Avó Dezanove e o segredo do Soviético – a crítica

0
270
Izidro Dimande
Izidro Dimande

Texto de Izidro Dimande

O filme abriu a semana de cinema africano, na sua Vª edição de amostra, pelo que deve ser agradecido por vários aspectos (natureza, produção, origem, elenco, custo e nomeações). Foi agradável ver a sala do Scala lotada, demostrou o grande interesse nosso no cinema africano e nas iniciativas de partilha sobre o estágio do cinema moçambicano. Após os discursos que enaltecem o evento João Ribeiro apresentou os personagens principais e secundários presentes para que o público pudesse no fim do filme colher informações úteis a redacção do texto jornalístico. Os olhos toldaram quando as luzes foram ficando ofuscadas e logo já se percebia pelas letras no grande ecrã que a enredo estava a iniciar.

Fiquei atónico quando o som do cinema deixava-me a desperceber a língua portuguesa que o filme emprestava à narração, a quem pedia legenda, com aquela qualidade de imagem, e sala enorme, seria a qualidade sonoro elemento fulcral para que a estreia fosse nota 10.

 O filme

Acção ou comédia, não é o género do filme do realizador moçambicano João Ribeiro, o filme conta ao longo da narração dos personagens infantis algumas falas de rizos o que pode dificultar aos leitores do texto a sua compreensão. Não é infantil, não é aventura, não é dança, documentário ou outro género produzido no nosso cinema em ascensão.

Não sendo acção e comédia, e outros géneros descritos no parágrafo acima, o filme pode ser comédia dramática, porque os personagens infantis é que desenrolam em todos os actos e cenas e cometem sem soluções resolver a recusa de destruição das suas habitações para dar lugar ao Mausoléu. E chegamos a conclusão, sem ter de recorrer ao realizador e do ponto de vista do artigo em leitura, que é suspense.

Suspense é um sentimento de incerteza ou ansiedade mediante as consequências de determinado facto, mas frequentemente referente à perceptiva da audiência em um trabalho dramático. Não é, porem, uma exclusividade da ficção, pode ocorrer em qualquer situação onde há a possibilidade de um grande evento ou um momento dramático, com a tensão como emoção primária mediante a situação.

Explicando com partes do filme, logo a começar quando o Jaki, se dirige a marcação da fila do pão, vislumbrou-se nos telespectador que começariam a sentir as peripécias do filme, mas não, a acção e o acto 1 ficaram suspenso no diálogo entre o Flávio Bauraqui e o Jaki, nada mas aconteceu e se passou a outra cena e acto em que os dois personagens ao descobrirem o paiol dos armamentos se retiram para orquestrar o plano B, que também não trouxe nada de novo, levando a que assiste-se-mos os fogos de artifícios. E não a destruição das dinamites e do Mausoléu. Para ter clareza sobre o suspense, volta a ver o filme, o acto e a acção na praia que é proibida aos populares de a usarem, aqui ouve-se muito falatório e um tiro que soa, mas não vemos algazarra, a zaragata que poderia levar a detenção e ou a morte de populares, criando um clima mas dramático no verdadeiro sentido do género de acção dramática. Outro exemplo que se pode colher é da carta do russo à Avó Dezanove-Agnette que nunca chegou as mãos da destinatária. Esta carta dá a entender que a mensagem séria de salvação (o que se pude ouvir do narrador do filme), mas seria agradável encontrar os contornos da informação em cenas e actos de intriga e desesperos.

Outro personagem que acho que devia ter uma imagem suspense, de terror, de arrepiar as cenas em que surge, é o papel da avó Catarina e pude ver um erro no momento em que ao receber a avó Agnette de regresso do hospital, quando a câmara de filmar faz o plano geral dos personagens perfilados, a avó Catarina surge em continuação por trás da neta da Agnette, ou seja, minha opinião é que a imagem da Catarina não devia continuar depois que o Jaki a saúda, se estamos a falar de ´´fantasma“ é sempre bom desfocar uma parte deste espectro.

Voltando as técnicas, que não é minha especialidade, o filme faz muito bem os planos americanos (enquadramento dos personagens na câmara de joelho para cima), os planos de detalhes, os planos inteiros duplos e os planos médios curtos, e descobre-se que o uso dos figurantes, respeita perfis aceitáveis. Os figurantes são aqueles personagens que passam despercebidos em todas cenas e actos do filme, estes sim, estiveram a altura. Nenhum destes teve a curiosidade de olhar para as câmaras e saber se estava a sair ou não. Ou mesmo distrai-se ao longo da cena, até o personagem vestido de chapéu a cobói, camisa vermelha, jeans e botas de cobói, na festa da avó Agnette. É um figurante que devia dar gargalhada a cena, pelo veste e pela posição recta que se encontrava. Ai surge a fraca colaboração das outras indústrias nacionais no cinema. Não gostei do responsável pelo vestuário, mostrou-se um vestuário não típico para todos os presentes, aqui segundo a sinopse do filme, não se sabe ao certo que período o filme demostra. E há quem pode comentar que o filme retracta a década 80 porque os aparelhos musicais usados nas residências foram, o velho rádio Xirico e o gira disco.

