Mamana de sacudum no Cais de Sodré

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Uma multidão desce do metro, todas as cores, recriando Babel nos diálogos, no Cais de Sodré. Um saxofone tenor, sopros de vida por algumas moedas, de um músico de rua, me recebe na superfície da estação. O movimento de carros não cessa, um eléctrico está a arrancar, é o 15. Belém? – pergunta uma alemã ao motorista. Yes, provavelmente ele terá respondido ou acenado com a cabeça em sinal positivo, simplesmente.
Com um sacudum na cabeça, sacos plásticos nas mãos, uma mamana negra chega a paragem, vindo da direcção de Cascais. Seu olhar é esquivo, talvez para suportar um peso de séculos que foram rasgando e pisoteando a sua humanidade.
O seu andar, entre os turistas em gargalhadas que contemplam uma Lisboa solorenta depois de dias cinzentos, tem outro peso. O chiar de uma velha branca revela a nódoa que é aquela mamana, para alguns.
Indiferente a tudo à sua volta, apenas espera pelo autocarro. A manana mantém-se em pé com o sacudum na cabeça. Meu Wi-Fi está fraco…- comenta alguém para o amigo, ao meu lado, em espanhol. Um casal simpático, em italiano, reage: Lisboa é acessível. A conversa navega entre as cidades mais atraentes da Europa e nas similaridades das línguas latinas.
Cabelos negros, pele castanha, deitado numa caixa de papel, alheio, um homem de idade, talvez 64, termina a beata atirada acesa para o chão. Ao lado das mantas, uma garrafa de vinho na metade aguarda, imagino, o momento certo ou a hora certa, para ser tomada com o Mc Donald que recolheu no lixo. Ele está na outra margem da rua, dando costas à linha férrea que obstrui a visão do Atlântico que com os seus barcos apenas aguarda pela fotografia de um internauta. Ele está na sombra.
O sol beija a testa da mamana e dá forma ao semblante que evidencia uma certa preocupação. Transpirada, repousa os sacos plástico da mão direita. Vasculha o cartão de transporte na bolsa e cai, nesse movimento, uma moeda de dois euros. Um jovem indiano, ao vê-la em apuros, agacha-se e a entrega: obrigado – ouve-se da boca dela uma voz seca – o jovem apenas sorri. A velha branca o encara com um olhar de desdém, murmura. É recém chegado, ainda não domina a linguagem do lugar, digo, a língua. É sábado.
O que o menor branco, no colo dos pais, que não tira os olhos da mamana não fantasia, na sua inocência, é que aquela cabeça, além do sacudum, carrega sonhos, a esperança do menino como ele, seu neto, vingar e poder, como ele, viajar pelo mundo. Se bem que isso é miragem para quem, na verdade, não sabe se terá pão nem os três euros da viagem no dia seguinte. A mamana graceja, a gargalhada do menor dá luz ao quadro.
Um casal de brasileiros aproxima-se, ouvi-a, ela queixa-se: o patrão não nos respeita. Poh, eu faço o mesmo trabalho que o Pedro da Almada, mas recebo menos e quando fui reclamar, disse-me para voltar para Minas. Tem base?
O eléctrico que se aproxima não é o que a mamana espera, o rosto desenha novas dobras, enruga-se. As pernas tremem, não repousa o pescoço, o sacudum não vai para o chão, porquê?
Na corrida para o eléctrico a perdi de vista, a mamana que carregava um sacudum na cabeça e sacos plásticos pesados nas mãos.

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