Uma Tentativa de Mergulhar no Mundo dos Personagens de a Saga d’Ouro de Aurélio Furdela

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Izidro Dimande
Izidro Dimande

Texto de Izidro Dimande

SAGA remete-nos a uma narrativa ou história de ficção com mais de uma parte ou repleta de incidentes. Numa saga encontramos bruxaria, feitiçaria, retaguarda, ou hábitos guerreiros ou simplesmente um género de insectos ortópteros saltadores. OURO, objecto ou moeda, riqueza considerada como um dos metais mais preciosos, tendo o seu valor sido empregue como padrão para muitas moedas ao longo da história, não surge em abundância como sugere o título do livro.

A ganância, a inveja, as traições, os prazeres e a luta pelo grande império, são algumas das acções em que se mergulha em SAGA D’OURO, de Aurélio Furdela. A intriga ou a inveja em cada personagem, constrói e destrói a vida no enredo, dominado pelo personagem principal – Gatsi Rucere – essa inveja sempre negativa, tristeza da pessoa alheia, que São Tomás de Aquino definiu como a tristeza que se tem em relação as coisas boas dos outros.

Aurélio Furdela, figura mais que habitual da AEMO, onde partilha, à mesa literária, assuntos ligados a causa da nossa literatura, com diversas gerações, assim apelidadas as diferentes aparições de literatos, celebrando conquistas e desaires na disputa pela afirmação na casa amarela. Furdela é apontado a nível da escrita como o grande sucessor de Ungulani Ba Ka Khosa, confesso que está parte da crítica me deixa rouco, não sei se ele concorda, mas, sei que ele deseja muito mais, como ainda lhe ouvi a dizer há dias ao poeta Lineu: “não nasci para bater palmas, a porta é pequena, mas quero entrar para a Grande História da Literatura Moçambicana”.

Licenciado em História pela Universidade Eduardo Mondlane, quase meu colega nos 4 anos que lá esteve, Furdela coloca um desafio aos próximos estudantes em História. Em SAGA D’OURO Gatsi Recere tem um fim triste, como qualquer rei que administra um território com métodos controversos, arbitrários. Gatsi Rucere aparece sempre ao longo da história dominando todo enredo, quanto a mim outra alegoria sobre os modos totalitários com que domina ou dominou o império. É a personagem principal que dá vida e destino as restantes personagens, contabilizadas em 30. Isso mesmo, e ignoradas as aludidas e de mera ocasião ao longo da narrativa. Isso é fantástico, facto que no livro de Furdela me deu o impulso de tentar interpretar, mergulhar para ver como ele manteve o controlo da vida numa obra a 30 personagens, sem perder, dando satisfação ao leitor do romance, isso valoriza por demais o escritor e a obra, que passo ao mundo das mais marcantes e diversificadas personagens.

Rumbidzai o grande feiticeiro ao serviço de Gatsi Rucere, mas que comete a loucura de contrariar o mambo, ao tentar transmitir conhecimentos profundos dos Muzimo ao seu Mambo. Gaspar Menzi, um velho português que servia de ajudante de Rumbidzai na arte de decifrar as mensagens do além. Este personagem, segundo Furdela, chega ao Mwenemutapa vindo da tropa e guiado pelos passos da loucura.

Gonçalo da Silveira, padre jesuíta apresentado nas peripécias como um fidalgo mimado que teve o desplante de vir ao Mwenemutapa para jogar na lama a honra da mais prendada donzela: “O jesuíta dormia a sesta quando a donzela Manyara, protegida de Negoma Mupunzagutu, se fez à casa disponibilizada e começou a tomar conta das lides domesticas […] Já ao raiar do sol, o padre acordou sobressaltado, ante a presença da rapariga na cama, onde julgava dormir apenas na companhia do Pai Celestial. Manyara era filha do general Nyandhoro quem devia tomar o trono, facto que não aspirava, porque apreciava o sabor de novas e mas conquistas, abrindo espaço para o ingénuo Negomo Mupunzagutu.

