UPCycles propõe (re)pensar os arquivos na Fortaleza

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Fotografia de Júlio Marcos

Desafiados a produzir obras centradas no espírito da reutilização de arquivos, as moçambicanas Atija Assane, Luís Santos e Yassmin Forte, e os cabo-verdianos Diogo Bento e Lolo Arziki conceberam a segunda edição da exposição audiovisual UPCycles.

O ponto de partida do colectivo foi a ideia de rebobinar a memória, revisitar o passado, para trazer à superfície questões ligadas à identidade, o género, os discursos coloniais, o patriarcado e o capitalismo.

Os cinco artistas emergentes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), foram orientados pela lusa-sul-africana Ângela Ferreira e pelo angolano Edson Chagas.

A mostra foi, ontem, inaugurada, na Fortaleza de Maputo, numa cerimónia aberta ao público e com protocolo de saúde salvaguardado, no âmbito das medidas de prevenção da Covid-19.

O objectivo da segunda edição da exposição audiovisual – UPCycles, disse Ângela Ferreira é dar aos artistas a liberdade de pensar no arquivo de uma forma muito alargada, o que permitiu que criassem conceitos variados em torno da mesma temática.

“Nós pensamos nos arquivos íntimos de cada um de nós, aqueles que devemos mostrar e que devemos ter coragem de mostrar”, disse a artista visual e tutora da exposição, a classificar as obras como “trabalhos fortes e profundos, na medida em que foram elaborados num mar agitado pelas dificuldades impostas pelo novo normal”.

João Ribeiro (cineasta), Alda Costa (dir. Dep. Cultura da UEM) e Ângela Ferreira

O sentido de arquivo trazido neste trabalho, prosseguiu Ângela Ferreira, é de caráter transcendental, pois não se trata apenas de visitar as gavetas do arquivo nacional, para encontrar fotografias e outros documentos que retratam as memórias de toda uma coletividade, mas também de trazer questões ligadas ao próprio ser de forma exclusiva.

“Pensamos no nosso corpo, como arquivo das nossas vidas, como representativo do nosso ser e, portanto, tentamos expandir aquilo que convencionalmente pensamos em arquivos”, explicou.

Este trabalho, esclarece, nasce da convicção de que a utilidade de um arquivo depende, exclusivamente, do uso e aplicação a que é dado pela sociedade: “as coisas podem estar arquivadas, mas, se não mexemos nelas, elas não voltam à vida”.

Por seu turno, Edson Chagas, igualmente tutor da exposição, descreve como enriquecedora a experiência de partilhar ideias e impressões com artistas emergentes, na concepção da UPCycles – 2021.

“Foi um processo muito longo, em que houve coisas que até ao último momento foram mudando, e acabou por resultar no que podem ver”, disse.

Chagas sublinhou que o facto de os artistas serem oriundos de países diferentes está reflectido nos resultados expostos. “São de contextos diferentes, muitos com as mesmas preocupações. Apesar disso, todos tiveram atitude, que é o que eu acho mais importante. Cada um tem a sua personalidade, porque está sempre inerente a tua personalidade aquilo que tu fazes”.

A exposição audiovisual UPCycles é anual, organizada pela Associação Amigos do Museu do Cinema e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Reúne obras de novos artistas dos PALOP, das disciplinas de cinema, cerâmica, fotografia, entre outros.

O mote deste ano é a reutilização de arquivos e pode ser visitada, presencialmente, até ao dia 10 de Novembro próximo, na Fortaleza de Maputo.

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