Doar obras para aumentar espólio do museu de arte

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A DIRECÇÃO do Museu Nacional de Arte (MUSART) pede que os artistas façam doação das suas obras em face da falta de verba para aquisição.

Marcos Fernando, director desta instituição, disse ao “Notícias” que qualquer artista gostaria de ter as suas obras expostas no Museu Nacional de Arte, pelo que, reconhecendo dificuldades da “casa” em adquiri-las, poderiam optar por doar o seu trabalho.

Contou haver artistas que já optam por esta via. Revelou que recentemente recebeu esculturas makonde que pertenciam a um coleccionador italiano que deixou no testamento a vontade de trazê-las de volta ao país quando morresse.

“Os artistas plásticos João Fornazine, Pedro Mourana e Dino Gethá são alguns dos que manifestaram interesse de oferecer o seu trabalho”, disse o director.

Referiu que, igualmente, algumas instituições têm feito o mesmo. “Estamos abertos”, garantiu.

Marcos Fernando reconheceu que em face das limitações financeiras o país ainda não está todo representado no museu nacional.

Acredita, no entanto, que este é um processo gradual. O Museu Nacional de Arte, disse, tem solicitado de forma insistente às direcções provinciais de Cultura e Turismo para trazerem obras. “Queremos outras expressões”, afirmou.

A ambição, prosseguiu, é de ampliar a reserva, melhorar a climatização das salas, por exemplo, e ter outras funcionalidades.

O director é de opinião que “não podemos apenas reclamar, penso que em conjunto podemos contribuir para que a situação melhore”.

Última aquisição significativa foi em 1989

O ARMAZÉM do Museu Nacional de Arte, na cave, é onde funciona o Departamento de Conservação e restauro de obras.

Jonas Tembe, com 30 anos de experiência em restauro e conservação, é que conduziu a Reportagem do “Notícias”.

Estava a trabalhar com uma pintura a óleo no unitex, de Jacob Estevão Macambaco, assinada em 1969, intitulada “Palmeiras”.

Explicou que, como mandam as regras, antes fez o levantamento do histórico-clínico da obra e o estado de conservação de modo a avançar para a sua respectiva recuperação.

“A história clínica tem a ver com o material que foi usado na altura, porque não podemos usar material que crie um contraste”, explicou o restaurador. 

Jonas Tembe estava a recuperar a camada cromática da obra. Mostrou-nos pastas com alguns restauros a ilustrar desde a degradação até ao momento pós-restauração de outras pinturas e esculturas.

Jonas Tembe fez saber que regularmente as obras danificam-se em determinadas circunstâncias, como o transporte, o estado de conservação, a humidade, a luz ultravioleta, por exemplo.

A temperatura média na qual uma pintura pode estar, explicou, é relativa, mas não pode oscilar dos 20 a 25 graus.

“Por exemplo, as obras quando vão para a Europa não podem chegar e desempacotar-se de imediato. Têm que ser deixadas pelo menos 48 horas para ambientar-se”, disse.

Quanto ao acervo, revelou o restaurador, a pintura mais antiga no Museu Nacional de Arte é um retrato do Rei Dom Carlos, pintado por José Malhoa em 1909, que estava conservado no Museu São Paulo, na Ilha de Moçambique.

Jonas Tembe disse que “as obras mais recentes, sem muita precisão, chegaram mais ou menos em 1989, porque as outras foram doações, pois o museu parou de fazer aquisições”.

Academia não está a cumprir o seu papel

UMA das componentes do MUSART, conforme o seu estatuto, é a de pesquisa e documentação da evolução das manifestações artísticas no campo das artes plásticas. Este trabalho carece de especialistas em história de arte, entre outras disciplinas correlacionadas, das Ciências Sociais e afins.

É neste contexto que nos aproximámos ao Instituto Superior de Artes e Cultura (ISARC) de modo a percebermos se no seu quadro havia especialistas na área e o que estava a ser feito sobre o assunto.

“O sistema ou circuito de arte moçambicana tem várias oscilações”, observou Tembo João Sinhae, docente naquela instituição.

