Comboio de Sal e Açúcar: a violência manifesta da guerra

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Regressamos de uma viagem à bordo de um Comboio de Sal e Açúcar, manejado pelo maquinista Licínio Azevedo, que nos leva, pela segunda vez, a Malawi, desta sob responsabilidade da editora Ethale Publishing, depois de a obra ter vindo a superfície, pela primeira vez, em 1997.

Vinte e quatro anos depois, Licínio Azevedo nos faz revisitar as memórias da guerra civil em Moçambique e dos traumas que causou. A história decorre no comboio, no meio de uma viagem que  carrega pessoas com os seus sacos de sal a ser trocado pelo açúcar, em Malawi, partindo de Nampula.

A escrita cinematográfica de Licínio nos faz mergulhar no meio de uma violência armada que decorre durante todo o percurso, com recurso à imagens claras de lugares, de cheiros e de culturas que se cruzam e se mesclam ao longo de um percurso que é  de barbaridades.

Ora por meio de diálogos, ora por meio da sua própria pena, Licínio dirige-nos para o centro de batalhas, de pólvora, num cenário literário que dominou por muitos longos anos a história da jovem literatura moçambicana. Ungulani, Mia Couto, Marcelo Panguane, entre outros, já mergulharam nesse tempo e nesse espaço da narrativa sobre o país.

 Neste sentido, é um Azevedo que recorre ao medo que se instala no seio dos personagens, no meio dos militares, para explicar a sucessão de violência, a justificar aquela máxima segundo a qual “na guerra não há santos”, uma frase feita, mas que vale o que vale para este contexto.

Das mãos do alferes Salomão e dos seus soldados, Licínio manifesta na sua escrita a capacidade interventiva de abordar vários temas que ditam e definem o comportamento de diversos extractos sociais e culturais, como a posse da mulher como um objecto, como um instrumento de satisfação, com recurso ao medo e à força.

“O alferes só queria era a mulher dele. Expulsou o condutor do furgão, ficou só com ela e violou-a, sob ameaça de uma pistola”- P. 80. A violência manifesta ao longo dos 177 páginas da obra também decorre no meio social, com soldados a pilharem bens.

“Enfurrecidos por ali não haver álcool e nem água, os soldados de Salomão percorrem a vila, apoderam-se de tudo o que tem algum valor e levam para o “ferro”. Portas, janelas…nada escapa. Às vezes obrigam civis a carregar para eles”. –P. 80.

 É este Licínio que não deixa escapar as consequências causadas por uma guerra, pela  luta por uma ideologia e, nisto, faz perceber como a fome determina comportamentos selvagens e de sobrevivência nos seres humanos.

Este Comboio é também uma retoma do debate sobre a corrupção e estractificação social que se vai acentuando a cada dia, os mitos da guerra e a magia africana que se vai manifestando ao longo da narrativa, sobre os ombros do Comandante Sete Maneiras ou então do Comandante Macaco.

Finalmente, o autor não foge à temática do amor, trabalhado de tal forma que neste livro transforma vidas, mas ao mesmo tempo dói. Tenente Taiar conhece a jovem enfermeira Rosa e decide dar o seu coração a ela.

No último ataque, leva um tiro nas costas. Ali, naquele instante, inicia o pesadelo para um homem que tinha vivido os seus 30 anos sem preocupações, à espera que a morte lhe batesse à porta. Mas quando sente a bala a penetrar-lhe as costas, a alma, a enfraquecê-lo, começa a sentir outro tipo de dor.

Não é a bala que dói e lhe castiga nos últimos minutos da vida. É a presença da Rosa naquele lugar, no último instante, último sussuro, despedida, naquele momento que sabe que ao fechar os olhos não mais conseguirá ver a menina dos seus olhos.

E o amor dói-lhe ainda mais, saber que viveu a vida toda infeliz, mas quando a felicidade espreita, tem de abandonar esta vida. Dói-lhe saber que vai deixar duas vidas no mundo, que amar fez dele um ser frágil, que tentou valorizar a vida, mas se lhe escapou, como a água que se vai entre os dedos, até a última gota. Taiar chorou porque amou e amar dói, quando não devia.

Portanto, este Combio de Sal eAçúcar é mais do que uma boa sugestão para ler em tempos de recolher obrigatório. Apenas peca por não distanciar a realidade da ficção, quando a literatura não devia nos tirar esse direito de ver um final feliz, ainda que ficcionado…

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