José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem

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dr. Leonel Eugénio Matusse Júnior

“Em nome da verdade histórica/inventarão virtudes que nunca tive”

José Craveirinha 

SOMOS movidos por uma preocupação em relação a um possível conceito de arte para Moçambique, sempre conscientes de que não seria apenas um. Entretanto, em conjunto podemos estabelecer algumas balizas.

Esta inquietação surge da percepção de que a arte está a ser percebida como mero mecanismo de lazer, ignorando-se a sua componente reflexiva, a sua capacidade de despertar consciências ou mesmo de fundar utopias.

É nesse contexto que em 2018 escrevemos o artigo de opinião “Arte é um bem público”, no qual pretendíamos colocar este debate na mesa, de modo a começarmos a edificar alguns possíveis consensos.

Coincide que no meio desta busca de possíveis respostas, cruzamo-nos com “A (im)possibilidade do momento moçambicano: notas estéticas”, do filósofo Severino Ngoenha, que questiona em que momento surge a arte moderna moçambicana. Na sua reflexão sugere que é a partir de influências do Renascimento Negro de Harlem que temos os “primeiros passos derradeiros”.

Entendendo que o filósofo propunha um debate, na crónica “Talvez em Buenos Aires”, questionamos o facto de, desde 2016, que o livro foi publicado, não termos visto nenhuma reacção, nenhuma continuação ou mesmo uma negação da proposta.

Com efeito, sentimo-nos impelidos a fazê-lo, pois, por um lado, é uma pista para discussão sobre o que é a arte moçambicana e, por outro, é a continuação de um exercício intelectual.

Terá, inclusivamente, influenciado para esta reacção uma entrevista que Habermas concedeu ao jornal El País, na qual recordava que a figura do intelectual poderá desaparecer se não houver leitores. Sinceramente, não nos ocorre que o ser pensante de uma sociedade desapareça.

Quando olhamos para alguns dos principais nomes da arte moderna moçambicana, como Ricardo Rangel, na fotografia, Conjunto João Domingos ou Orquestra Djambo, na música, Noémia de Sousa ou José Craveirinha, na poesia, reparamos que as referências comuns são artistas do movimento negro norte-americano.

Por exemplo, no que diz respeito à fotografia rangeirista, conforme Luís Bernardo Honwana, nota-se uma influência significativa do jazz. Aliás, o documento de apresentação do primeiro festival de jazz de Moçambique pós-independência, em 1986, testemunha a relação do fotógrafo com aquele género musical. E a exposição que decorreu no Kulungwana, em 2018, é, nesse sentido, elucidativa. A forma de registar, os elementos explorados, bem como os planos.

Com base na pesquisa do historiador Rui Laranjeira, impressa em livro com o título A marrabenta sua evolução e estilização, 1950 – 2002, afirmamos que o Conjunto João Domingos ou a Orquestra Djambo, iniciaram-se tendo como referências a música dos EUA, o jazz. Só a posteriori é que se introduzem na marrabenta.

Optamos, portanto, por iniciar este exercício com José Craveirinha, por termos a impressão de que esta influência transcende a poesia, moldando a forma de ver o mundo na fase inicial.

Importa referir que esta análise temática não irá aprofundar-se em questões literárias, em tanto que tal. Não se trata, igualmente, de crítica literária. O nosso interesse é olhar para o marco histórico e o pensamento produzido nesse processo.

Renascimento Negro

Citando o filósofo “afro-americano” Alain Locke, responsável pela publicação da antologia “The New Negro” (1925), Severino Ngoenha refere que o coração do mundo negro começou a bater em Harlem (Ngoenha, 2016: 34). E aponta os anos 1920 a 1940 como o princípio, nos quais se podem apontar nomes como Langston Hugues, Claude Mckay, Jean Toomer, Countee Cullen, Sterling Brown, como algumas referências.