Recordou a coluna RandzArte, do crítico Júlio Navaro, que durante alguns anos fez o acompanhamento da evolução das artes plásticas nacionais.

Com o seu desaparecimento, prosseguiu, em 2003 arrancou o Movimento de Arte Contemporânea (MUVART), que discutiu a produção nacional e criou uma ruptura com o moderno, introduzindo o contemporâneo, o que até provocou o Núcleo de Arte, devido ao novo sentido estético das artes plásticas.

“Este grupo fez crítica no jornal Meia-Noite, sempre com acompanhamento da historiadora Alda Costa”, referenciou.

Entretanto, por várias razões, “depois esmoreceram e foram para outras funções”.

Nos últimos anos, continuou Tembo João, o artista plástico José Norberto tem de vez em quando produzido alguma crítica publicada nas redes sociais.

Por sua vez, o Instituto Superior de Artes e Cultura (ISARC), que já graduou cinco grupos, ainda não tem condições, como um edifício próprio, as oficinas são improvisadas, o que limita a produção de pensamento e pensadores.

“Os formados estão a entrar para o mercado e ver como se inserir”, disse Tembo João, que reconheceu ainda que “como professores estamos a agir de forma isolada, ainda não estamos no circuito, o que torna difícil dizer qual é o nosso papel”.

MUSART não é para qualquer artista

UM nome incontável ao longo das buscas que fomos fazendo é o da museóloga Alda Costa, que entre 1986 e 2001 chefiou o Departamento de Museus do Ministério da Cultura. Nos anos 2007-2009 presidiu a Comissão Instaladora do Instituto Superior de Artes e Cultura.

Alda Costa, actual directora de Cultura da Universidade Eduardo Mondlane, explicou que a sua presença no Ministério da Cultura coincide com o da criação do Museu Nacional de Arte.

“Em 2004 houve a inclusão de artistas mais jovens. Anésia Manjate é um exemplo disso”, disse, esclarecendo que depois de 1989 continuaram a entrar obras.

A preocupação dos artistas do Núcleo de Arte quanto à ausência de algumas gerações naquela “casa” é uma questão recorrente. Não é de hoje.

Essa classe, afirma a historiadora, sempre entendeu que o museu era para abranger quem não tinha possibilidade de conhecer obras noutros espaços.

“O museu é para artistas que têm um percurso, um trabalho contínuo. Não pode ser ao acaso. Os ministérios e direcções provinciais deveriam ter galerias para exposições temporárias, o que aliviaria o museu”, explicou Alda Costa.

A visão da museóloga é que o MUSART também poderia apostar em exposições temporárias para compreender a evolução do trabalho dos artistas. Esta seria uma forma de mostrar outros valores e de criar movimento.

Esta opção, esclarece, conduz a dois caminhos: mostrar o que está a mudar, observando as novas tendências e ver o que já foi feito e está consagrado.

“Quando o museu tinha um programa de exposições temporárias, era aí que mostrava os mais jovens. Este era o espaço dos mais novos. E mesmo sem poder adquirir as suas obras eles expunham lá”, recordou.

A historiadora insistiu na urgente necessidade de se documentar, divulgar em diferentes formatos o que está disponível no museu de modo a “contar a nossa história”.

Nunca houve fundos para o MUSART

COM base na legislação que rege este sector, a museóloga explicou que cabe ao Estado financiar a compra de obras para o Museu Nacional de Arte.

“A partir do momento em que o Estado não dá dinheiro para o funcionamento mínimo de um museu compromete as suas aquisições. Na verdade nunca houve verba para o Museu Nacional de Arte”, revelou Alda Costa.

Sendo o museu uma instituição para a educação dos cidadãos, a historiadora lamenta o tratamento que este recebe, olhando também para o seu “status”.

É, afirmou, como se o Estado não assumisse o seu papel.

“O estatuto é muito claro, mas as políticas são claras sobre o que temos de fazer”, observou Alda Costa, reparando nas mazelas que apoquentam aquele museu, que não está a cumprir as funções que lhe são atribuídas pelo Estatuto Orgânico do MUSART, de 11 de Junho de 1996.

