O Lugar das Ilhas enquanto lugar líquido e plural

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Escrito por Léo Cote
Toda obra é passível de metalinguagem, mesmo que seja a mentir, e esta não seria diferente, e, nesta, é tanto mais urgente, por todos os motivos que fazem ela aqui aportar, e necessária. O Lugar das Ilhas de Sónia Sultuane surge a esse propósito, ainda que seja suspeito falar dela. Pois, em todo lugar a emoção humana e a racionalidade se misturam ao mágico e sensorial (vivacidade sensorial da figuração e da palavra), ao jogo imagético e gestual que os poemas insinuam. É claro que a obra não abre assim, mas chega a partir do seu primeiro caderno “A água”, que, pela forma como ele se tece, sugere construir a episteme da obra, ao balizar os seus princípios e protocolos estéticos, filosóficos, sensoriais, etc., sob os quais a obra se estrutura ou vai tecer o sujeito fragmentado e ameaçado por dentro, ou em decomposição e recomposição, o tal sujeito que a impressão aprofunda-se à medida que se passa de um caderno para o outro.
A cunhagem desta obra a certo trilho da tradição poética moçambicana, a da figuração da ilha , que aponta, pelo título desta, a ideia de múltiplas ilhas ou a ilha como um lugar múltiplo, remonta a autores muito recuados, passando por Rui Knopfli, Luís Carlos Patraquim e Eduardo White, sendo algo simbólico e que faz contrastar e entrar em semiose com o que aludimos. Afinal, é nesta moldura que Sônia Sultuane evidentemente se enquadra, como ressaltam muitos dos seus poemas.
O sujeito poético em O Lugar das Ilhas é um sujeito líquido, só para usar a expressão de Bauman, que procura em “A água” e “Vozes” o seu ponto de ancoragem a partir do qual vai instituir o seu olhar sensível e sensorial e figurá-lo através dos seus múltiplos cadernos e poemas. Daí o poema “O lugar das ilhas” reflectir sobre o sujeito como “um lugar de ilhas”, enquanto um ser múltiplo, ou como estando “no lugar das ilhas”, enquanto um ser comparável a um arquipélago ou a um conjunto de ilhas, enquanto alter egos e sujeitos a interpelação de si. Por isso, reflectir também sobre a linguagem, a palavra, a vida, que é, afinal, “como as pegadas,/que deixamos na areia,/ duram o instante do mar”(p. 25). Não é por acaso que convoca os seus alter egos e a nós, leitores, a comtemplar o azul infinito e a pontilhá-lo dos múltiplos possíveis, em “As roupas do tempo”, ou através da ilha indizível, que é o sujeito poético, que nos leva “para caminhos assombrosos,/ onde há tempestades, furacões e dragões”(p. 30). Porque o que aqui está em jogo não é apenas esse lugar de ancoragem identitária, estética, etc., que é figurado a partir de certo lirismo, já anunciado em A Roda das Encarnações (2017), que se tece pendularmente com certo tom manifestatário que, às vezes, faz lembrar Noémia de Sousa e, simultaneamente, Glória de Santanna (é por isso que os poemas oscilam entre epigramas e os de maior fôlego), diferenciando esta obra, em certo sentido, da anterior.
“Vozes” a este propósito ao abrir com “Lugar de silencios” sugerir ser o lugar de reflexão e desse encontro de vozes, sendo esse “o lugar onde existimos”, como se a poeta de O Lugar das Ilhas corroborasse com a ideia muito bakhtiniana, a de que todo o discurso está fadado, para existir, a interpelar um outro discurso e a se constituir como lugar de significação e memória, e se constituir também como outro. Porque, afinal, é através desse “corpo guardado nas fábulas do tempo”, ou atravessado por “fronteiras infinitas” que:

As paredes
guardam linguas distantes,
dialectos do tempo,
contam histórias antigas,
dos verbos que se cantavam (p. 54)

De onde se pode descobrir “tesouros encalhados,/ perdidos nas suas águas profundas”. É evidente que a modalidade de figuração de Sultuane leva ao mais acabado desenvolvimento de algo que se anunciava já nas suas primeiras obras, isto é, um estilo em que os aspectos sensoriais ganham destaque, que é, naturalmente, diferente das anteriores, pois aquelas são marcadas por um erotismo sensorial ingénuo e imberbe.
Houve e há, só para usar a expressão de Knopfli, os detractores sistemáticos de Sónia Sultuane, leitores, para não sermos injustos, que simplesmente atacam sem lerem e/ou não reflectem demoradamente sobre a sua produção, e que, por via disso, são levados a fazerem análises e interpretações erróneas ou apressadas, muitas vezes, sem bases fundamentadas. Quando não optavam pelo silêncio crítico enquanto mecanismo de invisibilização. Porém, é evidente que as três primeiras obras, ainda que aquém da qualidade destas últimas, contribuiram para o efeito destas. Daí também O Lugar das Ilhas estar cercada de um tom de esperança e de um ar positivo em relação à vida e o olhar sobre ela, que associada ao jogo sensorial tão logo domina a consciência ledora, a estética do olhar. Aquilo que aqui se infiltra de sensorial introduz uma visão em profundidade do processo da existência e da vida, manifestando o seu vigor. Não é por acaso que, para a poeta, “andar por mim dói-te,/ num lugar que não tem nome”(p. 83), pois entre “Feitiços” e “Brisa da alma” se desenha o lugar onde se tecem as linhas de sua identidade e desse sujeito fragmentado, que se constrói a partir de uma estética e estilistica própria, ao abrir a mão da presa, ao se questionar sobre a vida e a existência e ao deixar o poema acontecer captando “os fragmentos dos dias”, com a justa dignidade merecida, aparando o erro e o ilusório, cambiando “os anos que passam e levam a beleza física e o ardor inocente”. Mesmo que, ainda assim, resguarde a ilha prometida, que é, afinal, “cheia de portas abertas”, por isso não ter, a poeta, coragem de partir, pois sabe “que tudo está lá,/ tudo o que sei, e tudo o que desconheço”(p. 90), até porque impresso em tinta indelével. “Flores murchas” representa sintaticamente tudo isso.

