Quando o insólito e o fantástico se tornam matéria-prima

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No último semestre do ano passado a Cavalo do Mar trouxe à superfície “Os funerais de Mbengane”, uma colectânea de contos de Aldino Muianga.

Nas oito narrativas que a compõem permanecem intactas as veias do Realismo que percorrem o conjunto da obra deste escritor que já conta três décadas de carreira. Esta marca está presente em obras como “Contravenção”, “Cadernos de Memória (vol. I e II), na anterior a esta, “Asas Quebradas” (Cavalo do Mar), por exemplo.

Há na escrita deste médico (do corpo humano e das suas almas) um jogo de referências espaciais que colocam o leitor na encruzilhada de discernir o real da ficção e que, às vezes, chega a parecer uma reportagem. O trabalho no detalhe do objecto e a capacidade de construir imagens nítidas são outras das suas mais-valias.

Marcelo Panguana que é escritor, crítico, entre outras funções literárias, escreveu num ensaio intitulado “Contos Profanos” impresso na colectânea “Escrever a terra” (Alcance Editores) que Aldino Muianga é um dos maiores da nossa arena das letras.

O antigo coordenador da página de artes Xipala Pala, que animou o Jornal “Notícias” nos anos 90 do século passado prosseguiu esclarecendo que o facto de o trabalho árduo do autor da obra “Meledina ou a História de uma prostituta” não o ter tornado num ícone não lhe interessa, pois Muianga só quer saber de escrever.

Os contos que compõem este seu último lançamento desenrolam-se no meio rural (discordo do prefaciador que aponta o subúrbio). Se nos livros “Xitala Mati” e “O Domador de Burros” explorou o ponto intermédio entre a urbe e o campo, neste vai mais para o interior. Trata-se de um recuar para o universo cultural que define o mapa cognitivo das pessoas daqueles lugares. Os espaços geográficos descritos por Aldino Muianga atestam a anterior constatação. O conto que dá título a colectânea, “Os funerais de Mbengane” decorre na vila de Mduduza e em Muzine; “Os sobressaltos do Madala Mphongolo” tem como palco a região de Magolele. Acrescenta-se ainda o contexto das vivências relatadas que remetem ao campestre.

Cruzam-se, no livro deste autor que outrora assinou Khambira Khambirai, o insólito e o fantástico. Nisto dialoga com “Marcovaldo” do italiano Ítalo Calvino, “O céu não sabe dançar sozinho”, (Cavalo do Mar) do angolano Ondjaki e com a vasta obra do colombiano Gabriel Garcia Márquez.

Os efeitos do autor de “100 anos de solidão” manifestam-se ainda no recurso ao absurdo. Vejamos o conto “O homem do lago Xindgire”: A meio do culto da congregação dos Doze Apóstolos de Mbevane, à beira-lago-Xindgire, um desconhecido irrompe a multidão e, caminhando, despe-se. Entrega as suas vestes ao pastor Mileni que, como os crentes, está petrificado. Passados alguns dias na busca, em vão, quando a comunidade encontrou outra margem para orar, o estranho regressa das águas exigindo os seus pertences.

“Os sobressaltos do Madala Mphogolo” é outra prosa que segue o mesmo fio. Retrata um homem abandonado que decide morar com uma cobra e dar-lhe amor. Mphogolo revolta-se com a povoação que o condena por tal atitude. No fim, porém, sugere-se que quando o animal revelou a sua natureza, o velho fez-se à estrada, abandonando a sua casa para não acabar definhando com uma eventual mordida do animal. Ia a insultar. A dúvida que o escritor semeia no leitor é: os impropérios eram endereçados para a serpente ou para a mulher que o abandonara anos atrás. Ele atribuiu o nome da ex-mulher ao abominável animal: Leta. Uma certeza fica: os seus dois amores são a sua maior decepção.

Mas Aldino Muianga investe também num humor subtil e mordaz que em alguns contos como “Um bilhetinho”, veste os textos de uma certa ironia. Parece ter a intenção de despir a hipocrisia com a qual coabitamos, arrancar as máscaras que envergamos no baile de fantasias (o quotidiano).

“Naquela aldeia de Dingane, no regulado de Muzamane, a região mais densamente povoada da vila de Manjacaze, havia um certo burburinho de desconforto pela frequência de casos de adultério” (p. 41). Enquanto a maioria dos homens estava na Djone, as suas esposas sedentas de prazeres envolviam-se com os que ficavam na aldeia. Agastado, o pastor Tivane aborda o assunto no culto que parece atingir a todos pelo lufa-lufa que foi a reacção. E o escritor vai deixando nas entrelinhas suspeitas do envolvimento do mesmo em actos impróprios de adultério. O bilhete que dá título ao conto é de uma crente que alerta o pastor Tivane para o facto da braguilha das suas calças estar aberta enquanto orienta o sermão. No fim, aquele clichê esclarecedor: “faz o que digo e não o que faço”.

Trata-se de um conto que transporta para a denúncia que Eça de Queirós já tinha feito no “Crime de Padre Amaro”.

Como refere Lucilio Manjate no prefácio,  o épico marca esta colectânea na tentativa de explicar a origem do mundo. Também lá está o mítico, o folclore a alimentar os motivos (inspiração) destes contos.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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