“Uma Nova Flor” da Banda Kakana

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Jimmy Guaza e Yolanda Chicane

Quando o pessimismo e negatividade caracterizavam o período mais crítico da pandemia causada pelo novo coronavírus, a Banda Kakana encontrou campo fértil para lançar a semente da esperança, produzindo o álbum “Uma Nova Flor”. O disco de originais com 17 faixas é uma miscelânea de ritmos, sabores e aromas que partem de Moçambique e vão se espalhando pelo mundo, a funcionar como um balão de oxigénio num período onde havia tudo, menos fé.

A proposta chega ao público hoje, 29 de Julho, num concerto a realizar-se no Centro Cultural Universitário da Universidade Eduardo Mondlane, a partir das 20: 30 minutos.

“Uma Nova Flor” é o culminar de um trabalho da banda em colaboração com uma nata de artistas que emprestaram o seu talento para dar mais vida às músicas, num exercício de crescimento e internacionalização. De Moçambique: Mingas, Jimmy Dludlu, Wazimbo, Bob Lee, Wanda Baloi, AZ Khinera, Mr. Kuka, entre outros. De Cabo Verde participam Kim Alves e Tito Paris, e da Guiné-Bissau, Micas Cabral, artistas que fizeram o seu talento atravessar o Altântico para o Índico para enriquecer o trabalho da Banda Kakana, unindo culturas.

A composição foi compartilhada entre vários artistas, mas acabou pesando a pena de Jimmy Gwaza, que é também guitarrista da banda, numa escrita que reflecte a alegria e exclui a tristeza e mortes deixadas pela covid-19. Mais do que mensagem de esperança, Kakana encontrou neste álbum o lugar perfeito para explorar a diversidade linguística de Moçambique, os hábitos, ritmos, assim como regressar ao passado e clamar pelos valores morais e sociais que se vão destruindo ao longo dos anos, sobretudo com a evolução galopante da tecnologia.

E mais: é um álbum que tem na marrabenta a rampa para comunicar com o mundo, adocicado pelas múltiplas danças e sons como mapiko, nfena, coladera (Cabo Verde), mbila, tufo… Portanto, o disco é também um regresso a Inhambane, à infância passada no Alto Maé, Mafalala e Infulene dos principais membros do grupo, Jimmy e Yolanda Chicane.

“Também buscamos Deus nos momentos difíceis. Foi onde encontrámos a esperança, porque nos tiraram tudo, menos a música. Onde há mente para pensar e o coração a bater, tudo é possível”, diz-nos Jimmy Gwaza.

Além de ser uma expressão de resiliência e resistência, “’Uma Nova Flor’ conta um pouco do que somos, é nosso refúgio e resgate de valores”, explica a vocalista principal da banda, Yolanda.

A faixa que dá título tem a colaboração do cabo-verdiano Kim Alves. No entender de Yolanda, é a música que resume o espírito que se pretende neste trabalho discográfico. “Há uma passagem na música que diz ‘a vida é curta para guardar mágoas’. Isto é tudo.

Queremos muita coisa porque temos de sustentar a família e esquecemo-nos de viver. Não basta ter dinheiro, se não tens tempo para ti não vale a pena”.

LEITURAS AO ÁLBUM

O confinamento por conta da pandemia da covid-19 não foi de todo mau. Travou-se o frenesim, a correria dos dias e Yolanda encontrou um espaço para desenvolver ainda mais o seu gosto pela leitura. E, nestas andanças, cantou alguns textos na Associação de Escritores Moçambicanos (AEMO) como forma de fazer a arte chegar às pessoas durante o período de “reclusão”. Foi ali onde calhou com “Súplica”, poema de Noémia de Sousa, e decidiu cantá-lo neste novo álbum (faixa 10).

Na música, uma vez mais, Jimmy, o compositor, regressa à sua zona de origem, Inhambane, e encontra na timbila a inspiração ideal para dedilhar a sua guitarra, tendo como foco a makhara, que é toda a estrutura coreográfica que marca a dança da timbila.

Da nostalgia, nasceu a faixa “Saudades” (faixa 7), que é, acima de tudo, uma conexão entre o Índico e o Atlântico, entre a marrabenta e a coladeira. A música conta com a participação especial de Tito Paris, que, além de emprestar a sua voz, tocou cavaquinho.

“Nunca tivemos um encontro presencial com Titos, quem nos conecta é Otis, um amigo que temos em comum. ‘Saudade’ é sobre voltarmos às nossas raízes e sermos moçambicanos e também é dedicada a todos os africanos que vivem na diáspora e que de alguma forma sentem saudades de casa”.

Ainda neste quesito de viagem no tempo, a segunda faixa do álbum, “Mathacosana”, que sai com a participação especial de Mingas, resvala para esta necessidade de ensinar aos mais novos os antigos costumes, as brincadeiras do passado, num exercício de resgate dos valores. A crítica social feita nesta música é complementada por outra, “Aldeia 1980”, que se debruça sobre a necessidade de afastar as crianças dos aparelhos digitais e ensiná-las que a vida não se resume às imagens que nos chegam através da tela mágica.

“’Mathacosana’ é um diálogo entre duas gerações, em que uma reclama pelo facto de a outra não estar a deixar um legado, é um grito das crianças a pedirem socorro aos pais para que não os deixem sem histórias para contar”, relata Jimmy.

Enquanto “Aldeia 1980” “é uma crítica social. Hoje temos as crianças que já não correm, não saltam. Mas elas querem brincar, e nós, os pais, é que devemos criar o tal ambiente. O futuro delas depende de nós”, esclarece Yolanda.

A banda convidou Wazimbo, que cantou “Carolina”, faixa 11. Na música, critica-se o comportamento desviante das meninas que se envolvem com inúmeros homens. Wazimbo diz que tem como compromisso continuar a colaborar com artistas mais jovens.

“Tenho sido um livro aberto, desde os tempos do Digital MC. Ele foi o primeiro a aproximar-se de mim e pedir apoio. Quando trabalho com Kakana, sinto no íntimo que é o reconhecimento do que sou na arte musical. Sinto-me valorizado. Emprestar o meu conhecimento é um dever, uma obrigação na qualidade de mais velho. Temos de deixar um legado”.

CARINHO AOS PAIS

Se os outros álbuns da banda são um encorajamento ao empoderamento da mulher, neste novo trabalho discográfico, o agrupamento apresenta uma mensagem de agradecimento aos pais que dia e noite dão tudo de si para verem as suas famílias nas melhores condições. Nas faixas 5 e 9, com os títulos “Pai” e “Ku Khensa”, respectivamente, a banda recorre à marrabenta para enaltecer a figura paterna em resposta aos pedidos constantes do público.

“Talvez sem nos apercebermos, mas, por influência minha, fomos destacando a mulher. Cresci durante muito tempo sem a figura paterna. Talvez isto seja a causa de muitas mensagens direccionadas à mulher, o empoderamento feminino… então os homens reclamavam nos ‘shows’ e decidimos compor para eles”, esclarece Yolanda.

A música “Ku Khensa”, com a participação de AZ Khinera, é também uma forma de explorar a diversidade linguística que faz de Moçambique belo. “Se fosse para nascer de novo, nascia em Cabo Delgado ou Nampula. A língua macua flui naturalmente quando é para cantar”, conclui Yolanda.

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