Duzentos e trinta e três meticais

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ONTEM fiquei duas horas a fazer contas. Olhei os extractos bancários de todas as minhas contas. Visualizei, contei as moedas, usei a máquina, calculei os meus gastos até Agosto e cheguei à conclusão que no dia 31 de Agosto, o aniversário da minha irmã, terei 233 meticais. 

Neste dia longínquo estarei solto, triste, solitário, firme, alegre, melancólico. Mas o mais importante: terei 233 meticais. Não terá festa de aniversário, lamento por isso, fico triste por isso. Mas estarei livre para usar os 233 meticais.

Olho para a caneta, o volume de papéis que preenchi com números: conta de luz, conta de água, que está três meses atrasada, rancho… Ainda não há preocupação com combustível, manutenção, mas sinto que o capim invade, toma conta do terreno e não tenho uma enxada firme para capinar esses pensamentos daninhos, que invadem quando a equação é complicada.

Respiro fundo, faço projecções, o passado irrita, o presente é o caos e o futuro é essa incerteza, mas sei que até 31 de Agosto terei 233 meticais, vou andar em linha recta, entrar na mercearia do Hald, trocar o dinheiro para ter 466 moedas. Com o dinheiro, andar em linha recta até à praia de Elisa, sentir a areia, espalhar as moedas, enquanto contemplo água cristalina, os pássaros, que cantam tão afinados.

Quando o sono tenta embalar-me, escuto o meu décimo primeiro cão a ladrar. Odeia este animal inconveniente, é vira lata, inconveniente, por isso fica solto e só aparece no final do mês. Penso em ignorar, mas é impossível. Acordo, pego a caneta e percebo que ainda é Abril e estou em casa, sem energia, a escrever no verso do recibo da conta de água. Mas uma vez, respiro fundo, digo que vou pagar, mas a conta é superior que 233 meticais.

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