Só pode ser Sathani

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Um vento leve soprou e a sombra dos ramos da mafureira, no caminho para casa, tocou na sombra de Langa (no ombro), que vem cabisbaixo, debaixo de uma noite de luar. Sobressaltos: suca Sathani!
Ouviu um mocho a soltar as asas para o voou. Aos insultos levantou a cabeça e encontrou somente as nuvens, serenas e tranquilas, felizes com o azul do céu. Langa vê nisso um gozo, é como se a natureza zombasse da sua preocupação. Aquele céu azul, podia ser só um véu que o Sathani cobriu para esconder o mocho.
Suca Sathani! Vocifera novamente.
Está sozinho. As lâmpadas das salas de estar sempre para a rua mantém-se acesas. Os postes de iluminação são inúteis em noites de luar. Langa quer rasgar o véu. Está parado, não descarta a hipótese do Sathani distrair-se e revelar o mocho que ouviu bater as asas para voar. O cantar dos grilos, é para Langa, parte do complot. Com as botas sob o capim que faz de conta é passeio no atalho de terra batida, na Rua 2, Choupal.
Estava tudo combinado, bem definido. Estava, não era possível, pensava ele. Volta a baixar a cabeça. O peso todo volta para as suas costas já cansadas, o infortúnio com o chefe volta a dominar a sua mente.
“Mas ele está me criar barulhos por algo que ele mesmo faz?” “Não é possível, só pode ser obra de Sathani”. Lembrou-se da vizinha simpática que convidou-lhe à igreja. “Fui lá nem me deu as pernas…três meses sem nada… não fui mais”, conversa consigo mesmo.
Mas não. Recorda. O Nhassavene nunca lhe olhou bem. Mas, acredita, finge simpatia. – De certeza que ele é que foi aos nyangas dele. “Só pode porque não é possível, não é mesmo”.
O Langa é acusado de desviar bolachas, fraldas e açúcar apreendidos na última rusga da Polícia Municipal. Ele era um dos agentes destacados para o dumbanengue na esquina do Xiquelene. O comandante denunciou.
Ao lado da mafureira há um xicorrocorro (carro aos pedaços de velho) de um Alfa Romeu vermelho, onde escondiam-se para jogar banana ou brincar papa e mamã, na infância. Langa e a sua turma. Já nenhum deles mora na rua. Há quem está na Liberdade, há quem está na Katembe, há quem está em Tete, em Cabo Delgado. Há dois na Europa e um em Nova Iorque. Langa foi ficando, inerte. Hoje conta trinta e seis setembros. Engravidou aquela pita da esquina do tio Nico, da rua 3. E moram juntos, na casa dos pais dele. Senta-se no Alfa Romeu e lembra da malta.
O telemóvel vibra, o coração parece quer competir velocidade com o vibrador. De súbito, ocorre-lhe o rosto dos colegas quando recebeu a notificação da PRM. Saiam, fartos do Mercado do Povo, depois do almoço. O sol escaldante apagou-se por instantes. Langa só via o escuro. A luz do ecrã do smartphone trá-lo de volta ao plano terrestre. A notificação era de uma mensagem da Melita, a pita da esquina.
“Ñ voltx? Essa hora aqui. Guadjiças na rua”, leu.
A terceira filha do casal tem três meses. A Maura, do meio, faz sete anos no próximo mês. O Thulane, mais velho, tem 15. As fontes da mensagem delatam e tornam-se turvas ante um olhar encharcado de lágrimas.Só pode ser Sathani, juro.
Recorda que ajudou o comandante a montar as três bancas das mbuias. A do Bagamoio, do Patrice e a de Marracuene. As chaves estavam na responsabilidade do Langa.

Na calada da noite, cumprindo ordens, abriu o armazém de apreensões e sacou o que pôde. Claro que levou para casa também. É esperto, yeah. – Ele não foi capaz de me proteger, mesmo sabendo que eu tenho crianças?

O comandante está cego, só pode ser Sathana. Juro.
Põe-se em pé, respira fundo. Ensaia o primeiro passo, vence. E assim vai. Cabisbaixo, a salivar Sathani, a driblar as frustrações em cada pedrinha que aparecesse no caminho.
No alto, linda, a lua era a dona da noite e os poetas, os românticos, os Don Juans beijam, escrevem, ejaculam, atingem orgasmos. E o Langa perde-se de vista, passou o portão de casa. 23.00 horas.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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