PAULINA CHIZIANE: “Estou a expandir-me”

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A CONCEITUADA escritora moçambicana Paulina Chiziane lança, amanhã, o seu primeiro álbum intitulado “Canto de Esperança”, que produziu em conjunto com jovens músicos amigos da neta.

Participaram desta produção Eduardo Salmo, Grande Homem, Chrill Malate, Azagaia, Fermina da Neta e Helena Promisse.

Num espectáculo a ter lugar no Auditório da Rádio Moçambique, em Maputo, a primeira romancista moçambicana terá como convidados os irmãos Willy e Aníbal, bem como a banda M’Laio.

O disco é composto por músicas cujas letras foram escritas no livro “Canto dos Escravos”, de 2017. “Quando eu lancei aquele livro disse que não era poesia, mas música”, contou Paulina Chiziane, em conversa na Associação dos Escritores Moçambicanos, em Maputo.

Ladeada pela rapaziada que trabalhou para o disco, contou que depois de ter lançado aquele livro passou um tempo a criar melodias para alguns textos que sacou daquela compilação.

Com o passar do tempo, o material foi repousando na sua gaveta de planos por alcançar, quando fosse possível.

Casualmente, descreve, no dia 05 de Janeiro do ano passado, a “malta” da neta que tinha surgido numa escola de música passou para cumprimentá-la na sua casa.

Acomodados, recorda, por baixo de uma das suas mangueiras, Paulina Chiziane foi buscar os textos que foi pedindo que os jovens cantassem, até porque estavam, alguns, com guitarras em punho.

“Fui observando e notei o talento de cada um deles”, disse, a contar que foi dessa tarde que “Canto de Esperança” começou a materializar-se, ainda que sem título. Dali para frente, a ideia que começou de forma espontânea foi-se escrevendo com encontros de ensaios até chegar aos estúdios.

Com o riso de realização estampado no semblante, a repousar o seu copo de cerveja e a sacudir a cinza do cigarro, revelou que a gravação dos onze temas e uma intro foi um desafio para ela.

“Tive de subir andares e andar em becos, levado por esta rapaziada para os estúdios onde habitualmente grava”, contou a escritora, a detalhar que deixou que os jovens tomassem conta das circunstâncias. Ela apenas foi seguindo.

A música sempre esteve na sua escrita

CHIZIANE conta que desde que começou a escrever, a música é uma presença incontornável. Recorda que no princípio para escrever tinha de ouvir uma, “aquilo levantava a minha inspiração”.

Quando fomos revisitar a prateleira da sua produção literária, encontrámos títulos como “O canto alegre da perdiz”, “Balada de amor ao vento”, que remetem à musicalidade, bem como à dança em “Niketche: Uma História de Poligamia”. De certa forma, observamos que a música sempre lá esteve.  

Paulina Chiziane esclarece: “as fronteiras das disciplinas artísticas foram criadas pelos Homens”. E explicou que uma boa música precisa de uma letra de salutar. O mesmo ocorre, frisa, com a literatura, seja prosa ou poesia, sem musicalidade não chega a ser arte.

“Há quem pense que estou a transgredir ao migrar”, afirmou, “mas eu estou a descobrir-me nesse movimento que é o crescimento”, acrescentou. Destacou que “nunca fui uma mulher de um só passo, gosto de experimentar”.

A escritora ou cantora, dependendo das circunstâncias, assume-se como uma criança que quer provar tudo o que pode.

“Queria desafiar alguns dogmas e quadrados que nos colocamos socialmente”, prosseguiu, afirmando que é o que a ocasião permite, “se um dia a poesia vier, serei poeta, se vier a dança serei bailarina, porque a vida é dinâmica e eu serei estática porquê?”

Estagnar-se, continuou, é o seu medo. Entende que na vida se está constantemente a emigrar, desde o pensamento, os lugares de existência, a maneira de ser, a idade e afins. “Então, por que me querem presa, eu não sou estátua – talvez serei, um dia – mas enquanto viver, deixa-me passear”, libertou.

No meio da conversa, para tornar mais claro que explicava parou a explicação, dizendo “paras o gravador, deixa mostrar-te a música”. Foi nesse momento que esclareceu que a sua reivindicação de retorno aos valores africanos está presente na compilação.

“Vamos sentir isso de forma muito contundente, uma das músicas chama-se o “O canto dos escravos”, que dá o título a este disco, que é uma música muito forte”, disse Paulina Chiziane.

Apontou ainda, depois de, no seu smartphone, ter-nos reproduzido “Olha para ti África”, poema declamado por Eduardo Salmo. “O disco oferece esta viagem de um passado de dor para um futuro de esperança”, sublinhou.

Envolvida em gargalhadas, a escritora mostrou o tema que interpreta a conversar com os pássaros. E pergunta, “achas que eu ia deixar o microfone”. Conta que a música nasceu enquanto se gravava o álbum. Um rapaz, de quatro anos, entrou no estúdio a falar de pássaros e assim ficou.

A escritora conta que a parte gráfica, instrumental, arranjos foi trabalhada pelos jovens convidados. Pelo que, considera que fez dez por cento, sendo que coube aos outros o resto.

“Foi tudo a brincar, um trabalho sem dor”, afirmou Paulina Chiziane, referindo o facto de ter sido tudo espontâneo.

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