Não atires flores para cima do meu caixão,
dá-mas antes para que eu possa sentir
o seu toque nas minhas mãos
e finte a morte
infindavelmente (p. 93)

Pois, a arte é “uma pauta musical,/muito maior, feita de padecimento”(p. 95) e de alegria, só comparável a valsa veneziana, ainda que “feita da miséria humana” e da “procura do colo, chão, refúgio, da certeza da casa mãe”(p. 96), em movediças ondas.
O jogo dialogico e intertextual encenado em O Lugar das Ilhas permite a poeta evocar e parodiar, igualmente, a literatura infanto-juvenil, num mesmo poema, em que evoca Mapiko(dança), como se nos sugerisse que a literatura não é apenas techné e memória, stricto senso, mas igualmente lugar do espiritual, muito ao jeito do que nos mostra ostensivamente em A Roda das Encarnações, e esse lugar de diálogo com o corpo, aqui metaforicamente, e do jogo do sensorial.

Um pedido de perdão
Não há mais lago
para banhar
nem cisne branco para dançar
ficou somente o sapatinho preto
sem um pezinho para calçar.
Vou chamar o Lipiko para dançar
o Mapiko
e invocar aos defuntos
um pedido de perdão (p. 101)

Como a lembrar-nos que a sua identidade e a sua estética são feitas dessa cultura outra (livresca, cartoonista, etc.), assim como da autóctone, que se mesclam como uma dança, como um líquido e de forma plural. Uma vez que, de “Tantas portas,/e, mesmo assim,/não tive audácia,/de as abrir,/escolher em qual delas/entrar ou sair”, isto num certo momento, para depois, impelida pelo gesto de interpelação da linguagem, e tudo o que a ela se associa, sentir finalmente encontrar a coragem, ao se ancorar as ilhas (da cultura, dos afectos, da linguagem, etc.), para bater algumas portas e percorrer os seus múltiplos labirintos. É, por isso, que “Palavras” (o quinto caderno desta colectânea de poemas) se fazer igualmente como lugar teórico e epistémico, um lugar de jogos abstractos, mas com mais estrutura óssea e referencial, onde o rosto da obra surge melhor desconstruída e o sujeito poético mais nítido, e com uma sofisticação mais aturada, menos evasiva. Daí a poeta ter “Uma mala feita de palavras”.

O que importa é a viagem,
sem destino nem porquês,
encho uma mala
de palavras,
para vestir-me sempre,
de qualquer vocabulário,
pelo universo. (p. 110)

Afinal, só assim se pode encontrar consigo e com o Outro, sempre através da linguagem e de jogos dialógicos. Não é por acaso que o termo palavra (e os seus correspondentes) se apresenta ostensivamente neste último caderno, quer nos títulos quer no corpo dos poemas. Porque, afinal, a poeta, assume que bordou as suas palavras com o seu sangue, com a ausência de quem foi e de quem é, lembrando-nos que elas são produto de labor e engenho, onde a poeta dá o corpo e a alma para as ereguir em poesia, ante essa memória que elas transportam e que resiste ao tempo. Ainda que, paradoxalmente, as palavras sejam feitas água e não deixem nenhum registo físico, ao se fundirem com o seu sangue, diz a poeta, isto é, com o seu trabalho de artífice para se darem como bondade e amor, antes do seu completo esquecimento, ao dançarem por dentro da gramática da poeta, que, em última instância, se visita a si própria.
O Lugar das Ilhas, por tudo o que dissemos, é um artefacto que continua a tradição poética moçambicana, no seu melhor filão, e representa o aturado exercício poético de Sónia Sultuane, que se tem mostrado agora mais refinado e acabado. Pedindo leitores atentos ao evoluir desta produção e dos seus contornos cada vez mais complexos e instigantes.

Bibliografia
PINHEIRO, Vanessa Riambau. (2019). Entre Áfricas e Ocidente: A Formação do Cânone Literário em Moçambique. Maputo: Alcance.
SULTUANE, Sónia. (2021). O Lugar das Ilhas. Maputo: Fundação Fernando Leite Couto.

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