Yuck Miranda vence Prince Claus Award

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“É uma nova era, nós viemos de uma realidade em que começamos na arte muito pelo gosto e hoje vem a famosa ideia das Indústrias Culturais e Criativas”, disse Yuck Miranda, artista multi-disciplinar moçambicano, pouco depois de saber que ganhou o Prémio Prince Claus, na categoria Semente.

Viemos de uma fase em que actuavamos por uma sandes e um sumo, prosseguiu em entrevista exclusiva ao “Mbenga”, a avaliar a importância deste galardão, tendo em considereação o facto do artista moçambicano ficar muitos anos na emergência, comparado a outras realidades do mundo.

O prémio, de acordo com o júri, foi pelo trabalho socialmente engajado que aborda questões prementes em seus contextos locais e cobre uma diversidade de temas, desde desigualdade de género e justiça racial à liberdade de expressão e os impactos das mudanças climáticas.

“Para mim, este prémio, veio validar este lugar, que conheço tão bem, o da emergência, mas também vem solidificar todo o meu trabalho”, assumiu Yuck Miranda, que não tinha noção da dimensão internacional do seu trabalho.

Este prémio muda a sua noção e clarifica a sua percepção em relação ao futuro e ao rumo que pretende dar a sua carreira.

“Quando vejo quem está entre os cem [escolhidos, entre 1500 potenciais candidatos], nos 25 anos do Prince Klaus, a os atribuir um prémio que vai dar projecção a nossa carreira artística de emergência, fico motivado”, disse, tendo em consideração o facto de tratar-se de um fundo que já actua em África há muitos anos e conhece as realidades dos artistas no continente.

O Prémio possibilita um fundo, através do qual o artista laureado poderá desenvolver um projecto no sector das artes e cultura. Sem dar detalhes, Yuck Miranda adiantou que será uma iniciativa para o mundo, mas muito pensado na região da África Austral.   

“Pensa no que foram dois anos sem trabalho e manter-se artista. Houve os que desistiram, não havia pão, não havia nada”, fez este comentário retórico a explicar que o foco do que pretende desenvolver tem na linha do horizonte a possibilidade de “outras pandemias” mas na expectativa de que “venham mas que nos encontrem preparados para aguentar o que a gente ama, a arte”.

Desde a sua criação em 1996, o Fundo Prince Claus encontrou várias maneiras de cumprir seu mandato de apoiar as artes e a cultura, especialmente onde está sob pressão na África, Ásia, América Latina, Caribe e Europa Oriental.

Yuck Miranda é parte da nova safra de actores moçambicanos, que, forjados na academia, se fazem no constante exercício de trabalho em palco.

Começamos por vê-lo ainda nos anos de formação a fazer “O Mercador de Veneza” de Willam Shakespeare, adaptado e encenado por Venâncio Calisto e Maria Clotilde. Interpretava um judeu disposto a ter um quinhão de carne humana por conta da dívida que lhe demoravam a pagar. Fê-lo com a obstinação e ambição que o personagem exigia. Percebia-se que ali, com a maturidade esculpida pelo tempo, estaríamos diante de um actor,assim com maiúsculas.

Pouco depois, vimo-lo fazer “A Crise”, em que não era propriamente um personagem, como também não o eram as outras duas actrizes no elenco. Todos eram vozes a escancarar as feridas de uma humanidade, enquanto qualidade que faz seres humanos, a ruir. Já o caminho lhe estava pavimentado, quando foi chamado, pelo Mutumbela Gogo, para fazer Hilmar Tonnessen em “Os Pilares da Sociedade”, de Henrik Ibsen, adaptado por António Cabrita e encenado por Jorge Vaz.

Neste espectáculo, percebemos que aquela aura emprestada ao judeu em “O Mercador de Veneza”, que também a percebemos em “A Crise” e voltaríamos a encontrar em “Mar Me Quer”, adaptado do livro de Mia Couto pelo português João Garcia Miguel.

Ao teatro infanto-juvenil, que apesar de já tê-lo feito ainda com pouca vida vivida, chega de forma mais comprometida com “Quem manda na selva”, adaptação de Venâncio Calisto do homónimo de Danny Wambire, mas estava ainda longe do que ele encara como teatro infanto-juvenil hoje, que tem como bandeira maior do seu percurso “Transform”, que faz com o moçambicano Buanamade Amade e a actriz do Botswana Jessica Lejowa, apresentada em Agosto, na África do Sul.

O espectáculo é mais uma acha na fogueira do teatro infantil que tem estado a reacender. O título não esconde ao que o espectáculo vai, é mesmo sobre transformação, sobre como as mãos erguem vidas da água e do barro, uma reflexão sobre o tempo, das pequenas mudanças que o tempo opera em nós e que damos pouca importância até, enfim, nos vermos completamente distantes do que éramos antes de tudo.

Há histórias para além das fábulas mal dramatizadas que parecem querer colocar em causa a inteligência infantil, imbecilizá-las, como se os actores não as pensassemquestionadoras. É noutra margem desta forma de fazer teatro que Yuck Miranda se situa, na certeza de que é a pedra no charco que provoca ondas, provoca modas. E, se o mundo se move pelo que está em voga, que a pedra no charco seja suficientemente forte para que o que venha a seguir nos permita um teatro infantil inteligente e responsável.

Em 2019, participou do ASSITEJ Artistic Gathering 2019, o encontro mais importante do mundo de profissionais que trabalham na área de artes cénicas para jovens plateias, em que participam centenas de profissionais, na pitoresca cidade costeira de Kristiansand, no sul da Noruega.

É todo este percurso que agora o trouxe para o Prince Claus Award, um prémio que chega dos países baixos.

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