Lá na morgue…*

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Em pé, apertado, o relógio marca 7.50. Segura firme na barra de ferro para não ser arrastado por quem força a passagem. O mau cheiro do Fajardo perfuma o chapa que faz a rota Malhazine – Museu. Penas de frangos ensanguentadas, as tripas, a água com a qual depenaram a galinha fundiram-se para gerar este aroma. Caixas rasgadas em volta do contentor de um verde sujo. O engarrafamento torna a marcha lenta. A camisa amarfanha, Deus é culpabilizado.
Mal desce na Pandora, meia hora depois, mergulhado no stress do atraso, atende bruscamente a quinta chamada da prima, a Telma. Vovó morreu – o punhal entrou lentamente na existência do ouvinte. O chão ganhou alguns metros de profundidade, a Vladimir Lenine, as 8.37, parou. Por instantes, perdeu a audição do roncar e a buzina dos carros. – Tens de voltar para casa, precisamos resolver esta situação, concluiu a Telma, trazendo-o de volta para a dimensão terrena. É o homem da casa. Pausa com um mentol. Toma um chapa de volta, senta-se. 9.00 horas. Uma morte repentina, vovó não ficou doente nem nada. Desperta no impulso da travagem brusca do chapa, na lomba da sua paragem. Desce.
O Charles, vizinho de quarteirão, já o espera no beco de casa, um labirinto estreito, um muro alto a direita e espinhosa a esquerda. No cotovelo da esquina, o Charles apoia-se num barrote que suporta chapas de zinco, que cobrem um quintal. – Já soube da cena, os meus sentimentos – cumprimentou. O Langa, desnorteado, balbuciou, entra comigo em casa.
As crianças estão todas num canto, rosto parvo com as solenidades. Hoje as mães é que choram, será que elas observam esta troca?
Mano, temos de ser fortes. A Palmira, outra prima, desata a chorar. Abraçam-se e a lágrima vence a camisa e beija-lhe o ombro. – Temos de ser fortes, foi descansar. Os vizinhos vêm cumprimentar. As mulheres ofereceram apoio na cozinha. Os homens voluntariaram-se para montar a tenda. Langa assume a liderança. Distribui as funções.
Charles, vamos, ordena! No beco, o Charles esclarece, temos que ir a casa mortuária enquanto tens txi. Outro encargo para além do aluguer do carro da falecida para o Hospital.
Logo que cruza o portão da morgue, homens e mulheres aproximam-se, seduzindo-o, prometendo carta de recomendação para São Pedro, caso as cerimónias sejam feitas pelas suas funerárias. A bolada não para. Langa está a inalar um ar gelado. “E esta agora?”; “como é que a minha mãe está com isso?”; “foi descansar”; “podia ficar mais um pouco, me ver na minha casa já”, “mas viu um emprego estável”; “as coisas lá em casa?”. É o que vê e ouve, está imune ao canto da sereia.
O txi? – pergunta o Charles. – Para quê? – reagiu, bruscamente, o Langa. O corpo depende de um refresco para ser bem cuidado. Langa quer se despachar, mil paus, cash. Naqueles passos lentos dos serventes de bata azul, o processo correu. Enquanto saiam, uma voz gritou: Charles, aqueles que você mandou ontem, são matrecos. Não pagaram. O corpo está ali com os outros. Langa levou um choque ao visualizar mortos amontoados no canto de uma sala. Atirados de qualquer maneira. Efuh! Está paga a câmara, alivia-se.
Ao sair, novamente o zunido dos agentes das funerárias. A interpelação é padrão. Mal o sujeito aproxima-se do portão, eles já lá estão a oferecer os seus serviços. Quem de vocês tem aquela tenda e aquela cena que cordas bonitas para descer o corpo? – perguntou Langa. A Banze Funerária leva o seu familiar num Volvo, destacou-se entre os outros dez. Fechado!
Arrepiou-se ao, novamente, visualizar corpos amontoados de qualquer maneira. Acendeu outro mentol. Charles bazou, não cobrou pelo trabalho que alimenta a sua família, guiar processos de obtenção de certidão de óbito, contacto com os coveiros e secretaria do cemitério. Cruzando o portão de casa, recorda-se, o tipo lá disse Volvo?

*título emprestado de uma peça de teatro nacional.

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