Não há shortcuts para pára-quedista

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Pára-quedista acordou cedo, como sempre, mas não atrasou, ligou chuveiro, esqueceu que não tem secador, molhou cabelo, enxugou o arrependimento com toalha, colocou loção no corpo todo, não só nas mãos e na cara, olhou para o pára-quedas, colocou nas costas com pressa e saiu.

As gotas do cabelo tocaram o chão de suas recordações, há meses que não vai ao salão, porque cabeleireira chama Pára-quedista de amor e companheira de Pára-quedista desconfia, jura ter sentido cheiro de cabeleireira nas cobertas e nas entrelinhas das mensagens que Pára-quedista jura não ter atiçado.

Chegou a estrada, sentou ao lado do motorista e por 20 minutos segurou o volante do semicolectivo, entregou os trocos ao cobrador, enquanto enviava SMS, atendia chamadas e resolvia os pendentes com as mulheres que só verá quando despegar às 20h. Ser motorista da Katembe não é fácil.

Pára-quedista olhou para os passageiros, agora já é a filha que esqueceu dinheiro de voltar. Olha para a mãe de 32 anos, que lhe insulta como se fosse a rival e o dinheiro o homem pelo qual disputam.

“Ungani Nhenhentse”, gritou a mãe. Sem argumento, Pára-quedista, agora menina de 16 anos, olhou para os cantos, fez cara de vítima, mas faltaram lágrimas para completar o pedido de solidariedade. Sem piedade, cobrador anunciou paragem. Pára-quedista saiu com pára-quedas, porque gosta de cobiçar, olhou BMW 331i e já é motorista, escuta num volume alto General música. Desliga o som, regula os espelhos, fecha os vidros, respira o oxigénio ambientado e condicionado e coloca uma música que condiz com o carro. Olha para a Guerra Popular, tão perto de alcançar um acordo e vê um homenzinho a regar um contentor. Pára-quedista está tímido, mas balança mangueira, as vezes que são necessárias, sem se importar com os que passam. Guarda a mangueira e caminha tranquilo.

Dirige a reunião, sai às pressas, como sempre, para, repara para uma moça clara, de cabelos longos, pensa em andar lado a lado, mas prefere observar de longe, melodia e ritmo de seu caminhar. Aproxima, sente o cheiro de sua pele, deixa a beldade seguir seu ritmo, enquanto respira fundo para enfrentar as escadas.

Senta no escritório, espera no banco, faz papel de Pára-quedista mais uma vez, liga, fora do contexto, desliga, liga e percebe que não devia ter ligado sem saber o contexto, espera no banco, olha o laptop no escritório, vida de Pára-quedista é monótona, às vezes. Fecha laptop, senta no volante de motorista, escuta fragrância de lixeira de Hulene, ouviu dizer que já é Roque, nas axilas da menina de 16 anos. Procura pela janela qualquer carro, mas só pessoas a caminharem sem rumo. Sai do carro na ponte de suas indecisões e pula. Se cabelos ainda estão molhados, agora vão secar.

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