Conto de Remisson Aniceto

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Remisson Aniceto
Remisson Aniceto

Texto de Remisson Aniceto

A CASA

Era ali a velha casa, sim, tenho certeza que era ali naquele cantinho do vale… talvez um pouco mais para a direita… quem sabe uns dez metros para a esquerda…
Mas era ali, tenho certeza, apesar dos tantos anos passados… apesar da memória que por vezes se cobre de uma leve névoa, ainda tenho na lembrança as frágeis paredes daquela casa estruturada no suor do homem, uma casa erguida como ergue a sua morada o metódico joão-de-barro. No lugar das ferragens os bambus, os finos troncos de árvores, os cipós trançados; substituindo os tijolos as placas de barro; na cobertura o denso capim em grossas trouxas prensadas, justapostas em centenas de camadas.

Sim, sentado daqui do alto, pela primeira vez após dezenas de anos, vejo a casa… vejo-a na sua rica totalidade, com a única porta e duas janelas quase sempre escancaradas à espera dos andarilhos que muito raramente traziam mais vida para seu interior. No cair da noite, a mulher, exausta da faina diária, debruçava-se na janela ou sentava-se no galho gigante e seco do quintal, antevendo de olhos fechados o dia seguinte, enquanto os últimos raios do sol se deitavam por trás do monte.

Sim, não há dúvida que naquele canto era a casa, imponente porque única, com o quintal coalhado de pirralhos entre galinhas e pequenos leitões, em disparada atrás do coco seco que servia de bola para os pezinhos já calejados. Depois eles corriam chafurdando no barro que a bica d’água transparente formava na terra.
Num janeiro, mês em que todas as chuvas marcavam encontro ali naquele vale, também daqui deste mesmo lugar, vi a casa sendo coberta pelas turvas águas da imensa e passageira lagoa. Depois mais nada vi.

Vejo um homem sair de trás das árvores e caminhar em círculos onde era a casa, com um graveto a demarcar com riscos no chão os quatro cômodos. Em seguida ele arrasta sem dificuldade sete enormes troncos retos, do mesmo comprimento e grossura, dispondo-os como base, sem descansar um só momento.
Não sei por quanto tempo, por quantas horas, talvez sete dias e sete noites, não sei, quedo-me ali, sentado, a observar atentamente os incansáveis e seguros movimentos do homem na lida que segue. Ele ajeita o chapéu, pega do facão e do serrote e sobe o morro do outro lado, até perder-se da minha vista… foi embora???…
Espero. Espero. Espero.

Após duas horas ele retorna, desce o morro lentamente, como quem tem todo o tempo do mundo à sua mercê, uma dezena de pequenas árvores depenadas nos fortes ombros matutos, joga-as no quadrilátero dos troncos e refaz o mesmo percurso por dezenas de vezes, até obter um amontoado de árvores, bambus e grossos cipós verdes. Com curiosa atenção vejo-o passar dias e noites a enfileirar buracos e mais buracos nos troncos do solo, fincar os troncos mais finos em todos os buracos, rachar os bambus e amarrá-los com os cipós aos troncos verticais, cuidadosamente, pacientemente, como uma incansável máquina, com o cuidado de deixar espaços para uma porta e duas janelas.

Contaminado da paciência daquele homem, dias e noites vejo-me ali, sentado, enquanto a casa é erguida sobre os grossos troncos, como uma gaiola ou uma nave preparada para uma possível gravidade. Os bambus vão sendo trançados, um a um levemente acima do outro, nos dois sentidos, formando pequenos quadrados exatamente iguais. Em seguida, o homem vem em minha direção. Levo um susto: o que fazer se ele me vê aqui, intruso a testemunhar o seu trabalho?

Pintura de João Timane

Então ele para a meio caminho, na beira do riacho. Entra com seus enormes pés descalços e começa a recolher o barro das margens, levando latas e latas cheias até a casa em construção. Recolhe parte de uma seca terra vermelha e mistura ao barro do rio, até formar-se uma massa consistente. Aos poucos, pelos lados de fora das paredes, vai depositando com fortes movimentos o barro nos quadrados dos bambus, passa para o lado interno e ajeita tudo. Devagar ele vai repetindo os gestos, mecanicamente, até fechar toda a casa com aquele barro.

Creio que estou há cinco dias sem dormir, sem sono, observando.
A manhã seguinte traz uma fina chuva, que seguirá pelo dia inteiro e a noite toda, enquanto o homem cobre a casa com as camadas de sapé colhido nos dias anteriores.

Na manhã do sétimo dia o homem fica parado diante da casa, depois vira-se e sobe debaixo da chuva que se intensifica o mesmo morro por onde trouxera tudo o que foi usado para erguer a casa. Imagino que, depois de construí-la, depois de cumprida a missão ele voltava para seu lar. Mas para quem aquela construção? E para que tanto trabalho?
Tomo coragem e desço o morro, me aproximo da casa e sou tomado repentinamente por uma estranha emoção.

É esta a mesma casa, aquele homem não a fez, ela estava o tempo todo ali. Entro e sou invadido pelos mesmos cheiros da casa velha, por todos os aromas da antiga casa. Passo pela sala, entro pela cozinha, saio num quarto e chego ao outro quarto. Tudo igual, os aposentos são os mesmos, a casa nunca saiu dali.

Fora, ouço o ruído de passos, uma profusão de passos. Pela janela vejo o homem descer o morro, seguido por galinhas, porcos, cães, gatos e outros tantos animais grandes, médios e pequenos. Não há tempo de sair da casa, de me esconder e fico colado à parede, enquanto entra o homem, enquanto entram as galinhas, os porcos, os cães, os gatos, burros, lobos, pacas, onças e uma infinidade de outras espécies de animais. E a casa parece agigantar-se. Quanto mais animais entram mais ela tem espaço para abrigá-los. Eles vão se encostando, deitando, ajeitando-se naquela casa. E o homem com eles. Animal estranho de encontro à parede, ninguém dá por mim, nem o homem, nem os outros bichos.

Até que a chuva aumenta, aumenta, aumenta, a água sobe, sobe, sobe e com ela sobe a casa totalmente habitada, ondulando vale abaixo, indo por um canto, pelo meio, pelo outro canto, como uma desgovernada arca.

E as águas continuam subindo, elevando-se incessantemente, e no turbilhão a casa com os animais se eleva, se eleva, se eleva indefinidamente.

***

Remisson Aniceto é um poeta, contista e cronista brasileiro, nascido em 1962 em Nova Era (MG).Com trabalhos inseridos em diversas coletâneas, é ainda autor de Leva-me Contigo, a Senhora S & Outras Histórias (Editora Penalux, 2016), Para uma Nova Era, Poesia & Prosa (Editora Patuá, 2019), O Indiozinho que se Apagava (Editora Coralina, 2019, a sair), entre outros. Colunista do Jornal português BOM DIA  e do Jornal Fato e Ato, de Nova Era (MG),
seus textos, muitos traduzidos principalmente para o espanhol, são divulgados emrevistas de literatura e educação, programas de rádios, livros didáticos e trabalhos acadêmicos.Alguns endereços para seus textos: Literatura e Fechadura, Letra e Fel, Bússola Literária,Contemporartes, Palavra Comum, Letra Libre, Almiar (Margen Cero), UNAM- Periódico de Poesía, Diversos e Afins, TriploV, Amsterdam Sur.

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