Poemas de Roberta Daniel

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Roberta Daniel
Roberta Daniel

Textos de Roberta Tostes Daniel

GUTURAL

Fiquei engasgada em minha própria voz
esperando os bueiros da cidade abrirem

aquela multidão submersa de roedores
e periplanetas vermelhas
em seu tipo comum, nos esgotos

ser apresentada às funduras
de uma maneira nova.

A vivissecção da voz se presta
a encontrar a anatomia oculta

de um animal inteiramente vivo
os fantasmas da carne profana

as dimensões alto e baixo
leste e sombrio

são coordenadas
e indiferentes.

SENTADA, AQUI

I.

É sempre muito fácil ficar em silêncio
não fazendo nada e nesse dia refletir
sobre a morte, mas se trata de um assassinato.
Como tornar o silêncio feroz: é disto que falo.
Ou apenas fazer silêncio? Apenas deixar que respire
antes do grito, do início, do rastro, da revolta
sufocar a palavra, depois sustentar a voz.

II.

‘nowhere man, please listen’

Vivemos e já não sei se isso se aperfeiçoa
o teto precisando de reformas
o sino que não se dobra
a vida de um homem, respostas humanitárias
os sistemas de irrigação, punição, consciência
ainda os 37 anos em que estivemos confinados
eles não nos quebraram
um dia, cantar.

III.

Agora reconhecemos a estampa comum das máscaras
quando dois olhares assustados se cruzam
a América, de lá, arde
a palavra distopia é empregada como quem diz: ‘surreal’.

IV.

Ontem sonhei com o coração de uma baleia
de tanto olhar, minha gengiva
se encheu de sangue
um sangue da dinastia das baleias.

No coração dos nadadores de Nova Zelândia
como no céu das crianças perdidas
entrando no coração de uma baleia
como se entra numa vagina

como se faz silêncio, se faz trégua
mas há os incontáveis mortos no pátio.

Desenho de Joaneth
Desenho de Joaneth

POEMA COMPILADO DE FRASES DO ANIMAL PLANET

Os peixes são os primeiros a ocupar um navio naufragado
fugindo dos predadores e se protegendo das correntes.

Um navio naufragado é sempre um recife
como qualquer outro.

Recifes artificiais são também pontos de encontro
de animais marinhos.

Onde o recife termina e o mar aberto começa –
aqui o recife avança

centenas de metros até o fundo do mar.
Ilhas Cayman.

À medida que se desce para o abismo
as coisas mudam.

A mais de duzentos metros abaixo
da superfície, um navio cargueiro.

Por enquanto, ele é um santuário fantasmagórico.
Lírios do mar aí se abrigam, uma coroa

de braços esticados para buscar alimento.
Comem lentamente o aço do navio.

Dentro de um século, o navio será inteiro devorado
restando apenas um monte de ferrugem

na profundidade do mar. Os corais
de recife ocupam apenas um porcento

dos mares do planeta. Um coral desses
é um universo em si.

RUMO AO DESCONHECIDO

Há uma tribo em Papua-Nova Guiné
que fabrica suas próprias ilhas
arquipélagos na extensão de um mangue.
Seus habitantes retiram do fundo das águas
as raízes das vegetações fluviais
dispersando-as por sobre a camada
de terra leve que se sustenta
fragilmente à superfície.
O traçado de linhas brancas
que se vê com o Google Earth revela
o que talvez seja uma tradição milenar.
Descobrir tradições milenares em canais televisivos
como no curso de um rio: guardar certas imagens.
Querer escrever sobre o inverno.
Imaginar o inverno na Oceania, o inverno
em Papua-Nova Guiné, o inverno naquelas ilhas
fabricadas por mãos humanas, talvez milenares.
Lamentar ser um corpo tão limitado
se orgulhar deste corpo tão limitado
entre paredes vermelhas e simetrias azuis
de onde escapa o céu de Julho.
Nuvens fosforescentes ao meio-dia
depois pesadas, que nem ilhas
mas tão leves.
Ler um poema de Ana Estaregui
um determinado poema que também
impregna minha memória afetiva
que fala do som elíptico de island
sobre resistir às águas, “tuas águas”.
Ser ilha, invernar a delicada
estrutura de um corpo
que se resfria há vários dias
que pensa em ilhas, caça brechas
de sol, treme ao vento mais leve
a um punhado de temperatura mais baixa.
Pensar que o inverno não é um estado de espírito
mas uma condição topográfica
como as ilhas
mais do que climática
e que tudo que se queda
é de certa forma ilha
e o que se sustenta é só o fino e passageiro
cair de uma coisa a outra:
o curso de um rio
o ritual de um mangue
mãos milenares
que não sei que inverno escavam.
Pensar que sob este céu de Comendador Soares
entre paredes vermelhas e simetrias azuis
fabrico meu próprio inverno
por que não, minhas ilhas?
Pensar que elas também se estendem
como vegetais, por minhas palavras.

***

Roberta Tostes Daniel, poeta brasileira, nascida e domiciliada no Rio de Janeiro. Publicou os livros Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018) e Ainda ancora o infinito (Moinhos, 2019). Participou das antologias Sob a pele da língua – breviário poético brasileiro (Arc Edições), Um girassol nos teus cabelos – poemas para Marielle Franco (Quintal Edições), Desvio para o Vermelho (Centro Cultural São Paulo), entre outras. Seus poemas também foram publicados em sites e revistas literárias, tais como: Rascunho, Caliban, Gueto, Germina, Mallarmargens, Zunái, Polichinello, Incomunidade, Poesia Avulsa, Liberoamérica. Site : https://robertatostes.wordpress.com

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