Neste quadro, ela não ignora a escassez de recursos humanos qualificados, até porque, como tem observado enquanto funcionária pública há mais de três décadas, as pessoas mais capazes não ficam no Estado por vários motivos. E o museu não é excepção.

Por outro lado Alda Costa afirma ter a impressão de que há uma certa falta de orientação, diferente do período socialista, quando esta instituição foi criada. Naquela altura, recorda, a visão era muito clara, havia uma orientação.

“Em [19]85, Luís Bernardo Honwana, então Secretário da Cultura, clarificava que a arte não é só feita pelo Estado e o que cabia ao Estado”, disse, acrescentando que “hoje é que não temos uma visão muito clara sobre o que fazer e como fazer”.

É neste sentido que condenou a falta de continuidade de projectos para a criação, ciclicamente, de novas coisas. Nesse processo “acabamos por destruir o que já havia para criar novas instituições e a parar uma série de coisas que já deveriam estar sólidas”.

O mal desse caminho, disse, é que está-se sempre a cortar o que já foi feito e não se deixa consolidar nada.

Ampliação é uma preocupação antiga

NO edifício em que está instalado o museu antigamente funcionava a Casa de Goa. Quando o Estado tomou para a instalação do Museu Nacional de Arte havia no interior um espólio constituído por mobília e uma biblioteca.   

Os livros, conforme Alda Costa, foram integrados no Instituto de Investigação Sócio-Cultural (ARPAC). Cogita que nos anos 1960 a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) pode ter destruído vários registos que poderiam ser úteis para entender determinados fenómenos.

Neste contexto, nos anos 1980 houve apoio internacional. Foi nessa altura que se fez um projecto para guardar um espaço, caso houvesse a possibilidade de ampliar-se o edifício. A esquerda e a direita do museu eram terrenos do município “e agarrámos para futura expansão”, disse a historiadora.

Contou que na primeira metade da década 1990, a partir de uma cooperação com a Suécia, um arquitecto daquele país fez um projecto de expansão, mas não se concluiu por falta de financiamento para a sua edificação. Houve ainda uma maqueta do arquitecto José Forjaz, que também não teve verba.

Enquanto nada acontecia, a museóloga recorda que foram surgindo propostas para edificação de parques de estacionamento e de prédios no espaço.

Coincide que nessa altura o projecto Empresa, Iniciativa e Integração Jovem, que desde 1996 tinha apoio do Ministério da Juventude e Desportos e da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) precisava de espaço.

É nestas circunstâncias que o MOZART (Centro Juvenil de Artesanato) ganha o espaço onde está edificado até hoje.

“A expectativa era que sendo uma iniciativa para jovens criativos com possibilidade de crescimento e evolução ambas instituições se unissem através do jardim, por exemplo, mas parece que não fomos percebidos”, concluiu Alda Costa.

Solução é autonomia financeira

POR seu turno, o então Ministro da Cultura e Turismo, Silva Dunduro, disse estar em curso um trabalho visando dotar o Museu Nacional de Arte e outras instituições de autonomia financeira.

É neste contexto que, segundo ele, serão feitas as aquisições de obras de arte.

Quanto ao Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC), que conforme o Número 8 da Resolução do Conselho de Ministros 11/2010, que aprova a Política de Museus, deveria ser um dos financiadores do MUSART, Silva Dunduro anotou que esta instituição continua a assumir o seu papel de apoiar vários projectos e artistas nacionais.

“Pode ser que não esteja a comprar quadros para o museu, mas o trabalho que está a desenvolver é de louvar, apoiando vários projectos”, disse o ex-governante, referindo estar em curso um trabalho que consiste na transformação do FUNDAC em Fundo da Economia Criativa.

Silva Dunduro deu a conhecer ainda estar-se a reflectir sobre os centros de interpretação, museus e outros ligados ao património cultural e imaterial de modo a ver-se de que forma eles podem ter autonomia financeira para viabilizar os seus projectos.   

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