O vírus da desocupação

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08:15. Desperto, envergonhado. O meu rosto, inchado, denuncia que extrapolei o limite das horas de sono recomendáveis para um ser humano normal. ‘‘A vida não tem fórmulas’’, penso e daí vem motivação para dormir mais, afinal, está tudo parado, não se vai à escola, nem ao trabalho, nem à igreja. Tento dormir de novo. Rebolo uma, duas, três vezes e não adianta. Lá fora, o sol já sorri e invade o meu quarto com jatos de luz que me atingem com estrondo.  

– São horas, diz uma voz misteriosa vinda do subconsciente.

– Me levantar para quê? – Questiono impaciente.

Depois de cerca de meia hora de negociação, reconheço que não me resta outra opção a não ser abandonar o leito. A esfera celeste quer assim, não posso ir contra ela. Até porque se sabe que o destino da espécie, que não se adapta à natureza, é a morte.

09:00. Devo-me levantar, já amanheceu faz tempo. Os meus pais e irmãos vão acabar batendo na minha porta, cheios de preocupação. O cérebro, através das competências que lhe são atribuídas, dá a ordem, mas o corpo desobedece. Então, decido tirar a minha mão pelo buraco do lençol para procurar o celular, que é a primeira coisa que me interessa pela manhã, o resto vem depois. Após a noite toda na carga e sobre o amontoado de livros empoeirados que, há séculos, implora por uma caridosa leitura, o objecto aguarda ansiosamente pelo uso. Apresso-me, sou consumido pela ânsia de saber quantas reacções tem a última fotografia por mim partilhada na rede social. O meu membro superior parte a máxima velocidade, apalpando tudo o que encontra diante de si. Ao transpor os limites do colchão, os meus dedos sentem um ambiente gelado, sombrio e assustam-se. Curiosos e cientes de que não devem decepcionar, empenha-se, procuram não fracassar e lá vão. Com a palma da mão, roço as extremidades de um objecto não identificado. A coisa exibe um aspecto circular, inofensivo e convexo. Tudo indica que o achado terá dormido ali, no chão, sem cobertor, e recebido todos os Celcius negativos da madrugada. A viagem dos descobrimentos continua. As pontas dos dedos exploram o interior do objecto. O fundo é escorregadio e oleoso. Bem no meio, jaz um apêndice avulso e avultado. Com o polegar, analiso minuciosamente a minha descoberta: aspecto fúnebre, erecto e com restos de carne seca em toda a sua superfície.

O celular está a poucos centímetros, eu sinto, porém o percurso é ameaçador. A mão abranda e considera regressar para junto do corpo, mas, não pode, esta não é uma missão qualquer. Só o celular me pode manter na cama, pois vejo nele a única forma de viajar sem sair do lugar. E os livros? Bom, a minha relação com eles não é lá muito boa. Na verdade, só os procuro por questões de interesse. Talvez, um dia, quando tudo voltar à normalidade, sejamos amigos (só de ocasião).

Aparto-me do desconhecido. Continuo na rota do tão almejado celular. Melhor que ver, as mãos sente o que os olhos não enxergam. As minhas até fazem melhor, percebem o mais minúsculo dos perigos ainda que seja a meia distância, mesmo com os olhos estejam fechados.

09:05. Procuro, desesperadamente. Tudo agora é incerto, o meu futuro (só o meu?), os meus próximos passos, enfim, o meu ser agora é um nada. Estico a mão com o máximo de elasticidade que a anatomia humana conhece e o cenário muda drasticamente. O gelo glaciar desaparece, como se eu partisse do hemisfério norte ao equador. Tudo muda. Passo, apalpo, roço e sinto o pó dos livros solitários que formam uma bicha secular para um atendimento altamente deficitário, há muito que não há sistema no sector das leituras, desde “Lutar por Moçambique” de Eduardo Mondlane, lido em 2018, por ocasião dos exames de admissão, nenhuma outra obra dessa mini biblioteca mereceu atenção.

Mesmo abandonados, os livros são um bom sinal. Afinal, o que tanto procuro está mesmo ali, bem por cima deles, deitado, inanimado e incapaz de resistir a apreensão. Com violência e sem algemas, prendo-o num abraço nostálgico. Agarro-o com força, meus dedos fitam-no com asfixia. Antes de seguir viagem de volta ao lençol, o meu membro superior pausa, recorda-se da superfície macia, lisa e frágil que os manuais ostentam, parece não querer mais voltar. A vontade de cumprir a dura missão que lhe foi incumbida era simplesmente platónica. Decide, então, dar dois palmos para baixo, partindo do topo do monte, acaricia a pilha em gesto de despedida, enquanto agradece pela maneira carinhosa como os livros o receberam, e promete voltar acompanhado.

 09:15. Já tenho o celular em mãos. Aperto os cintos, a viagem vai começar. Clico no botão que acende o visor, rajadas de luz invadem os meus olhos, enquanto tento ler as duas mensagens por SMS destacadas no ecrã. Ambas são da operadora. A primeira é promocional, de todos os cantos, chegam-nos estímulos tentadores para ficar em casa, e a segunda dá conta de que os dados de internet, comprados com débitos celebrados com a operadora, foram consumidos. “Não tenho como, o destino me venceu”, reconheço. Os dados são o combustível do avião das viagens matinais. Resignado, coloco-me sentado sobre o leito, esfolo os dedos, as costas e o pescoço, aos poucos a ressurreição acontece. Levanto-me. De pé, espreguiço-me, estico até as veias. O mais difícil está feito, mas o quarto me aprisiona. Fixo o olhar no quadro de Bob Marley exposto na parede, penso em como um astro daquela envergadura sobreviveu às duras disputas raciais nas Américas para depois se deixar levar pela morte, por amor à sua religião. Coloco a mão sobre o quadro, apontando as dred loks, fecho os olhos e viajo.

– “O mundo ainda precisava de ti, irmão, nunca deixou de precisar”, reclamo com o ancestral.

– “A morte me libertou”. Ouço a sua voz rouca aos soluços.

– E as pessoas que te admiram e te amam como eu, como ficam?

– Jah Selássie deu-me uma missão e após cumpri-la tive de partir, dancem as minhas músicas e adorem à Deus, tudo vai ficar bem, assegura.

Bato duas vezes no peito e grito no meu interior, One Love.

09:40. Abro a porta, a luz do sol está colada a entrada e ouvia tudo. Debaixo da frondosa mangueira, minha irmãs improvisaram um salão de cabeleireiro onde se fazem os acabamentos. Espreito pela janela da sala, os mais novos concentram-se na televisão. Ao se aperceberem da minha presença, me enchem de questões.

– Manooo, manooo. Esta doença mata de verdade?

– Nós também vamos morrer?

– Nunca mais vamos sair para fora?

– Já não iremos à escola?

Respiro, abro a boca, mas não respondo. Sei que cada resposta minha vai suscitar outra pergunta. São crianças que pensam como filósofos.

No exacto desse momento, a transmissão é interrompida, “há um caso completamente recuperado”, é a frase em destaque e a resposta que tranquiliza os pequenos.

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