A este registo, pode-se acrescentar ainda a afirmação de Amadou Mahtar N’bow, no primeiro festival pan-africano da Argélia. O então ministro da Cultura e, na ocasião, chefe da delegação senegalesa, elucidou que este movimento começou na diáspora africana, a partir da reivindicação do Renascimento Negro de Harlem nos Estados Unidos de América (p.35).

Trata-se de um movimento que contestava a civilização americana, bem como numa perspectiva marxista, contestava o sistema capitalista que oprimia o Homem, colocando o dinheiro acima dos valores humanos. 

Severino Ngoenha descreve este movimento como resultado de uma elite intelectual negra em Harlem, que cantava a dor, o sofrimento, mas também a esperança e se tinha designado porta-voz do povo negro. Estes militantes eram movidos por preocupações sociais, o que sustentava os seus protestos.

Alain Locke era defensor da ideia de que a poesia era a melhor arma para a construção do novo negro. A poesia, conforme Ngoenha (p.36), era a mais antiga forma de expressão dos negros que iam tomando consciência de si. Nesse processo pode-se apontar a revista The Crisis, dirigida por Du Bois e a Oportunity, conduzida por Charles S. Johnson, que atribuíam prémios literários de poesia e conto a jovens negros.

A literatura produzida por este movimento, prossegue o filósofo, era suportada por uma carga de reflexão profunda sobre a nova consciência psicológica e social que se formava nas massas negras.

O novo espírito em alusão defendia a dignidade humana e convidava a uma atitude mais combativa em relação à descriminação racial, direitos civis. Estes negros estavam dispostos a erradicar a opressão e as injustiças a que estavam sujeitos.

Severino Ngoenha aponta que este movimento tinha consciência de que a sua função era realizar um processo de ruptura com a visão de mundo que marginalizava a humanidade do negro.

Para o efeito, entendia ser necessário ir buscar referências na origem, isto é, África. O resgate do passado, conforme as propostas, deveria ser feito através do folclore, tradições. A finalidade era construir o orgulho de ser negro para poder construir o futuro.

James Weldon Jonhson, no prefácio de The Book Of American Negro Poetry, convida os poetas a sistematizar as fontes orais da tradição negra (p.36).

No essencial este movimento pretendia construir uma identidade consciente do negro, baseada nas suas origens, numa espécie de tentativa de resgate de um momento histórico em que ainda havia liberdade do povo negro.

Para além da literatura, para este movimento, é preciso reconhecer a importância do jazz, que foi tomado por estes intelectuais como uma forma criativa de resgate das raízes africanas e uma forma de identidade. Coincide que nos anos 20 – 40, este género musical era popular entre a comunidade negra.

Esta música criada por negros, rapidamente espalhou-se, contagiando críticos e compositores, inclusivamente na Europa. Isso reforçou ainda o próprio movimento, na medida em que era mais uma prova da capacidade de criar uma arte que fosse capaz de agradar ao mundo.

Em Moçambique, o princípio da consciência moderna sobre a moçambicanidade e a necessidade de libertar-se do regime colonial começa nas artes – na literatura, para ser mais preciso.

A literatura moçambicana, quando olhamos para as suas primeiras referências, ao contrário do movimento de Harlem, não nasce exclusivamente de negros, uma vez que estão na sua origem maioritariamente não negros, nomeadamente brancos. E a sua preocupação, ao contrário daqueles, não era provar a sua presença no mundo, mas apropriar-se deste espaço geográfico que é Moçambique, assumir-se pertencentes a ele. Nesse naipe podemos encontrar nomes como Rui Knopfli, Rui de Noronha, Noémia de Sousa, João Dias, só para apontar alguns nomes.

Desse período, estamos a situar-nos nas décadas 40, 50 e 60, é possível, de acordo com Ngoenha, encontrar várias referências à Negritude – movimento que evoluiu, sobretudo, na França, a continuar o Renascimento Negro de Harlem.

Referindo o poema “Let my people go” (Deixem meu povo passar), que autores como Rui Laranjeira enquadram na Negritude, Ngoenha coloca-o como resultado da influência do Renascimento Negro.