Chamo atenção na leitura do livro aos personagens, Kataura, o mutume, um mensageiro que teve a memória esquecida porque a mensagem que trazia ao Gatsi Rucere profanava o seu poder. E Dakarai uma das mulheres do mambo, cujos ínfices tiveram de embrenhar nas trevas e verter sangue de todos aqueles que, antes da entronização tiveram momentos de sexo com ela. Além desta, o mambo tinha no total três rainhas: Mazarira, Inhahanca e Nambuiza. Mazarira se encarregava de arbitrar as disputas de sucessão. Fungai, que na saga chegou a prosperar de igual método do Poto Poto, trocando ouro pelo vinho. Esses dois últimos sentem na pelo amargo sabor a inveja e intriga a si votados por Xerxes.

Xerxes, significa “governante sobre heróis” ou “o que domina sobre os heróis”, é possivelmente um nome grego de origem persa, que chegou ao reino atraído pelo ouro e se apaixonou pela Mudiwa, filha querida do Mambo, com quem contraiu matrimónio e se tornou confidente do Chivere, o Negomo Mupunzagutu, mambo antecessor de Gatsi Rucere. Xerxes, dado a inveja, intriga e fornicação é acusado por duas das mulheres do Gatsi Rucere, de as ter engravidado sem tocar um fio de cabelo, portanto sem coito. , Xerxes foi quem fez questão de se encarregar do julgamento do padre Gonçalo da Silveira, caindo aí espanto: “Como é que esse branco cego não sobe dos hábitos do rebanho, pretendia mostrar o caminho da salvação? Insha ´Allah.

Os personagens e objectos construídos por Furdela têm todos uma missão no enredo, deste personagens humanas a objectos de adorno como a imagem de Nossa Senhora da Graça, esse que serviu a Xerxes para acusar o padre de a usar como esposa, masturbando-se todas as noites diante dela, feitiço que se pretendia passar ao Mambo, tornando-o desinteressado por mulheres de verdade. – E assim o padre acaba condenado a morte.

Capa do livro Saga d’Ouro de Aurélio Furdela

Mas Fungai traiu Xerxes e este perdeu a confiança do Gatsi Rucere. Duas casas gémeas ardem juntas. Tichaona é substituto provisório do mambo, Nevinga, cujas acções surgem em um dos capítulos do romance, e voltámos mais tarde a encontrá-lo no fim da história, quando Bengo se embrenha na mata até a morte. O mensageiro Kutaura que muito sofre para dar respostas às mensagens vindas ao Gatsi Rucere, foi-lhe decepada a língua, acto macabro contestado pelo Grande feiticeiro.

Mudyiwe Nhaka, o herdeiro do trono que foi baptizado na doutrina cristã e a responder pelo nome de D. Filipe serviu de espião para localizar as minas, terras ricas em prata que os portugueses desejavam. E Matuzianhe, eterno contestatário, que recusa oferecer preces ao Mambo, forçado a recorrer ao dhôro-re-simba, poção mágica, diz-se servir para dar força, mas tornando um morto vivo a quem a consome. António Caiado interprete no julgamento do padre Gonçalo da Silveira, que o advertiu: de tão traiçoeiro, se alguma vez estiveres diante de um mouro e de uma serpente, mata primeiro o mouro.

Francisco Barreto que chega ao Mwenemutapa com desejo de vingança do Gonçalo da Silveira, e controlar as fontes de produção de ouro, comandava 650 soldados europeus repartidos em chefias por António de Melo, Tomé de Sousa, Jerónimo de Aguiares, Jerónimo Andrade e Vasco Fernandes Homem, o único no grupo que podia gabar-se de conhecer as manigâncias da planalto africano, asseverou que se a tropa continuasse em tal escárnio morreria toda, prova tiveram quando o Soldado Gaspar chegou a um estado tresloucado de ver crianças no meio de tanta morte ´´ Que bebés está este labrego a ver? Decidiste enlouquecer-me soldado?“

