Uma imagem de esperança

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Em meio às desgraças que acumula ao longo da vida, cumprindo, maquinalmente, uma rotina de acordar cedo, ir ao trabalho mal pago e voltar para casa, um cómodo apertado que divide com a esposa e filhos.
Marco Valdo descobre, casualmente, cogumelos na paragem. São tantos cogumelos. Uma luz se acende no universo sombrio que envolve a vida de Marco Valdo.
Foi o escritor italiano Italo Calvino, que apresentou-me este sujeito, numa colectânea de contos com título homónimo, traduzida por José Colaço Barreiros de 1990. É uma imagem que nos traz esperança em meio a hecatombe. O tecto do caos cede a luz do sol. O rosto preocupado, angustiado, é tomado por um riso instantâneo.
É o que o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Saúde nos oferecem, introduzindo os tradutores de línguas de sinais, nas suas transmissões. A anunciar notícias tristes, inclui uma minoria, dando exemplo da sociedade para todos, que almejamos.
Se na programação habitual da nossa grelha televisiva, a figura de tradutor de sinais é habitualmente escassa, com a transmissão diária da actualização sobre os casos da Covid-19, diariamente recebemo-las.
Um serviço noticioso de massas que prescinde do tradutor de sinais, ignora, com prejuízo, o princípio do direito à informação dos deficientes auditivos que, sendo cidadãos moçambicanos em gozo de plena consciência devem participar da vida pública. Isto é básico: informação é poder, é um serviço público.
Às instituições responsáveis pela saúde, desta forma, dão um exemplo de inclusão. É preciso mostrar a sociedade que as pessoas com estas e outras deficiências não são inúteis.
Por exemplo, o britânico Stephen Hawking, legou a humanidade um grande contributo como físico teórico e cosmólogo e circulava numa carrinha de rodas. Foi um dos maiores cientistas do século XX. Ao marginalizá-los, quantos cérebros não desperdiçamos?
A minha vénia vai para os profissionais que abraçam esta área, invisível para uma larga maioria, inclusive para alguns decisores.
A Universidade Eduardo Mondlane tem um curso superior de Línguas de Sinais, o que é uma mais-valia ao possibilitar pensadores dessa questão.
A pandemia que o mundo atravessa, esclarece a humanidade, a importância do jornalismo, da informação. E o acesso a todos é a garantia de que surdos e mudos também acompanham o concerto das nações.
Que não haja dúvida, a Covid-19 também veio dar-nos aulas. E esta é uma das lições, tomemos nota e apliquemos.
Voltando ao Marco Valdo. Por acaso, o fim é trágico. É uma cama de hospital. Mas coisa passageira. Porém foram muitos que degustaram os cogumelos. Mas, lá está, o quadro assim ficou porque quem comeu não sabia (não tinha informação) de que aqueles cogumelos não eram comestíveis.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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