“Olhando de perto para este famoso texto torna-se evidente que a literatura moçambicana não emerge da mediação do movimento da Negritude, mas de uma inspiração directa do Renascimento Negro”, (p.78)

O filósofo sustenta-se nos motivos do poema, como a nostalgia da liberdade perdida, a morte das emoções proibidas, uma saudade do que foi e já não é. Que são marcas do movimento americano.

JOSÉ Craveirinha, tido como o patriarca da poesia moçambicana, como, por exemplo, refere o crítico Francisco Noa, nos ensaios das suas obras A Letra, a Sombra, e a Água e A Escrita Infinita, é um dos exemplos dessa influência do movimento de Harlem. Aliás, é a referência usada pelo filósofo para sustentar a sua tese.

Enquanto um dos percussores da literatura moçambicana, torna-se pertinente entender os motivos, as raízes da sua escrita, pois, conforme Gilberto Matusse, é um dos protagonistas da construção da imagem da moçambicanidade literária que, quanto a nós, acaba, de certa forma, por contribuir para a moçambicanidade de facto, empírica.

Sendo que este processo é uma construção, como frisa Matusse, parece-nos de extrema relevância entender quais foram os blocos ou tijolos, enfim, que material foi usado nessa empreitada.

Podemos encontrar a materialização dessa edificação a partir, por exemplo, da utopia da construção de um país melhor com a conquista da independência, que é, igualmente, a expectativa que encontramos no Renascimento Negro, de Harlem.

Francisco Noa aponta que esta situação está mais evidente nos livros Xigubo (1980 – 1ª edição é de 1964), Cela 1 (1980) e Karingana ua Karingana (1982 – 1ª edição é de 1974, embora encerre poemas escritos a partir dos anos 1940). E recorre ao poema “Sai-Vuma”, como um exemplo.

Em Cela 1, encontramos ainda “O Meu preço” (p.43), no qual Craveirinha manifesta essa esperança quando escreve que dá-se em troca de mil crianças felizes, nenhum velho a pedir esmola, uma escola em cada bairro, salário justo nas oficinas. Que no contexto em que foi escrito, em Dezembro de 1969, ainda era uma miragem para os negros moçambicanos.

A exaltação do negro é outra marca patente na poesia craveirinhesca, como se pode encontrar, por exemplo, em “Pena”, em Cela 1. “Zangado/acreditas no insulto e chamas-me negro/mas não me chames negro./Assim não te odeio” (p.62).

Há ainda a denúncia da condição de subalternidade que os negros vivem nesse contexto. O poema “Ninguém”, na colectânea Karingana ua Karingana é uma mostra:

“Andaimes/Até o décimo quinto andar/Do moderno edifício do betão armado/O ritmo/Florestal dos ferros erguidos/Arquitectonicamente no ar/E um transeunte curioso

Que pergunta:/– Já caiu alguém dos andaimes?/O pausado ronronar/Dos motores a óleos pesados/E a tranquila resposta do senhor empreiteiro:/– Ninguém. Só dois pretos. (p.27)”

O resgate do folclore, em Craveirinha, manifesta-se de várias formas, entre elas a incorporação de expressões linguísticas dos idiomas nacionais nos seus poemas. E neste exercício acaba operando outra engenharia, que é a incorporação das marcas da oralidade na sua poesia.

“O folclore moçambicano e as suas tendências”, que é uma colectânea de textos recolhidos pelo filho Zeca Craveirinha. Trata-se de escritos do período que vai desde 1955 até 1987, publicados nos jornais O Brado Africano, Notícias, A Tribuna, Notícias da Tarde, A Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana.

É um livro, fora da poesia como tal, no qual trabalha a memória cultural e histórica de Moçambique. Que é uma das propostas do Renascimento Negro, de modo a construir a identidade e moldar a consciência do novo negro, resgatando as marcas da sua cultura.

