Não sobrou nada

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Escrito por Emanuel Banze

Estou em casa, sentado no chão, com as costas encostadas na parade da varanda, a observar com nostalgia os meus irmãos mais novos, acompanhados pelos seus amiguinhos, a brincar com a areia. Sem brinquedos propriamente ditos, os pequenos reutilizam utensílios domésticos, descartados por conta do elevado estado de degradação, para fazerem bolos e outras delícias. Todos sorriem. Hoje o dia é especial, há um aniversariante no grupo, o Pedó (que completa 5 anos). O facto de nunca ter tido uma festa, ou um simples corte de bolo preparado com o amor e carinho de seus pais, fez o puto perceber cedo a importância das amizades, ao ponto de escolher passar este dia na companhia dos seus comparsas nas malandríces, que se engajam para tornar a data memorável.

Os recipientes usados como brinquedos foram esquecidos ontem, de qualquer maneira, no quintal e foram varidos. Sem piedade, a minha mãe passou a vassoura nova de plástico sobre a cidade de areia que os meninos haviam construído, com a mesma fúria de um ciclone devastador. Com a força de suas mãos, pegou em cada utensílio e atirou para bem longe, onde não atrapalhasse no seu trabalho de limpeza. Por sorte, ela não os introduziu no saco de lixo, que posteriormente seria levado pelos homens do conselho municipal. Logo ao acordar, os meus irmãos encarregaram-se de recuperar tudo o que sobrou da intempérie que engoliu a cidade, amontoaram tudo junto ao tronco da mangueira e aguardaram pelo apoio de seus amigos que chegaram em algumas horas. Logo, as obras de reconstrução, bem como os preparativos da festa de aniversário, começaram.

No chão arenoso do quintal, a criançada reconstruiu a cidade, tornando-a numa verdadeira grande cidade, com prédios, estradas, praças e pontes, tudo feito com areia molhada misturada com arte e muita dedicação. Dentro desse faz de contas, cada um tem a sua casa própria, com direito à uma garagem recheada de carros feitos na base de chinelos e areia. Todos os dias, os miúdos reúnem os seus automóveis e dão uma passeita pelas excelentes estradas da cidade fictícia, sem destino algum. Hoje foi diferente. A cidade que foi construída hoje é diferente das projeções dos dias anteriores. A planta conta com um lugar especial, um ponto reservado exclusivamente à grandes festividades, aonde o comboio de carros seguiu com destino. 

Entre o material recuperado, está uma enorme tigela rectangular, que antes armazenava peixe frito, mas hoje, dá forma à um bolo de aniversário. Com as próprias mãos, o grupo abre um burraco no chão, de onde extrai areia que serve de massa para o bolo. Cheio, o topo do recipiente é apalpado com violêcia, para compactar o interior do bolo, e, de seguida, a tigela é posta na posição invertida, enquanto se prepara o creme, feito de cinza misturada com água.   

Vejo os miúdos risonhos, empenhados a prepararem uma festa. Sinto-me excluído por não ter sido convidado. Na minha infância, não tive uma experiência igual. Na verdade, nem amiguinhos tive. Tinha de ficar a vender rebuçados, pipocas e gelos, para outros meninos e seus amiguinhos, na banca da minha mãe que existe até hoje, em frente à EPC de Laulane. A minha vida era resumida em escola, casa, banca e vice-versa. Não tinha de que reclamar, dali vinha o dinheiro do Xitique que garantia que a minha mãe pudesse suprir algumas das necessidades básicas da casa, sem contar que, na minha turma, eu era o único que não comprava o lanche. Por ter sido um miúdo bem comportado, a minha mãe permitia que, todos os dias, eu levasse uma metade de pão e uma Chamussa, de batata e peixe, na banca da sua comadre, apenas intervalo maior.

Minutos depois, o bolo já estava pronto. De cor branca, formato rectangular e com flores de beijo da mulata no topo. Enganei-me, quando pensei que não seria convidado. A festa é do Pedó, mas eu é que fui presenteado com um convite de última hora. Entretanto, porque a idade e outros factores não permitem, recuso o convite. Porém, não tiro os olhos de cada acontecimento que marca o momento festivo, para posteriormente escrever esta crónica.

Os petizes rodeiam o bolo e começam a cantar os parabéns. Nas mãos, Pedó segura um estilhaço de prato plástico que serve de faca e o enterra, com delicadeza, no interior do monte de areia tido como bolo.

Ao ver aquilo, não me segurei, deixei escapar um sorriso. O bolo era de mentira, mas as acções, os olhares, as emoções e a festa, tudo isso era de verdade. Seguiu-se o momento da fala do aniversariante. Pedó estava a vontade diante dos seus e não disse muita coisa, apenas agradeceu e finalizou dando luz verde para que os convidados se servissem e aproveitassem a festa ao máximo. As palavras do aniversariante foram a gota de água para que o grupo se libertasse. Foi nesse instante que, numa fracção de segundo, houve uma explosão de alegria que acabou com a festa. As crianças, como que controladas à remote, partiram, ao mesmo tempo, para cima do bolo, destruíram-no todo e não sobrou absolutamente nada.        

2 COMENTÁRIOS

  1. Assim como o autor Banzé, também não me segurei e soltei a quele sorriso ao ler essa crônica, que arrastava me aos melhores dias da minha humilde existência que foi a minha infância.
    … actor cozinheiro…

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