Conto de Pedro André Mayamona

0
428
Pedro André Mayamona
Pedro André Mayamona

Texto de Pedro André Mayamona

AMORES ENVENENADOS!

Os naufrágios acontecem, via de regra, em alto mar. Mas os dos casais, os dos enamorados, os dos mal-amados, ocorrem em rio seco, como o vínculo de dois loucos, sem-abrigo, que se estendeu na calada de uma fria noite, desatando-se por uma desértica ilha afora: náufragos amorosos afundados na da escuridão!

O amor se fosse uma flor estaria coroado de espinhos, pela amargura com que brinda corações embevecidos. Aos olhos da modernidade, o amor é uma roda que gira ao contrário das badaladas cardíacas. Não é pouco comum amarmos mais quem nos deteste e detestarmos quem mais nos ame, entretanto, a história faz o seu curso amargo no compasso dos corações amargurados. Pela meiguice de pai e filha, cabeças humanas rolaram, ofertadas, em bandejas de ouro; pelo carinho de jovens concubinas, navios de grandes proporções, apetrechados com tecnologia de ponta, derrocaram por água-abaixo; por delirante paixão, papás e mamãs de malas feitas; relações matrimoniais enraizadas há séculos, nubentes incluídos, caminham desavindos, cenas de traição e outras vêm à flor da questão e tudo mais…

Alguma coisa não anda bem nos actos de galanteio, sobretudo aqueles sob alegação de amor à primeira-vista… Impera que coloquemos barba de molho, ou seja, estejamos de sobreaviso, calculando onde pôr o passo para não pisarmos em ovos! A paixão, dura como a sepultura, é doentia, “pathos”, como diria Aristóteles, ou então “tanhà”, na visão de Buda, referindo-se ao amor que se alimenta substancialmente de apetite carnal e que não preenche completamente o ser do indivíduo, porque viciado! Não é que não acreditemos no amor passional. O amor, por amizade, passa por um processo de construção, conquista, em que os envolvidos desenvolvem apego um pelo outro, aprendendo a conviver, conhecendo as cores e salteados de cada, para, depois, surgirem os projectos de vida em comum.

Quando houver brutalidade, não deixa de ser amor, mas é um amor diluído ao desprezo, envolvendo palavras musculadas, e a lógica de uma vida sobre o mesmo leito, debaixo do mesmo tecto, enegrece, deixa de ter graça, vazando ao azedume, à amargura, e tudo começa a frouxar; os humanos elevam-se à grandeza de vis, simples vermes, quadrúpedes, acéfalos, que, aos poucos, matam todo o sentido de humanidade.

Florita e Pacheco apanham-se na encruzilhada de uma rua, numa noite antecipada por sôfrego cacimbo, sem fornecimento de luz eléctrica nos escassos postos da urbanidade. Saídos de remotos infernos das aldeias, ambos foram surpreendidos por as suas sinas se terem cruzado algures no coração da cidade, percebendo que nenhum dos milhentos multibancos da urbe tinha dinheiro, objectivo que os transportara até aquele lugar. Daí em diante, simpatizaram-se, dois ilegais num paraíso perdido, criando laço afectivo que transbordou da realidade para o sonho de vida a dois, esquecendo-se de revelarem os segredinhos um do outro, e foram mantendo ácidos contactos, saídas daqui, corridas de acolá, gelados dali, sorrisinhos florescentes nos lábios, rostos festivos, alegria mergulhada na água, e envolvimento em criancice, afogando-se num oceano profundo de amor!

Desenho de Joaneth
Desenho de Joaneth

Num momento em que a cegueira cardíaca ultrapassou a esfera do raciocínio lógico, Pacheco ligou para a sua princesa-pirata, como tratava meigamente a sua Florita por a ter conhecido numa noite calada e aterradora, sozinha, vestida de prurido, sem um homem-lobo que a escoltasse do frágil tempo e dos amigos do alheio que andavam atirados em várias esquinas naquela nocturna hora dum domingo em que estariam em boa paz familiar. E foram ligações e mais ligações. Do lado da moça, nada!

Depois de um interregno, o homem retornou a chamar. O telemóvel tocava, mas a bem-amada não emitia nenhum sinal de existência. Com o coração na mão, o galã resolveu enviar uma mensagem: “Amor, por ti sofre o meu coração. O teu silêncio está pesado. Liga-me quando vires esta mensagem, por favor!”