As similaridades não param por aí. O jazz é uma marca presente na poesia de Craveirinha, poemas como “Elegia a um ex-trompetista velho ‘good-boy” – dedicado a Louis Armstrong – e “Quando o José pensa na América”, impressos na última colectânea publicada do poeta, organizada postumamente pelo filho, Zeca Craveirinha: Moçambique e outros poemas dispersos.

Excerto de “Quando o José pensa na América”:

“(…)E nas verídicas fábulas típicas/de locais como Nova Orleães e Harlem/entra Louis Armstrong/sai Jesse Owens./Entra Duke Ellington/(…) todos com suas quinhentas mil famílias incluindo a família de José/ e então Duke Ellington faz piano/resolver uma série de problemas/de jazz enquanto um obsceno(…)” (p.62-64).    

Esta relação com a música prossegue nos poemas que dedica a Daíco e, sob o ponto de vista empírico, na sua intervenção para a consolidação da marrabenta, à semelhança do jazz para o Renascimento de Harlem. Testemunha este facto Rui Laranjeira, na obra A Marrabenta sua evolução e estilização, na Associação Recreativa Beneficente dos Comores, vulgo “Comorianos”, aliás, o poeta é fonte da obra, nessa temática.

Numa outra entrevista, cedida ao jornal Notícias, publicada a 19 de Outubro de 1997, Gabriel Chiau explica que José Craveirinha ajudou na fragmentação de alguns grupos musicais de actuavam no Centro Associativo dos Negros.

A exaltação da Mafalala, que Ngoenha diz ser o Harlem do poeta, continua nestes pontos em que há marcas do Renascimento Negro. O filósofo refere que o quotidiano daquele lugar era um dos maiores interesses do poeta. Posicionamento que coincide com Fátima Mendonça, na colectânea Memórias e espaços de um lugar: Mafalala, quando destaca este facto: a Mafalala é, para Craveirinha, o centro irradiador de reivindicação.

Personagens como Albertina, Felismina, Mulata Margarida ou Teresinha, que protagonizam o ambiente de alguns poemas, são originários daquele espaço (p. 38).

A Mafalala é, nestes moldes, um espaço em que a semelhança de Harlem para o Renascimento Negro funciona como uma espécie de Meca para os islâmicos. Fica-se com a impressão que tal como os negros americanos, Craveirinha também precisasse de um território simbólico de toda a reivindicação que encabeçava.

Bibliografia

CRAVEIRINHA, José (2018) Moçambique e outros poemas dispersos. Maputo: Alcance Editores

CRAVEIRINHA, José 1980. CELA 1 . Lisboa

CRAVEIRINHA, José (1982). Karingana ua Karingana. Lisboa

CRAVEIRINHA, José (1980). Xigubo. Lisboa 

LARANJEIRA, Rui (2014). A Marrabenta sua evolução e estilização, 1950 – 2002. Maputo

MATUSSE, Gilberto (1998). A construção da imagem da moçambicanidade em José Craveirinha, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khossa. Maputo : Livraria Universitária da Universidade Eduardo Mondlane

MENDONÇA, Fátima (2016). “NOÉMIA DE SOUSA E JOSÉ CRAVEIRINHA NOS TRILHOS POÉTICOS DA MAFALALA” in “MEMÓRIAS E ESPAÇOS DE UM LUGAR MAFALALA”, Maputo-2016 pp. 33-52. Maputo 

MENDONÇA, Fátima (2011). “Literatura moçambicana as dobras da escrita. Maputo : Ndjira

NGOENHA, Severino Elias (2016). A (Im)Possibilidade do Momento  Moçambicano Notas Estéticas. Maputo : Alcance Editores

NOA, Francisco (2008). A Letra, Sombra e a Água ensaios e dispersões. Maputo: Texto Editores

NOA, Francisco (2013). A escrita infinita: Ensaios sobre literatura moçambicana. Maputo: Ndjira, 2ª ed.

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