Fortaleza. Um arquivo de outros arquivos.

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A Fortaleza de Maputo é um monumento peculiar. É um arquivo. Uma fonte material que contém parte da história de todo um povo, e guarda, no seu interior, objectos e memórias de um passado em comum.

Acolhe, desde três (3) de Setembro corrente, a segunda edição da exposição UPCycles, um evento anual organizado pela Associação dos Amigos do Museu do Cinema e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

A mostra é colectiva e centrada no Audiovisual, nas disciplinas de cinema, fotografia, cerâmica, entre outros. Este ano, a exposição é composta por cinco artistas emergentes dos PALOP e foi criada a partir da premissa da reutilização de arquivos.

Visitamos a mostra e conversamos com os artistas, com o objetivo de entender o seu processo criativo e colher e colher a experiência de ter participado da UPCycles – 2021.

Sob tutoria de Ângela Ferreira e do angolano Edson Chagas, buscaram apresentar, através da arte, o seu ponto de vista ou, até mesmo, indagar sobre as linhas que costuram a nossa identidade.

Cinema para dar voz as minorias sexuais

A Cabo-verdiana Lolo Arziki, residente em Lisboa, onde trabalha como activista social ligada a causas LGBT e integra movimentos anti-racistas, assume-se não binária, ou seja, é uma pessoa que não se identifica com o género masculino, nem com o feminino, por entender que a sua existência está para além das normas sociais que definem o ser homem e mulher.

Lolo Arziki

Lolo Arziki vê no cinema um instrumento de descolonização das sociedades, em matérias de identidade de género, uma questão persistente sobre em África. Os seus trabalhos, conta, foram, muitas vezes, censurados, em Cabo-Verde, devido ao teor de provocação e crítica social que faz à questão da negação das minorias sexuais.

Graças ao UPCycles, Lolo Arziki visitou Moçambique, pela primeira vez, para participar da UPCycles – 2021, com a vídeo performance “10867 INQUISIÇÃO DE LISBOA, 1556”. A sua peça é inspirada na história de Victória de Benin, uma prostituta escravizada e condenada à prisão perpétua em Portugal, na sequência de uma denúncia à inquisição colonial de 1556, por ser transsexual.

A artista explicou que pretende, com este trabalho, acender o debate sobre a forma como África lida com as minorias sexuais. “Esta é uma performance que faço para mostrar que a homofobia vem de um processo de colonização”, disse.

Lolo Arziki prosseguiu, dizendo que espera provocar a discussão em torno da origem da homofobia nas culturas africanas, sustentando que a ideia principal debatida na película é pensar a descolonização através das questões do género.

“Esta é uma oportunidade de pôr para fora toda a inquietação, dor que a censura e a negação a minha identidade de género têm causado, porque as pessoas me tratam como mulher, nunca tentam perceber qual é a minha identidade de género”, afirmou.

A ideia é, acrescenta, também relacionar a história da Victória de Benin e a da Lolo Arziki. Durante a conversa que teve com o “Mbenga”, Lolo disse que esperava ver presente a comunidade LGBT moçambicana, no decorrer a cerimônia de abertura da exposição audiovisual, em consequência do convite que enviou à Associação Lambda, logo após a sua chegada ao país.

Trabalhar com arquivo, explica, permitiu-lhe perceber que não é uma coisa nova. Graças a isso, pude entender qual é o meu lugar na sociedade. “Estou aqui a falar do não binarismo como se eu estivesse a inventar, mas é algo secular, vem de antes da colonização, numa altura em que havia mais de 20 identidades de género em África”.

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