ÁTOMO INICIAL: UMA CONVERSA COM OTILDO JUSTINO GUIDO

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Otildo Guido
Otildo Guido

Otildo Justino Guido é vencedor do Prémio Literário Fernando Leite Couto – Poesia, 2ªedição – 2019 com a obra “Ka madaukane e o silêncio da pele”. Tem 21 anos, é de Inhambane e estuda Contabilidade e Auditoria na Universidade São Tomás, em Xai-Xai.

Este concurso tem objetivo de descobrir novas vozes para literatura moçambicana.

A poesia faz isso: pinta a imaginação como cores.

Começamos como uma brincadeira e ainda hoje levamos a poesia como um brinquedo porque o brinquedo é um objecto de terapia e dá prazer. Somos crianças no jardim das palavras.

Hirondina Joshua: Um texto não seria uma experiência?

Otildo Guido: Tudo o que a gente faz constitui experiência. Um texto possui fatores vivos e variáveis que dependem muito da mão que produziu. Um texto é um olhar sobre o tempo e o espaço do poeta. Há que respeitar sempre essa ponte entre a palavra e a vida do poeta. O poeta produz o poema no laboratório do poema. Acrescenta 1/4 de metáfora, retira 1/2 de metáfora até que o produto poético, esteja consideravelmente pronto para mudar e/ou encantar o mundo.

HJ: O poeta é aquele humano que sabe que nunca será Deus. Criar nos põe próximo de alguma coisa?

OG: Não. Nos coloca na maior das hipóteses, longe de Deus. Por desfazermos a sua criação. Em virtude da nossa. Transformámos a natureza, o Homem. Poetas são filhos muito atrevidos. Apenas isso. Embora minúsculos à Ele. Nós somos improdutivos, irmã. Nossos seres são invisíveis. No mínimo são in-seres. Sem padrões materiais de existência. Uma coisa me diz que Deus está muito chateado com muitos poetas. Um dia te conto…  

HJ: “Mas qual o poeta que não tem,
Incestuosa,
       Uma relação com a língua
Qual a língua que não devora o poeta?”
Virgílio de Lemos (poeta moçambicano)

O poeta sem o seu poeta não fala assim. As pessoas na rua não falam assim. Já imaginou uma pessoa na rua a falar como nos livros? O que acha desse espaço distante e ao mesmo tempo perto.

OG: Não gosto de pensar na ideia de que a poesia é coisa normal. A vida deve ser bebida como gotas de sol nos prelúdios da madrugada. Simplesmente porque o sol nasce como Relógio Universal para todos. Uma coisa normal é ordinária: muitas vezes não é notada. A poesia deve ser extraordinária. Deve ser notada e deve ser vivida em silêncio, e na dimensão da solidão. Todos os recursos empregues na poesia, são para torná-la extraordinária. 

HJ: Escrever é como andar descalço num lugar de lama, de olhos vedados: a técnica das visões.
Como acontece o teu processo criativo.

OG: O meu processo de escrita é simplesmente uma tradução do que existe de mais verdadeiro e mentiroso na minha solidão. Curvar a palavra. Esticar os opérculos da língua. Deformar a lógica. Ferir a ferida. Dizer o indizível.

HJ: Os livros mais impressionantes são aqueles que deixam de nos ensinar. Elevam-nos. Quais são esses livros para ti.

OG: Última Ciência, Arte de Pássaros, Nova Iorque Num Poeta, O País de Mim, Idades Cidades Divindades, Sentimento do Mundo, A Teus Pés.

São vários os livros de poesia que me impressionam, irmã. Talvez porque eu tenha uma alma fácil de impressionar. Talvez! E devo dizer que todo livro no universo tem algo a me ensinar. Até aquele que não tem intenção de o fazer.

HJ: O poeta e o poema dialogam no sentido de natureza: como se fosse preciso uma mãe no meio para que ocorram os nascimentos.

OG: O trabalho do poeta se limita em ser poeta: esse ser desnatural que nasce quando o poema nasce. O poeta e o poema, podemos dizer, que são gémeos. Nascem em simultâneo: um nasce o outro, reciprocamente. Na urografia do tempo, o poeta é a eternidade e o poema é o infinito.

HJ: Como encara o Prémio.

OG: Encaro o Prémio como se eu tivesse engravidado uma mulher que amo. E no processo de engravida-la, amei-a profundamente, até me esquecer nela. E meses depois, ela me conta que está grávida. Eu admiro-a. Muitas emoções me vêm aos pés e algumas me fogem das mãos. Mas me lembro que a amo loucamente, tal como a chuva ama as feridas do mar. E ela é a maleável ferida do mar que, eu como a chuva, tombo com lentidão e teço-a com todo meu corpo, me entornando nela. E cuido-a. Para provar constantemente a mim mesmo e a ela, que mereço estar dentro do corpo que estou. E que o nosso filho terá o melhor pai do mundo… 

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