…mas Gabriel Chiau deixou a voz, o trompete e a música

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A morte de Gabriel Chiau, na tarde de quarta-feira, deixa um grande vazio à música moçambicana, que perdeu um dos seus mais inovadores protagonistas da sua fase embrionária.

É este o sentimento partilhado por alguns intervenientes do sector das artes com quem conversamos. O músico, compositor, vocalista e trompetista não resistiu a uma crise de diabetes, que há poucas semanas o tinha jogado ao leito hospitalar.

“A morte de Chiau deixa um enorme vazio na catedral das artes e cultura de Moçambique”, afirma o Ministério da Cultura e Turismo no comunicado de imprensa enviado à nossa redacção.

O músico, que pereceu no Hospital Central de Maputo, conforme lê-se no documento, desenvolveu a sua veia artística tocando e cantando com várias bandas e conjuntos, nos quais foi aperfeiçoando a sua versatilidade.

Por reconhecimento aos seus feitos e grande contribuição dada ao desenvolvimento da cultura moçambicana, o Governo de Moçambique condecorou Gabriel Chiau, em 2014, com o galardão Medalha de Artes e Letras.

 O jornalista cultural Alexandre Chaúque, por sua vez, disse que o país perdeu um artista, cuja simplicidade era incapaz de esconder a grandeza de uma alma, que viveu para criar uma fusão rítmica, que define a sua singularidade.

“Acompanhei a notícia da sua morte, com tristeza, numa nota de rodapé da televisão e o primeiro pensamento que me tomou foi de que para morrer basta estar-se vivo apenas”, disse o jornalista.

Alexandre Chaúque conta que já havia o temor que tal ocorresse, pois há algum tempo circulavam relatos da debilidade do seu estado de saúde.

“Lamentável”, é como define o radialista e apresentador de programas culturais na Televisão de Moçambique e RTP, David Bamo, a morte de Gabriel Chiau. E acrescenta: “estamos a falar de um artista que se reinventou na sua época”.

Num contexto adverso, prossegue, em que faltava tudo, o músico, com o apoio do pai, que entendia o papel da arte, soube inovar como poucos através do canto, do trompete e composições.

“Gabriel Chiau criou canções genuínas, que atravessam o seu tempo e continuam belas, actuais, passíveis de interpretações mais actuais”, afirmou David Bamo. Recordou, neste raciocínio, que o músico, em 2010, queixou-se de se estar a plagiar o seu trabalho sem a devida autorização.

Na semana passada, Gabriel Chiau, um dos filhos mais dignos do bairro de Chamanculo, na cidade de Maputo, mereceu uma homenagem da Universidade Pedagógica de Maputo. 

Na ocasião, o Reitor, Jorge Ferrão, afirmou que a arte deste músico “sensibiliza, porque nos identificamos com ela”. Arrolando os méritos do homenageado, referiu que a capacidade de tocar os moçambicanos que desenvolveu pode ser explicada no facto de ele produzir sob a matriz cultural, musical e social, experimentada nas vivências corriqueiras da nação.

O reitor da Universidade Maputo prosseguiu apontando que “na dimensão local Gabriel Chiau acrescentou outros conhecimentos e sensibilidades musicais e técnicas” de outros lugares do mundo.

O escritor Marcelo Panguana, por sua vez, usou “emprestadas” as palavras de Alexandre Chaúque, dizendo: “só os iluminados é que vão perceber a grandeza de Gabriel Chiau e um músico da sua dimensão não pode ser medido pelo número dos discos, que gravou, mas pela perfuração do seu trabalho”.

Este escritor e crítico literário, que foi homenageado pela Universidade Pedagógica de Maputo, depois de o descrever como uma pessoa simples, peregrinou entre as palavras para definir o músico como um herói nacional.

“Gabriel Chiau é um herói nacional, mesmo sem ter tido a necessidade de protagonizar militâncias revolucionárias. É um herói, porque em cada esquina deste imenso e belo país as suas canções são entoadas por gente do seu povo”, acrescentou.

O memorial do autor de “Wena unga Yali” e “Nkata uya kwini”, referiu Marcelo Panguane, não está em estátuas de bronze, nem em nomes de ruas, mas na memória colectiva.

Gabriel Chiau nasceu a 15 de Outubro de 1939, no bairro de Chamanculo, em Lourenço Marques, hoje cidade de Maputo, e notabilizou-se logo no período da infância pela inclinação à arte, particularmente, na área musical, através da sua participação no grupo coral da escola Primária de Chamanculo, tendo passado a integrar o Grupo Coral da Igreja da Missão Suíça.

 Gabriel Chiau desenvolveu a sua veia artística, tocando e cantando com várias bandas e conjuntos, aperfeiçoando-se em instrumentos de sopro, na guitarra e na música vocal, tendo registado as suas primeiras composições em disco.

 Fundou e dirigiu o Grupo Kwekweti, actuou no Grupo Djambo e dirigiu, igualmente, o Grupo Chiau.

 A sua versatilidade artística permitiu-o participar na fundação do Grupo Cénico dos Caminhos de Ferro, onde foi funcionário, tendo ocupado o cargo de director adjunto do grupo, foi, igualmente, actor no filme “Deixe-me ao menos subir as Palmeiras” do realizador Joaquim Lopes Barbosa

Entre os seus êxitos, apontam-se “Wene Unga Yale”, “Mobilidade”, “Huma Kmpflilu-Mpilu”, “A wu ni tenderi” e ”Nkata Uya Kwini”, que o tornaram célebre nas décadas de 60 a 80.

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