O bêbado adormecido

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O Diabo Bêbado de Maciej Cieśla

Por: Pedro Pereira Lopes

O nascimento do herdeiro trouxera tanto regozijo ao mambo, o rei, que ele decretou três dias de efusiva celebração. O governo parou, incluindo a burocracia e a meretrícia. Por causa da azáfama que caracterizava a solenidade

incluindo, também, a inépcia dos serviços protocolares,

o mambo descuidou-se e não pediu bênçãos ao nyanga Banda, por sinal o mago com o xikwembu, o espírito, mais eficaz da vizinhança. Muito ofendido, Banda apoderou-se da festa para pregar uma maldição: já que o reino era um grande consumidor de cerveja e vinho, aos dezoito anos o príncipe provaria uns drinques e cairia num coma alcoólico. Após o que, num escárnio de vilão (temendo flechas e azagaias), o curandeiro pisgou-se com intenções de demorar-se.

Para atenuar a maldição de Banda, um nyanga de poderes médios lançou um outro feitiço, um contra-encanto, na verdade: o príncipe sairia do seu sono de bêbado se uma jovem, de puro coração, o beijasse por um minuto. É evidente que o escândalo pôs termo à celebração. Assim, por decreto real, a produção e o consumo do álcool foram proibidos.

Passaram-se dezassete anos e tal, o príncipe sadio e nada de álcool.

Na noite em que fazia dezoito anos, o herdeiro foi renovar os seus votos para com o seu deus, no santuário do castelo. Ora, o padre fazia e tragava, furtivo, um vinho especial, o Sangue de Cristo. Naquele dia, por ironia, o sacerdote tinha deixado uma taça de vinho no altar. Ele ausente, o príncipe zás!, emborcou o líquido desconhecido e caiu no coma alcoólico. O padre foi logo decapitado e substituído.

Sucederam-se, nos anos seguintes, mais de um milhar de candidaturas ao beijo milagreiro, entretanto sem efeito. Vale a pena sublinhar que muitas jovens não lhe aguentavam o forte hálito. Num dia, que até nem sequer era belo, surgiu, do nada, uma sujeita despenteada e maltrapilha, sem os dentes da frente e bêbeda de verdade. Coitada, enxotaram-na, mas reclamando do seu direito de lei de beijar o príncipe, lá entrou ela, a trotear, no salão real. O beijo durou apenas dez segundos, o sucessor abriu os olhos, casaram-se.

Dizem por aí, que continuam bêbados e felizes.

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