Exposição imortaliza antigas salas de cinema

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Muitas salas de cinema da cidade de Maputo, e um pouco por todo o país, foram transformadas em armazéns, templos religiosos e/ou simplesmente abandonadas. Com o objectivo de contar a história destes edifícios e propor aos visitantes repensarem a importância patrimonial destes espaços arquitectónicos e sociais está patente, no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM), até o final do mês, a exposição “Antigas Salas de Cinema de Maputo”.

Organizada pela Associação Amigos do Museu do Cinema, a mostra é resultado de um trabalho de pesquisa e documentação, desenvolvido em colaboração com o Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC), ex-Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC) e a Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane (FAPF-UEM).

Na galeria do CCFM é possível contemplar registos videográficos, desenhos, maquetas e a reconstituição das plantas das antigas salas, usando software de desenho tridimensional. Além das imagens estáticas, os visitantes podem ver e ouvir duas dezenas de entrevistas com antigos trabalhadores do Instituto Nacional de Cinema, afectos às salas de cinema da capital e a algumas áreas de produção.

Falando em representação da Associação Amigos do Museu de Cinema (AAMCM), Diana Manhiça explica que a mostra traz ainda alguns documentos originais, dos acervos da Biblioteca Nacional e do próprio INICC, e cadeiras originais de algumas salas de cinema.

“Na exposição fizemos a identificação geográfica da distribuição desses edifícios, actualmente fechados, destruídos, readaptados a outras funções, ou ainda, em morosos e adiados processos de reabilitação física”, acrescenta, apontando que a “exposição instiga à partilha de responsabilidades e perspectivas sobre estes espaços, que representam uma época tecnológica e socialmente distinta, em risco de desaparecimento”.

O director da FAPF-UEM, João Tique, afirma que a exposição participa na preservação de parte da história do país, e disse estar satisfeito pelo trabalho executado pelos estudantes da faculdade que dirige. “Eles participaram no resgate de parte da memória da cidade de Maputo. Graças a eles, saberemos mais da história das salas de cinema da capital do país”.

O arquitecto e docente da FAPF-UEM, Luís Lage ajudou os estudantes na recolha bibliográfica sobre os cinemas da cidade. Referiu que os seus discentes “entregaram-se de corpo e alma para a materialização da exposição”.

“Foram cerca de três meses de trabalho árduo. Envolvemos estudantes do primeiro e segundo ano. Eles fizeram maquetas, redesenharam plantas e fachadas dos edifícios. A mostra reflecte apenas uma parte do material recolhido” disse, acrescentando que as salas de cinema devem ser preservadas, pois ajudam a narrar a história arquitectónica da “cidade das acácias”.

O estudante de arquitectura Aurio Cristêncio apontou que estar nas salas do cinema foi uma experiência única, na qual adquiriu conhecimentos sobre a sétima arte. “Com o trabalho pude saber mais sobre a evolução da cidade de Maputo, em termos arquitectónicos”, disse.

O que é feito das salas?

Um mês depois da conquista da independência nacional, o Governo iniciou a 24 de Julho, o processo de nacionalização dos imóveis de habitação, comércio e serviços, sob a decisão do Presidente Samora Moisés Machel. Mais tarde, com a abertura do país ao mercado a maior parte dos edifícios foram cedidos para alienação e compra. Foi nesse contexto que algumas salas de cinema começaram a desviar-se da finalidade para a qual tinham sido concebidas. Por exemplo, a sala de cinema São Miguel foi transformada para dar lugar à Assembleia Popular (hoje Assembleia da República).

Localizado na Avenida 24 de Julho, o Cine Teatro África virou, primeiro, “Casa de Deus”, sob exploração da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e posteriormente, o Governo entendeu dar um outro destino à infra-estrutura, cedendo-a à Companhia Nacional de Canto e Dança (CNCD).

O Cinema dos Continuadores, contíguo ao Instituto Nacional de Audiovisual e Cinema (INAC), foi adquirido pela Universidade Eduardo Mondlane, que ali instalou o seu Centro Cultural.

Na Baixa de Maputo encontra-se um dos mais antigos cinemas de Maputo: O Cine Gil Vicente, localizado na Avenida Samora Machel. Nos últimos anos esteve sob gestão da empresa portuguesa Lusomundo, mas porque o negócio já não se mostrava rentável, a sala foi cedida ao Município de Maputo.

Ainda ao longo da “Samora Machel”, e no cruzamento da Avenida 25 de Setembro, está o Cinema Scala, ainda em funcionamento, sob a gestão de uma entidade privada, a Promarte.

Na Baixa, mesmo defronte do Arquivo Histórico da Universidade Eduardo Mondlane, existiam dois cinemas, nomeadamente o Estúdio 222 e Cinema Matchedje. O primeiro foi transformado em discoteca-bar e o segundo virou Cine Teatro Gilberto Mendes. No espaço onde estão estes duas antigas salas de cinemas funcionava o Cine Varietá, que esteve aberto até 1967.

Nem todas as salas tiveram a mesma sorte. Por exemplo, o cinemas Olímpia, junto ao badalado Mercado Xipamanine, é abrigos de marginais. O cinema Império, no bairro do Aeroporto, na Avenida de Angola, virou armazém. Na Avenida do Trabalho, o cinema Tivoli fechou, tornando-se num edifício completamente abandonado. O cine Charlot, localizada no bairro do Alto Maé, na Avenida Eduardo Mondlane, desde o incêndio que deflagrou no edifício, em 2013, não mais rodou película alguma naquele espaço. E o cinema “Xenón”, foi demolido e em seu lugar construído novo prédio, como tantos outros que diariamente surgem nos centros urbanos.

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