilemas no percurso de Lucrécia Paco. O desempenho escolar da actriz deixa de ser dos melhores, o que levantou inquietações por parte de seu pai. Manuela Soeiro é apontada pela artista como quem muito fez para convencer ao seu pai de que a arte é o melhor caminho a seguir, sem interferir nos seus estudos.

“Muitas vezes, as pessoas não entendem quando digo que sou muito grata à Manuela Soeiro. Não entendem quando digo que a Manuela é minha professora, minha mestre, é minha mãe nas artes”, revela Lucrécia Paco acrescentando que “dentre as coisas que ela fez, foi conversar, longamente, “com meu pai, que exigia que eu continuasse a estudar ”. A exigência foi cumprida e a jovem actriz ganhou carta branca para subir aos palcos.

Embora tenha estudado Contabilidade na Escola Comercial, sua paixão sempre foi pela arte.

“Não queria fazer o curso, as aulas eram em dois turnos, de manhã e de tarde, então, dificilmente, conseguia tempo livre para fazer teatro, estudar e conciliar tudo”, descreve a sublinhar que Manuela teve a ideia genial de ter professores a darem-lhes aulas no próprio Teatro Avenida. As lições aconteciam de manhã e os ensaios de tarde.

O vento que soprou Lucrécia à sétima arte

Lucrécia Paco participou, igualmente, do filme “O Vento Sopra do Norte”, considerada por muitos o primeira longa-metragem inteiramente nacional, uma das primeiras incursões de produção cinematográfica moçambicana, pós-independência. O longa de ficção revisita a última fase da ocupação colonial em Moçambique. O filme continha cenas “picantes”, empregadas, também, no papel de Lucrécia Paco, na altura uma jovem sob responsabilidade de seus pais.

“Foi difícil fazer o trabalho”, afirma e segue explicando que “havia uma consciência de que se tratava de arte e era uma cena de amor. Não era promiscuidade e nem pornografia, foi preciso também dizer que haveria muito cuidado no momento da gravação das cenas”.

Devido a idade da actriz, foi necessária máxima protecção por parte de todos, mas “meu pai sabia o que era arte e representação, sabia o que era cinema. Ele era uma das pessoas que nos levou, muitas vezes, ao cinema dos Continuadores, então não seria estranho se ele aceitasse ou autorizasse uma cena de amor porque ele sabia o que era cinema”, explica.

Uma actriz no activo

Depois de sua participação em “O Vento Sopra do Norte”, Lucrécia Paco ganha destaque e participa de várias peças, na sua maioria como actriz principal. Hoje, ainda com tantos anos de percurso nas artes, Paco, adapta-se a novas realidades, cria e surpreende.

“O amor, perseverança e respeito pelo que fazemos é a fórmula para continuar no activo”, avança deixando sua vénia a todas manifestações artísticas existentes no país.

“Há momentos em que mais do que conseguir suportar, é sentir a necessidade de fazer, é sentir e estar atento. Há muita coisa que nos inspira, então é assim como eu me mantenho. Costuma-se dizer que o artista tem que ter fome. Então, eu mantenho sempre a fome da arte, por isso penso que consigo manter-me”.

Desde o dia 23 de Novembro de 2022, Lucrécia Paco orienta, em parceria com o espaço cultural “Projecto Utopia”, uma oficina de teatro para adolescentes. Trata-se de uma actividade voluntária da actriz e que se estende até o mês de Junho do ano em curso.

“É um grande desafio dinamizar as oficinas, mas também é um momento de aprendizagem. Um privilégio partilhar o meu legado com as crianças. Eu também cresci fazendo arte, cantando e dançando. Então, é trazer essa oportunidade que eu tive. É uma forma de contribuir e também é a minha gratidão”, descreve.

Com a oficina pretende-se abrir o horizonte criativo das crianças. Nas sessões, os adolescentes têm a oportunidade de improvisar em representação, tendo em conta as vivências da sociedade, bem como desenvolvem actividades de leitura e canto.

Um dos aspectos que torna a actriz singular é o facto de estar sempre disponível para colaborar com a nova geração de artistas nacionais. Por exemplo, em 2021, juntamente com Lenna Bahule, Lucrécia apresenta a performance “Fé-Menina”, na Fundação Fernando Leite Couto. 

Em 2022, participou igualmente de várias peças, com destaque para “Palavra Dita, Palavra Cantada”, um espectáculo que explora a musicalidade de textos poéticos e narrativos do livro “Nhembete ou as cores das lágrimas”,   de Calane da Silva. No mesmo ano, fez encenação de “Babalza das Hienas”, uma narrativa aberta com cenas de amor e esperança.

Lucrécia Paco, em 2022, também interpretou “Entre Corpo e Alma”, de Ramadane Matusse, no Centro Cultural Franco Moçambicano (CCFM). A actriz partilhou o palco com Nélia Gilberto e Paulo Jamine. 

Em 2010, Lucrécia Paco foi protagonista da telenovela moçambicana “Nineteens”, de Chico Amorim.

Esta matéria está integrada no Diversidade, produzido pela plataforma Mbenga Artes e Reflexões, conta com o apoio DIVERSIDADE, um instrumento de financiamento do PROCULTURA PALOP-TL – Promoção do Emprego nas Atividades Geradoras de Rendimento no Setor Cultural nos PALOP e Timor-Leste, financiado pela União Europeia, cofinanciado e gerido pelo Camões, I.P., em parceria com a rede de Institutos Culturais Europeus (EUNIC).

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