A quarentena não curou os dias de solteiro

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Se na primeira década do século XXI a Track Records foi o viveiro do R&B e Hip Hop com as The Dreams, Ace Nells, Trio Fam, Elex, sob liderança do Dj Beat Keeper, entretanto dissolvida, a Same Blood tomou esse lugar. Carmen Chaquice, Hot Blaze, o genial Hernâni da Silva, o fenômeno Lizzy, New Joint são as referências de uma lista que se prolonga.

Recentemente, da cartola dos “Primos”, revelou-se Mark Exodus. Timidamente, foi-se evidenciando nos coros com exibições notáveis. “Corpo da cidade”, no álbum Xigumandzene (2016), o primeiro do rapper Kloro, é um exemplo.

“7 dias solteiro”, sua primeira EP, desabrocha uma nova proposta de R&B na nossa cena, num contexto que é igualmente composto por intérpretes do quilate da Tégui, Bruna Mendes, Trkz…

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Exodus aposta em letras de amores perdidos, essa fórmula infalível que ganha relevo na interpretação suportada por uma voz que sabe ser dramática. É um sussurro. “Vício” é isso, uma música sofrida, de dor, do abandono, da esperança…essas contradições que os poetas bem dominam. Nas seis faixas o sujeito poético não se resolve, o final feliz fica na expectativa.

As músicas foram escritas e produzidas pelo Exodus, a excepção de “Liga” que teve os cuidados de NOCTVRNVL, num álbum que mistura um boom bap alterado, o Neo Soul, R&B. Nisto revela uma escola diversa, onde o Classic Soul parace ter sido determinante.

Ouvimos em Exodus um timbre próximo da linha de um Daniel Caesar (hits: Get You, Best part), o que pode ser um indicativo de uma projecção internacional. É um caminho que está a coleccionar adeptos em diferentes cantos do mundo. A título de exemplo, o hit deste projecto, “Liga”, de acordo com as estatísticas da Modigi, nos últimos 28 dias foi ouvida por 26,5 mil pessoas entre as quais, 19% de Lisboa, 6% da Ilha Reunião e Cape Town, cada uma.

Depois do sucesso deste trabalho de 2018, em tempos de Covid-19, o produtor, compositor e intérprete que bem domina o piano, disponibiliza nas plataformas de streaming, “A Cura”, uma Mixtape, também com seis faixas.

Num jogo de palavras, o músico usa o vocabulário da pandemia. Na música “Meus pensamentos”, a primeira, canta “eu estou mascarado de verdade”, levando a máscara obrigatória para prevenção a uma metáfora de estado de consciência (talvez) …e prossegue com a negação da realidade, quando canta “tu não estás preparada para a verdade”, dirigindo-se a mulher a quem promete amar. E prossegue traçando o amor como a patologia que o força ao isolamento, ao resto do mundo imposto pela Covid-19.

O sujeito poético continua na escuridão, percorre lentamente, descalço sob cacos. Constrói o edifício da tristeza com material adquirido no estaleiro das palavras-chave do status quo. “Avulso”, segunda faixa, continua os dias de solteiro. “Viver de medo é bem duro”, o efeito desta patologia em tempos das redes sociais.

Acompanhado por um piano e efeitos vocais, mais próximo do “Liga”, indica o mais provável caminho que poderá seguir. O agregador nesta é o acústico e a composição minimalista com toques de lofi.

A arquitetura sonora e as instrumentais são concebidas, de modo geral, para gerar uma atmosfera em volta da história que a letra canta. E nisso o produtor trabalha o detalhe. Há leves traços da tendência de incorporar as trilhas de videojogos nas músicas, “Promessas” com Carmen Chaquice tem disso marcas mais evidentes. O repertório inclui ainda “Feelings”, “Verdade” e conclui com “4 Paredes” (produzido por Groovv beats).

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E se a expectativa desta Mixtape eram amores resolvidos, a cura das dores de “7 dias de solteiro”, desengane-se, o amor ainda é uma miragem.

Mark Exodus, produtor que recentemente abriu o seu próprio estúdio, no qual está a trabalhar com Anselmo Raplh e Lizha James (entre os nomes maiores), envolve a sua voz doce e frágil em instrumentais suaves; e nos promete novos horizontes sonoros para o R&B moçambicano. As músicas de “A Cura” e singles com “Sons remix”, entre outros, estão disponíveis nas principais plataformas digitais através da Modigi, distribuidora digital que é uma solução moçambicana para o acesso ao mercado global.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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