M. P. Bonde e os transes de Aroma fóssil

0
172
Capa do livro

“Aroma fóssil”, que sai sob chancela da Gala Gala Edições, é o terceiro livro de poemas do poeta moçambicano M. P. Bonde (Primeiro Prémio Literário Fernando Leite Couto). Dividido em três partes – “Terra”, “Luz” e “Noite” – o conjunto se configura em livro ideado sob o signo da imagem em transe.

De acordo com o poeta e professor brasileiro Ronald Augusto, no texto de apresentação do livro, “o poeta atinge uma ambiguidade virtuosa pulverizando qualquer pretensão relativa a um conteúdo duro que se queira propor para esses poemas proliferantes”.

Leia a apresentação completa de Ronald Augusto:

Dividido em três partes – “Terra”, “Luz” e “Noite” –, Aroma fóssil, de M. P. Bonde, se configura em livro ideado sob o signo da imagem em transe. A constatação talvez soe destituída de importância, uma vez que o caráter imagético como que se confunde com o próprio gênero poético – se quiséssemos, o mesmo poderia ser dito a respeito da dimensão musical que inere à forma do poema. Em certas circunstâncias, elogiar a sonoridade dos versos ou o poder metafórico do poeta, sabe a um esforço de escapar ao comentário que tente dizer algo mais preciso sobre essa ou aquela experiência textual. Cumpre registrar que o oximoro imaginado como título ao conjunto, o compósito “aroma/fóssil”, já antecipa ao fruidor algo de sua aventura determinada, na qual o poema opera o palmilhar inacabado desde o subjetivo das percepções até o objetivo da fanopeia retida no empírico.

Contudo, a imagética em transe de Aroma fóssil, como barroquizante“canção híbrida”,tem, felizmente, suas singularidades. M. P. Bonde atualiza sua investigação visiva através de um discurso, a um só tempo, de trânsito entre linguagens e de compromisso com estados alterados de consciência. Sua poética, ao menos no livro em causa, é de viés intersemiótico. Leituras e intercâmbios com outros criadores e formas sígnicas afloram e se dissipam no vertiginoso folhear fabulatório de M. P. Bonde. O processo de decupagem das imagens é tanto cinemático quanto transcultural.

Vejamos alguns planos e contraplanos, desobedientes às fronteiras entre prosa e verso, como exemplos dessa vontade transacional do poeta: “a escuridão invoca memória, bolham vocábulos no quintal”; “Dentro do cinema, alvitramos novas canções com armas nos olhos”; “uma língua navega à margem. Que vocábulos ocultam águas polares, espessura dominical?”; “cogito o exílio, frondosa esteira com páginas sublimes”.

M. P. Bonde

Em termos transculturais, M. P. Bonde, em várias passagens da obra, nos apresenta seus interlocutores estético-filosóficos e seus topônimos afetivo-intelectuais – porém, sem perder de vista, quando necessário, a visada crítica –, a saber: Patraquim, Melville, Cézanne, Govane, Borges, Hugh Massekela e sua música, Sembène e seu cimena; e já em sua geográfica pessoal, destacamos: Goa, o Danúbio, Ougadogou, Limpopo, Veneza (sem Zambeze), Marselha. Enfim, um vasto sobrevoo visual e conceitual transcriado em imagens quase lisérgicas. Segue, na íntegra, um poema para a leitura de prazer e de lápis em punho dos nossos iguais.

imagens amordaçam o candeeiro do silêncio,

aprenda a apalpar a noite, na sonoridade,

o álamo para a velhice primeira.

Agora,

supõe que brincas

com os cabelos na língua e um céu no asfalto.

Aroma fóssil avança sobre nossa interpretação com vontade luciferina. M. P. Bonde e suas imagens nos convidam a suspender provisoriamente a conquista dos significados. Os poemas aqui enfeixados nos revelam que suas estruturas discursivo-visuais – que evocam a dinâmica por justaposição da estética fílmica – se conformam de maneira a sugerir certas ideias ou assuntos, mais pelas relações paratáticas que as ligam do que pelo sentido convencional com que podem ser admitidas pelo senso comum. O poeta atinge uma ambiguidade virtuosa pulverizando qualquer pretensão relativa a um “conteúdo duro” que se queira propor para esses poemas proliferantes.

i Ronald Augusto é poeta e ensaísta brasileiro. É formado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e mestrando em Letras na mesma instituição. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012), Oliveira Silveira: poesia reunida (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), À Ipásia que o espera (2016), Tornaviagem (2020) e O leitor desobediente (2020). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com e é colunista do portal de notícias Sul21(http://www.sul21.com.br/editoria/colunas/ronald-augusto/).

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here