Músicas de Nampula para ouvir nestes dias

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Escrito por Jessemusse Cacinda

Leonel Matusse Jr. fez-me um desafio de seleccionar músicas para escutar neste período em que a nossa civilização está a ser desafiada. Confesso que foi difícil fazer isto, porque o meu contacto com a música se restringe ao meu trabalho na Rádio Moçambique – Emissor Provincial de Nampula. Foi por isso que no lugar de fazer uma play list global, achei melhor apresentar quatro músicas de Nampula que poderiam voltar a ser escutadas. Digo voltar, porque as músicas têm uma certa idade. 

“Rato roueu tudo” – Salvador Maurício

A Covid-19 restringiu os movimentos de todos. Enquanto a lógica do capital decidia quem tem direito ao movimento, hoje, todos temos o mesmo direito: o de não movimentar-se. Será um novo estado de natureza? Uma dúvida paira.

Em meio a tudo isto, há um lockdown em alguns países africanos onde não há celeiros, desde que, usando as palavras de Salvador Maurício, “os ratos roeram tudo”. Escutar esta música nestes tempos é um exercício de revolta. Mas também, um gozo àqueles que roeram tudo dos celeiros (orçamentos públicos para fins pessoais) e agora têm de esperar que o sistema de saúde local os trate.

Salvador Maurício, que em Nampula diz-se ter sido vítima de censura, tem um excelente disco, quem bem se encaixa nesta play-list para ouvir nesta época de Praga, na acepção de Albert Camus, sugiro esta música. 

“Owani ti wenno” – Marrove

O celeiro atacado pelo rato do Salvador Maurício, é sem dúvidas o nosso. “Owani ti wenno”, traduzido do emakua para português, significa “esta é a casa”. Música dos Marrove, dos poucos agrupamentos de Nampula que sobreviveu a época das bandas. A música que foi criada para ser dançada em conjunto. E agora deve ser dançada de forma solitária. Recomendo-a porque pode-se dançar em casa, de onde não se deve esquecer, pois como o grupo canta “rye rye rye owanni ti wenno” (por mais voltas que fores a dar, esta é a tua casa). É nesta casa, de onde não podemos sair para cuidar das nossas vidas.

“Samba” – Gimo Mendes

Num bailado de samba numa noite de luar, um cavalheiro lê no corpo da sua amada imagens que jamais a poesia pintou. Queimar a noite com a dança e deixar que as beats se espalhem por um palco improvisado, num quarto qualquer, é o objectivo do protagonista que trata de escrever uma carta de declaração de intenções – Talvez esta pudesse ser a sinopse que se escreveria se a música “Samba” fosse um filme. Do disco: “Mello Tomorrow”, o segundo a solo de Gimo Mendes, um dos fundadores do agrupamento Eyupuro, a música é um conforto para os que ficam em casa, pois, tendo a luz do dia á disposição não precisariam de uma noite para dançar tanto samba com as pessoas que amamos.

“Olumwenko” – Jogilcas

“Olumwenko” (Mundo) é bom. A vida é bela e enquanto estivermos nela, temos a oportunidades de deleitar-se das maiores beldades possíveis. Não fosse o homem que com suas acções, torna o mundo é algo infernal. Olha que agora reduziu a poluição ambiental, as pessoas passaram a preocupar-se com a casa, os políticos gostariam de ter bons hospitais em seus países e os professores gostariam que seus alunos tivessem acesso as TICs. Oh afinal, o mundo é bom.

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