As dores do “Idai” no Nkulungwana

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QUANDO a fotografia tentava firmar-se como uma disciplina artística, Charles Baudelaire (1821-1867) não reconhecia esse capturar do real ao serviço da estética.

O surrealismo, por sua vez, apropriou-se dela e por aí, noutra perspectiva, a Pop Art. Claude Monet (1840-1926) inovou, com a série de pinturas da catedral de Rouen, feita entre 1892 e 1893, em vários horários e ângulos distintos, com a pena do pincel foi fiel à realidade, para mostrar a diferença de luminosidade, durante o dia e seus impactos em termos de sensações e impressões.

Eram diferentes formas da luz. Luz essa, que os fotógrafos Amilton Neves, Emídio Jozine e Micas Mondlane mostram que o “Idai”, dilúvio de proporções bíblicas, arrancou, bruscamente, das suas vítimas. E a pergunta permanece: a fotografia é uma arte?

A mostra está patente na Galeria da Associação Kulungwana, na Estação Central dos Caminhos de Ferro, em Maputo, teve a curadoria de João Costa (Funcho).

O discurso proposto, se iniciada a leitura a partir de Emídio Jozine, introduz para o caos permanente através de uma vista aéreas que ilustra a dimensão da catástrofe. Ruínas de um prédio, aparentemente, abandonado, vêm à superfície em meio à água, que a tudo à sua volta, engoliu.

Outra fotografia: pessoas penduradas em frágeis tectos das suas casas de construção precária. Os vizinhos replicam o gesto. É a vida por um sopro, é aquele fio escuro, a incerteza, o afogar de sonhos.

Emídio Jozine levou, para a galeria, uma colecção informativa, uma fotografia observativa que busca captar a realidade tal qual se oferece.

A dimensão humana encontra-se mais, facilmente, nos rostos capturados por Amilton Neves. O olhar de quem, literalmente, deita o corpo cansado no chão, que fora o seu quarto, aberto ao mundo. Os colchões molhados secam, na sombra, que um dia protegeu o corredor.

Rostos, que carregam histórias, que, naturalmente, escaparam às crónicas dos meios de comunicação, as narrativas que não cabem nos registos dos relatórios e dados estatísticos. Alguns exageros na edição das fotos, não lhe tiram a poética e o carácter reflexivo.

Documental, é como se pode tentar descrever os registos de Micas Mondlane. Trata-se de um trabalho de pouco mérito. As fotografias apenas ilustram pessoas, ruínas, mas sem proposta alguma, sem provocação.

A partir dos três olhares, perspectivas diferentes, Calane da Silva escreveu uma ode à imagem. “Eu sou imagem, que me retrato (…) sem medo de espantar”, lê-se. “Olhem-me com olhos bem de ver”, convida, a revelar, que podia ser beleza ou aterrorizador a ponto de “encher as vossas íris de lágrimas salgadas”.

O sujeito poético, orientando a pena do poeta assumiu não ignorar, que aquela situação seja a natureza a revoltar-se contra as nossas acções humanas, de pontapeá-la, a despeito das nossas vontades.

“Não discordo dessas afirmações, porém, quero, simplesmente, informar que, em solidariedade para com todos, permiti que três amigos moçambicanos capturadores me utilizassem (…) para que toda a dimensão da hecatombe impregnasse em vossas retinas”.

O ciclone Idai foi o ciclone tropical mais forte a atingir Moçambique desde Jokwe em 2008, causando a morte de pelo menos 700 pessoas e a destruição de infra-estruturas nacionais vitais como casas, estradas, fábricas e pontes.

Considerado um dos maiores desastres naturais do Hemisfério Sul dos últimos 50 anos, o “Idai” teve origem numa depressão tropical que se formou na costa Leste de Moçambique a 4 de Março. A depressão atingiu o país no final do dia e permaneceu como um ciclone tropical durante toda a sua caminhada por terra. No dia 9 de Março, a depressão ressurgiu no Canal de Moçambique e foi actualizada para a Tempestade Tropical Moderada Idai, no dia seguinte.

Com ventos acima de 200km/hora, o ciclone Idai teve como epicentro a cidade da Beira, em Sofala, província onde “sacudiu” ainda os distritos do Búzi, Nhamatanda e Dondo. Mas também afectou quase toda a zona Centro do país, Norte da província de Inhambane e parte do Niassa.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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