Fintei a morte?

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Abro as cortinas da existência e o fedor do pânico polui a minha sala de estar. A casa está vazia, só eu, o silêncio e os meus livros. A família foi a Inhambane, esconder-se da praga, na nossa, sabe-se lá vã ou ilusória a crença de que há uma geografia para a pandemia.
Percorro o corredor que habitualmente é movimentado e sinto o medo a abraçar-me. Ele conforta-me, prometendo dias piores.

Perdi o controle das cortinas, o vento não me é favorável. O Iphone vibra, a notificação é: há mais um caso. O coração palpita mais rápido. E penso nos livros por publicar. O medo, no abraço, cheira a morte. O cheiro é desagradavelmente de podre, a morte, talvez deva ir ao hospital tratar do fígado, o seu hálito é sufocante. Nada posso dizê-la, estou a negociar. – Olha, estou certo que há cá algum engano. O mais provável é que tenha errado o endereço, não lhe convidei. -Ah, não? reage, friamente. Não, insisto.
Saca a lista de recolha e confirma o meu nome. Fita-me profundamente. Nossos olhares cruzam-se. A data, afirmo desesperadamente, não é essa. Posso até guiar-te aos outros que não reconheças as casa, mas saibas que és indesejada. Eu…vê só, há tantos gatos cá em casa, nenhum cruzou a porta do quarto. Tenho permanecido no meu leito, debruçando-me sobre a minha existência, as ausências de alguns eus mais responsáveis que o eu actualmente dominante. E é, no essencial, uma conversa sobre o futuro. De certeza que há um equívoco. Certa vez, conheci um senhor que assegurou-me conhecer alguém com o nome tal qual o meu. Desse, infelizmente, desconheço o endereço.
Indiferente, desdenhosa e medonha, liberta um riso de escárnio. – Não me comovo com chantagens emocionais, esta lista é infalível, garante.
Olhos no azulejo, a transpirar, a sentir frio, recordo-a dos vários casos de suicídio certo que foram travados a meio. A esses não conseguiste engolir, retruco.
Estupefacto com a minha insolência, esclarece: “não vim lhe fazer um convite!”. Senti o joelho esquerdo a vacilar, a cabeça a pesar, o corpo a ganhar leveza. Tomado por uma cólera, senti uma lágrima a percorrer-me o rosto. A perna secou, ensaiei um recuo, o corpo não obedeceu. Ia limpar o rosto, com a mão a escassos centímetros, lembrei que não podia, era um estratégia que ela tinha criado para eu ceder. A mão cheira álcool, cheira javel, cheira sabão.
Vejo que nas costas da morte, um lençol de um preto denso, preto mesmo como aquele tecido de luto, lentamente, cobre a minha estante de livros e discos, vindo na minha direcção. A morte goza o momento.
Um sabor amargo repentino no paladar. Em slide a memória traz-me um registo da minha mãe, minha irmã, minha namorada, meus amigos, alguns excertos escritos pelos meus autores favoritos. -Espera, imploro. Estala os dedos e num ápice a nuvem dissolve. No rádio notícia de última hora: mais dois mortos, vítimas do surto.
O alarme berra! O espelho do guarda roupa confirma que o meu corpo está inteiro. Com receio movo as pernas, as mãos, os braços, sempre com os olhos no espelho.
Da minha janela, vejo um pequeno jardim escondido atrás da copa que partilho com os vizinhos do quintal.

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