Os vizinhos da Morgue

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Escrito por Celso Muianga

Caros telespectadores e ouvintes do nosso canal radiofónico interrompemos os comentários ao informe da Procuradora aqui no estúdio, para dar conta de uma situação trágica que o nosso repórter volante acabou de testemunhar. Carvão Arde Molhado a emissão é sua:

– Respondo uma vez mais aqui desta paragem improvisada nesta zona próxima à Praça dos Combatentes, vulgo Xikhelene. Aconteceu de repente, há uma coisa de dez minutos, uma senhora que se debatia numa luta titânica para entrar num veículo de passageiros, semi-colectivo, vulgo ten years, perdeu a vida. Segundo o inspector da polícia de trânsito, Pouca Gente da Cruz, a vítima sofreu asfixia. Ela respondia em vida pelo nome de Marizuera Escova Sigaúque, de 32 anos, casada, residente no Bairro Santa Isabel, quarteirão 59.

E segundo outras testemunhas oculares que contactamos, mal nos apercebemos da agitação, uma gritaria lancinante, à volta da viatura, a ser protagonizada pelo cobrador, motorista e outros utentes que se encontravam no interior e à volta da viatura.

Vou tentar ouvir o motorista que me parece agora mais calmo. Senhor motorista, em directo para a Televisão Comunitária dos Professores,  o seu nome por favor, «Eu não sei o que dizer até agora, senhor jornalista.  Meu nome é Paulo Duzenta. Eu não vi nada. A música estava alta, mas apanhei uns gritos, não deu para perceber que eram gritos que podiam fazer uma  minha passageira não subir e ficar mortalmente em pé na porta da viatura. Sinceramente não sei o que dizer. Nem imagino o que vão pensar os familiares dela. Não sei mesmo de verdade…às vezes as pessoas gritam na porta para afastarem os concorrentes. Desculpa lá muito, já não consigo mais…»

E a mamã que está aqui ao meu lado, o seu nome e como foi que isto tudo aconteceu?

«Eu vi um poucoxinho, meu filho. Vi o pé dela numa sandália, mas o pé não conseguia entrar. Ela fazia assim, assim ( a idosa mexendo-se, imitando o gesto da vítima debruçando-se na porta), a força lhe abandonou, das maneiras que parou de gritar (de repente a senhora foi acometida por um chorro compulsivo, sem ter dito o seu nome).

Está aqui uma outra senhora que vai dar o seu testemunho: «A mim me empurraram como sou uma macremora. Até sofri um aranhão aqui nesta perna, só não posso levantar a saia, mas a ferida ainda dói muito, muito quando começo coçar.  Mas depois de me empurrarem caí sobre o senhor sapateiro que estava a tomar sopa. Ele queimou o nariz e uma parte da cara. A sopa estava quente, bem mesmo. Eu queimei nas coisas, me sujou a roupa, como está a ver, senhor jornalista, logo uma eu, Maria da Conceição. Hoje que prometi umas novidades aos meus colegas. Senhor jornalista, eu até posso dizer que sou uma escritora porque trabalho no escritório. Não interessa o que faço lá no meu gabinete. Assim perdi uma companheira do chapa. Costumávamos nos cumprimentar com a vítima, assim, do tipo «oi, tudo bem, amiga?». Ela me contava coisas dela nas vezes que conseguíamos entrar. Na brincadeira até me dizia que minha filha vai casar com filho dela. Ela era nova aqui neste nosso movimento de chapa. Me contou que o marido acabava de vender o carro para pagar a letra. O banco estava a pressionar muito, de maneiras que até sonhavam com o gerente a fazer cobranças, mas ao mesmo tempo queria lhes convencer para pedirem um outro empréstimo para terminarem a casa e fecharem o primeiro empréstimo. Muitas vezes eu é que conseguia lugar nos bancos de quatro, quatro, depois txunava a ela. Hoje eu atrasei um pouco a arrumar a minha filhota para escola. Falo assim porque estou muito triste, quando eu começar a chorar de verdade, ninguém vai aguentar, todos vão chorar. Juro por Deus!

«Mentira! Mentira, você senhora. Carregamos 3*3, nós» – Gritou o Cobrador.

«Mentira o quê? Se tens coragem conta lá quantas pessoas estão aqui, senhor jornalista!»

Acabou de chegar o carro da Agência Funerária da Associção dos Transportadores semi-colectivos.

Vamos falar com o responsável da associação:

«Estamos tristes. Lamentamos bastante o que aconteceu. Já eram bastante as quebras que tínhamos, primeiro na lotação, depois corona, mais polícia camarária e mais amigos deles polícia de trânsito. Agora estamos a perder pessoas que nos ajudavam, nossos queridos passageiros. Vamos ajudar o proprietário desta viatura. Sabemos que o seguro dele acabou de expirar há um mês, mas fazer o quê, estamos a dzarascar a vida…»

Recordamos que ainda ontem morreu um senhor num chapa próximo da Junta. Estes veículos, caros telespectadores, hoje em dia parecem vizinhos da morgue, passe a expressão trágica. Mas antes de devolver a palavra ao estúdio quero em meu nome pessoal e dos meus colegas apresentar os nossos sentidos pêsames à família da senhora Sigaúque. Que a terra lhe seja leve.

Voltaremos ao ar assim que se justificar. Obrigado.

Colega Cristeta de Jesus devolvo a palavra aos estúdios centrais.

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