Perdido em Lisboa

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As ruínas de Constantinopla, os seus becos, os castelos de Istambul e eu fizemos um pacto, prometemo-nos um conto, uma história frustrada de amor. Mas nunca se efectivou, sabe-se lá a razão, talvez na longa espera, um dia, ganhe forma. Podia afirmar que sim: mas já não sou de certezas, se é que algum dia fui.

Lisboa, porém, não aceita o mesmo destino, recusa-se a essa negociação que lhe proponho. Empurra-me para o papel, mesmo consciente dos meus receios, insiste, persegue-me. Imagina uma cidade que percorre os teus becos interiores, revela algumas zonas sombrias da tua interna-periferia, espelha-se naquele pedaço restante, ainda com reflexo, da chapa de zinco cujo resto do corpo foi tomado pela ferrugem. Imagina só!

Quando peguei no Smartphone para escrever este texto, ocorreu-me que a minha experiência com Lisboa, no primeiro contacto, não se difere muito da do Fernando Sabino, na crónica “Em Londres, como os ingleses”, inclusa na colectânea “Deixa o Alfredo Falar”. Foi o frio a penetrar-me até o tutano, ignorando as tantas camisolas que eu vestia. Era uma manhã de Fevereiro, quando desembarquei. Debaixo de uma chuva, emergi do subterrâneo, onde deixara a estação de Metro para chegar a Almirante Reis, na Alameda. Um riso simpático me aguarda. Certa ocasião, numa noite tranquila, um copo de vinho, queijo da cabra, vinho tinto, broa, ovos mexidos, brócolos…um papo leve. Era um permitir Ser, uma abertura para um jardim do outro, o baixar da guarda da  filha mais bonita de Leda.

Estilhaços. Não tenho o norte. A tinta espalha-se na tela. Um zuiiiimmm provoca zunido no ouvido.

Noutra noite,  no alto da “Praça Martim Moniz”, recebo os tratamento de Black Coffe que o Dj serve em Babel. Na manhã seguinte o sol acende as luzes do Museu. Percorrendo a Almirante Reis, cruzo com  Fernão de Magalhães, na Praça do Chile, tentando chegar no Intendente. Paro. Não tenho o norte da cidade. Ao sabor da memória, revela-se um portão que ainda insiste algum verde, ferro. Paredes estreitas, a luz é escassa no meio do pátio quase iluminado, roupas a secar no estendal da pequena vila escondida. As águas fazem a sua música, na bica que canta nas nossas costas. Uma fonte. O beijo da água que escorria da garganta da boca que a liberta para a bilha, onde o Bairro Alto e parte de Lisboa iam buscar água, noutros carnavais, escapou ao iCloud. A foto? Está na nuvem.

O telemóvel chama – me trazendo de volta ao plano supostamente real-, é o editor, que está com o poeta, não os vejo. Uma mão acena, no café da esquina, é o poeta, pena não ter sido mal cuado, falo do líquido mesmo, não era o Bauman. Versos circulam por cima da mesa. Afinal era logo ali ao lado, uns passos da Alameda. Uma tarde de sol, depois do trauma de 9 graus, cacimba (nevoeiro) – naquela manhã, as vozes que vinham na minha direcção revelam-se, duas mulheres numa conversa matinal, indicam-me o caminho, indicam-me o autocarro, tinha ido a superfície do subterrâneo, na estação de Chelas, antes da saída certa. “Estás um pouco distante, toma o autocarro, 759”, aconselhou. A empregada sobe o prédio com saco com pães e a vizinha da patroa continua o seu percurso. “Todo homem” de Zeca Veloso chora nos headphones, opto por ir a pé. Ando a minha procura -. Um brinde, convida o poeta. Ao sabor da palavra, eu e o cultor da palavra, Alexandria, perdemo-nos dos companheiros. O editor e o poeta palanca que desmente todas convenções. Perdidos. Ao alcance dos olhos, depois de uma subida íngreme, as luzes de Lisboa faziam-se estrelas hesitantes em terra, o laranja estendido no horizonte, enquanto o cinzento intenso com formato de espuma cerca o laranja rodeseado dos últimos cartuchos do sol. Uma igreja nas costas. Estamos perdidos. Ainda era uma picada para a exposição num antigo teatro romano, setecentista. Subterrâneo, como que a brincar com os silêncios, feito um Lapidusa, as luzes do interior fazem o mesmo com o escuro, são alguns fiapos que se espalham na instalação.  A visão é turva, DVD raspado. Verde, amarelo, cor de rosa, azul, preto. Tinta espalhada na tela, nada preciso.

E Sofia de Mello Breyner Andresen, diz-me, próximo do Padrão das descobertas (de encontro, digo):

-A Catarina Simão como mapa. Desculpem não ter dito que já era outro dia. Também de sol macio, o que sobra da espuma do mar quando abraça a terra, na praia. Luz contra a palidez. Não tenho o norte da cidade. A exposição conversa muitas conversas, é o desmoronar de castelos. É o partir do vaso de barro, ali exposto havia anos. R – Humores.

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