Há um trabalho que parece difícil no cinema, mas não é, as filmagens no interior da viatura em movimento. Quando olhamos a imagem em primeiríssimo primeiro plano-PPP, em que o motorista esta em conversa com avó Agnette, viramos os olhos para ver o movimento das árvores e das casas (não que estejam em movimento, a nossa vista parece), esta técnica pode ser feita em estúdio próprio, ou pode ser feita em camara lenta, os 3 personagens vão conversando a caminho do cemitério e pode-se ver algum contorno de efeito. Esta cena e acto são as que dão mais trabalho no cinema, porque tens de filmar várias vezes em corte as falas, congratular a equipa que o fez com mestria.

Trilha sonora

O filme teve uma fraqueza neste cena, não ouvimos ao longo músicas que cada cena silenciosa do filme, mesmo em momentos de cenas de amor (o namoro entre a neta da avó Agnette com o soldado, a conquista do médico com a avó Agnette, a cena dos miúdos quando tentam explodir as obras, mesmo ao lançar os fogos de artifícios). Ficamos com um filme que não valorizou as músicas existentes pelo mundo, terá passado a música do Stewart Sukuma, na altura em que o médico cubano vem visitar a avó Agnette com uma garrafa de vinho.

Pintura de João Timane
Pintura de João Timane

Apresentação das marcas associadas

Parece incauto falar disso, mas quem conhece o cinema americano, sabe que o uso de marcas sem autorização ou compromisso é crime ou não, é publicidade de patrocínio. Ao ver as marcas, a Água da Namaacha na mesa do almoço veio-me a consciência que esta empresa patrocinou, e como devia enquadrar a água ao período que retracta o filme, tiveram de colocar uma garrafa de vidro e não as actuais plásticas. Bom!

Só que volta o realizador a cometer uma distracção quando os personagens bebem a cerveja, a marca Beer, não sei se patrocinou, se não o fez aqui ganha publicidade e visibilidade pelo mundo onde passar o filme, assim como o colmam da Coca-Cola que surge no meio da sala em grande plano geral. Vejam só, o colmam está lá patente aos nossos olhos, mas os personagens na festa estão a tomar a Coca em copos normais e nenhum aparece com uma garrafa na mão. Na mão aparece bem destacada o uísque Red Label (ver nota critica sublinhada acima). A garrafa de vinho na mão médico cubana é que foi bem colocada, não apresenta-se a marca, está virada. Mesmo o uso das viaturas é preciso antes ir-se buscar as empresas de venda de viaturas, apresentar as contrapropostas, se estas não apresentam vontade, as viaturas usadas nos filmes deveriam ser tapadas as marcas e se designarem outras marcas não existentes. É aceitável no cinema, mas não é aceitável dar publicidade ´´free“ as marcas.

Personagens figurantes

Todos os personagens principais e secundários, assim como figurantes estavam bem posicionados e com boa colocação de voz e movimentos. As falas ao encontro deles. É preciso parabenizar essas crianças que estavam de fronte as camaras pela primeira vez e com textos longos para decorar. Em especial o Pi que mostrou um à-vontade ao longo do filme. O rapaz tem aquilo que se diz na gíria´´ talento para ser seguido“. Flávio Bauraqui amigo meu desde o dia que aportou em Maputo para gravar o filme, fez o que melhor sabe fazer, encenar e representar. Papel que lhe ficou perfeito por ser um estudioso das raízes afro-brasileiras.

Sinopse

Tudo se passa num bairro não identificado, onde vive Jaki, os primos e a avó Agnette, numa casa assombrada pela misteriosa avó Catarina. A vida roda à volta da construção do Mausoléu de um presidente falecido, monumento que ameaça a tranquilidade de todos. Ao mesmo tempo, a avó Agnette tem uma infecção, é operada e perde um dedo, ganhando a alcunha: AvóDezanove. Inspirados, Jaki e  seu amigo Pi, decidem remover o Mausoléu para salvar o bairro – um plano mirabolante e condenado ao fracasso, não fosse a inesperada intervenção de um soviético cheio de segredos.

***

Para além de colaborar com o ICEF Jornal Feminino, Izidro Dimande é co-fundador e sócio da Soarte Media Lda, empresa ligada ao mercado de comunicação e produção de eventos. É fundador e 1º secretário
(2013-2015) do Movimento Literário Kuphaluxa, Associação focada na produção e publicação de obras literárias da cidade de Maputo e Matola. É membro da Associação Moçambicana de Escritores desde
2005. Trabalhou como jornalista no jornal comunitário Tsakane, pertencente a Conferência Episcopal Italiana de 2003 a 2005. Publica artigos na página do leitor do jornal Notícias e o País. Actualmente colabora no programa televisivo Moçambique no Coração. Formado em professorado no centro de formação de professores primários da Namaacha. E estudante na Universidade Eduardo Mondlane, curso de Administração Pública.

Artigo anteriorDuzentos e trinta e três meticais
Próximo artigoConto de Indira Grandê
Hirondina Joshua nasceu em Maputo, Moçambique, aos 31 de Maio de 1987. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos. Participou de várias antologias, revistas blog, jornais, colóquios, debates, festivais nacionais e estrangeiras. Tem colaborado com a plataforma mbenga de artes e reflexões fazendo conversas e divulgando textos de autores lusófonos. É co-redatora da revista portuguesa incomunidade. E colunista da revista galega palavra comum onde colabora com ensaios sobre a arte da escrita.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here