No inferno, o diabo não costuma estar longe, daí, a resposta não tardou, ainda que a choramingar, uma fininha voz saltitou do altifalante de um Motorola maltratado pelo tempo: “Meu bem, meu Pacheco, não ligues mais para mim, o meu namorado não quer!”

“Deus que me livre, mas dessa mulher, me livro eu!” Pacheco teve as suas mais esquisitas reacções. Por isso, beliscado pela vozinha, insistiu a ligação: “Mas como assim, Florita?” Como retorno, ouviu: “Meu namorado está aqui a bater em mim, mas não te preocupes, vou ficar bem, não venhas cá, ligar-te-ei depois, beijos!” Que esquisitice!

Francamente, há mulheres que, por serem tão baixas, arriam o seu respeito, arriam a sua dignidade. Como se perceber a obsessiva entrega a um amor que só te maltrata? Ao que parece, o amor quanto mais agressivo, mais saboroso o é. Quando há carinho, tudo bem, e existem senhoritas que gostam de se sentir nas nuvens, saias arriadas, amadas, acarinhadas e veneradas, ao passo que há outras que gostam de se sentir rasgadas, magoadas das pétalas até às vísceras, aí, sim… o amor atinge o cume! Mas alguém bater em ti mortalmente e deixares o barco partir… hum… esse é o ápice do absurdo! Exclamou o pobre jovem para os seus botões.

Para não dar mais corda à situação, Pacheco manteve-se calmo, numa pausa de deus amoroso.

Chegado o momento anelado, Pacheco soube que a sua linda-anémona já esteve noutra relação, na qual não era feliz, pretendendo partir para separação, era chantageada por causa de alguns doces e bugigangas com que fora prendada pelo seu cruel galanteador, sentindo-se presa naquele namorico de burrinhos.

Florita, por sua vez, ficou a saber que o coração do seu Pacheco também já tinha sido preenchido pelo vagabundo amor de uma letal Isabel, que não nutria nada por ele, apenas sugava o ingénuo bolso do coitado, pelo que, o infeliz percebe que o instante em que conheceu Florita foi feliz, mas nada mais havia a fazer contra o punhal do destino, cada um devia despertar-se e voltar ao seu endoidecido mundo.

***

Pedro André Mayamona, de seu nome completo, é natural de Luanda (Angola). Estudou Ciências Humanas, na Escola do Ensino Secundário do II Ciclo,“Kapolo II”, nº 6038 (2010 – 2012). Actualmente, é estudante de Ciências da Educação, licenciando-se em Ensino da Língua Portuguesa no ISCED – Instituto Superior de Ciências da Educação – de Luanda.
Foi membro da LIJULCA – Liga Juvenil Literária de Angola –, inclusive activista da USODEMA – União Social para o Desenvolvimento da Mulher Angolana – Comité Intersectorial do Ministério da Família e Promoção da Mulher, núcleo de Viana.
Professor de Língua Portuguesa; Responsável pelos Assuntos Científicos e Académicos do Círculo de Estudos Literários e Linguísticos Litteragris – CE3L; poeta; contista; cronista; ensaísta e revisor de textos, tem os seus trabalhos publicados na Revista da Arte Literatura Letras de Ouro (2018); Tunda Vala – Agristética (2018); antologia Angola – Galiza: Sementes da Língua (2017); colectânea Tunda Vala – Agris Magazine (2016); revista Palavra & Arte (on-line); no Cultura Jornal Angolano de Artes e Letras, jornal O País e Jornal de Angola.

Artigo anteriorANIVERSÁRIO DE EMERGÊNCIA
Próximo artigoPoemas de Delalves Costa
Hirondina Joshua nasceu em Maputo, Moçambique, aos 31 de Maio de 1987. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos. Participou de várias antologias, revistas blog, jornais, colóquios, debates, festivais nacionais e estrangeiras. Tem colaborado com a plataforma mbenga de artes e reflexões fazendo conversas e divulgando textos de autores lusófonos. É co-redatora da revista portuguesa incomunidade. E colunista da revista galega palavra comum onde colabora com ensaios sobre a arte da escrita.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here