Ao longo do texto constrói-se uma bela história sobre áfrica e um só personagem é que teve a sorte de se prolongar até os dias de hoje, Bengo, que hoje é parte do monte em Manica, Cabeça do Velho.  Bengo ao ser indicado para ir buscar as raízes secretas do dhorô-re-simba. Tive o fim que lhe concedeu essa sorte. Bengo conhecia os segredos da arte do pai – o grande feiticeiro Rumbidzai. E morria de amores da Manyara, que só os Swikiros sabiam da razão da eterna mocidade: o espírito de Mutota, ao aperceber-se da rejeição de Manyara pelos homens, viu nela a oportunidade de ter uma linda mulher apenas para si, induzindo-a a sonhos eróticos, ao sexo a cada noite. Enquanto Mudzingaze disputava da vontade do mesmo prazer com  Bengo sobre a Manyara que só em combate se resolveria. Acto que Manyara suplicou e procurou evitar: “Não és feiticeiro para participar em lutas de feiticeiros, Mudzingaze”. Pois isso era de tempo das Sanga-Sanga, luta entre feiticeiros deuses entre macumbeiras de ambos os lados em defesa de terras aráveis, pastagens, minas de ouro, ferro, cobre ou estanho. Este acto de disputa entre Bengo e Mudzingaze teve início entre Tichaona e Rumbidzai, pai destes, disputaram a bela Madzi, mãe de Mudzingaze. Esta estória chegou aos ouvidos de Manyara através do Folofanye, caçador, que fazia questão de ouvir sempre coisas a mais no Mwenemutapa. Aquando da morte de Chivere Nyasoro, Folofanye foi quem deu a notícia ao Tichaona. Avisando que Madzi, mãe de Mudzingaze ia fugir para as terras de Manyika. E Ramalho soldado mensageiro que tentou convencer Bengo da veracidade da história do nascimento de Jesus Cristo. A história dos cabritos que desfilam o monte são criar que Manyara teve com Mudzingaze.

O cozinheiro Nyungwe Kuzunga que preparou khongwe, pitéu de tripas de cabrito servido a Mazarira que outro destino não teve senão, acordar com a barriga do tamanho de 9 meses, um feitiço que Gatsi Rucere e Ningomaxa tentaram explicar na manhã do grito desta rainha. Rumbidzai e Fungai têm um final triste, são deportados para a escravatura do Brasil, Gaspar Menzi procurou dar curso à sua carreira de feiticeiro em terra firma, depois da deportação de Rumbidzai.

Gatsi Rucere condoeu-se por ter acedido às condições impostas pelo capitão da Massapa, ter entregado seu filho e depois o mandarem estudar para Goa, seguido pelo cúmulo da ambição, exigir ao mambo a cedência a Portugal de toda as minas de Mwenemutapa, acto que aconteceu.

Foram estes personagens que encontrei e com quem convivi ao longo da apaixonante leitura de a SAGA D’OURO, com destacado prazer a Rumbidzai que dera vida a história de ouro e do fim do reinado de Gatsi Rucere, que determinou o seu desterro para terras longínquas, sem regresso. Mas aborrecidas as mulheres de Rumbidzai desferiram um fulminante ataque de sexo ao Mambo Gatsi Rucere, que até tentou possuir uma das damas de Rumbidzai, mas vexado do modo inusitado, acaba por fugir em busca de refúgio para as terras de Chicoa. Depois da minha releitura de a SAGA D´OURO, quero acreditar numa outra possibilidade, e desafiar Furdela a continuidade deste género, investigando outros reinos africanos, trazer as vicissitudes e lutas travadas na mineração de outros ouros.

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Para além de colaborar com o ICEF Jornal Feminino, é co-fundador e sócio da Soarte Media Lda, empresa ligada ao mercado de comunicação e produção de eventos. É fundador e 1º secretário
(2013-2015) do Movimento Literário Kuphaluxa, Associação focada na produção e publicação de obras literárias da cidade de Maputo e Matola. É membro da Associação Moçambicana de Escritores desde
2005. Trabalhou como jornalista no jornal comunitário Tsakane, pertencente a Conferência Episcopal Italiana de 2003 a 2005. Publica artigos na página do leitor do jornal Notícias e o País. Actualmente colabora no programa televisivo Moçambique no Coração. Formado em professorado no centro de formação de professores primários da Namaacha. E estudante na Universidade Eduardo Mondlane, curso de Administração Pública.

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