Kloro vs Allan: e o vencedor é…?

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Quando ouvi que haveria uma batalha, aliás, grande batalha, entre os rappers Kloro e Allan, imediatamente, o meu sexto sentido reagiu: isto não vai dar certo. Como se tivesse vaticinado realmente não deu. Houve uma série de contratempos e o espectáculo nunca chegou a acontecer, ao meu ver, pela felicidade e bem-estar dos dois.

Mas, passado algum tempo, eu a pensar que o “absurdo” tinha sido enterrado, eis que o meu whatsapp anuncia-me a má nova: a dita grande batalha tinha se juntado às agitações do Zé Pires no Beergarden. Decidi, a posterior, olhar para aquela provocação com bons olhos. Se eles – Kloro e Allan – estavam confortados com aquele conceito quem seria o meu sexto sentido para duvidar.

Para falar a verdade não sei o que me deixava indeciso, ou com comichões, ou passado. Minto: sei sim. No universo de batalhas aqui no país (e no mundo), são os doptados de “spoken words” que se atrevem a tais incursões, àqueles que conseguem improvisar, rapidamente, envolvendo cenários à volta e provocando risos à plateia. O segundo motivo do meu alarme é que tanto Kloro como Allan têm seguidores e caso alguém “perdesse” caía numa vergonhosa carreira dali em diante, um pouco o que houve com Nikotina. Também, assume-se como terceiro senão a minha desprovida hipótese daquilo acontecer, ou seja, um problema meramente meu.

Por isso disse para mim mesmo: não vou perder isto, seja o que for. E tive o cuidado de gravar a data: 27 de Julho.

Cheguei ao Beergarden numa hora que acreditasse se ter atrasado tudo, mas – contra as minhas contas – ainda faltavam mais atrasos; o suficiente para acabar um maço de cigarros ou uma caixa de cerveja. Enfim…

Quando as portas abriram e já dava para deslumbrar o palco, o cepticismo que me possuía – movido por que febres – correu para fora daquele rectângulo. Vi duas baterias, ou melhor, dois grupos de instrumentos arrumados separadamente. Sim, cada artista usaria a sua banda. Já era fantástico, antes mesmo de o som começar a rufar.

Percebi que não seria uma batalha qualquer, mas – tal como merece o adjectivo – a grande batalha. E constatei, não uma batalha à moda Kadabra… uma batalha discográfica: por um lado Xigumandzene e, por outro, Genises.

Primeiro round

E porque não se pode falar de batalhas em Moçambique sem Duas Caras, o MC tentou colocar em réplica as emoções do Rapódromo, ao colocar Kloro de um lado e de outro Allan, deixando que a moeda decidisse quem seria o primeiro a começar. Que nada!, já estava tudo planeado que o autor de Xigumandzene era quem teria as honras de receber o público.

Os primeiros cinco minutos foram de aquecimento, mesmo para justificar o nome daquele evento. Kadabra, perdido no público, deve ter sentido as mãos a coçar e, provavelmente, tenha ficado com raiva por aquilo não ser exactamente uma batalha, ainda que os dois intervenientes tenham trocado mimos nos primeiros instantes.

Mas só era uma brincadeira. A actuação chegou mesmo no último minuto das 19h00, com a entrada de Teknik ou Válter Nascimento, se calhar o segundo mais se assente ao seu papel de corista. A música “Killa” deu as boas vindas ao público que já resmungava por conta da demora. Já que Ubakka nunca está nos concertos, Kloro e Teknik inventaram um coro que até mais combina com as “barras” e mais se assenta às actuações ao vivo.

Porque a batalha não é só dos artistas mas das turmas, Sodoma e Laylizz subiram para tocar “Síria”, mesmo na ideia solena de matar o Allan, aliás, o gajo. Elfas, a seguir, esteve “on the mic” para cantar “Conexão” e assim fechou a primeira parte do Kloro, que mais soube a “soundcheck” que uma perfomance verdadeiramente dita. Mas não só se condena o técnico de som por isso, pois o próprio Kloro parecia estar ainda a procura da dose certa.

Assumindo o seu compromisso patriótico, começou em entoar o hino nacional – bela apresentação do oponente, embora já tenha virado clichê quando se trata de inaugurar concertos. Cá para as minhas exigências, Allan devia ter dispensado tal fardo na sua introdução. “Go Allan” foi a música de estreia. Precisava de uma voz masculina aquele coro, mas ela foi suficientemente eficaz para que os manos a acompanhassem e foi determinante para que não fosse um ambiente apenas de vozes masculinas, que o Hip-Hop anda (já) bem cansado.

A música que se seguiu, com um teor mais biográfico… uma narrativa intimista e, porque não, um “golpe baixo” no que toca a sensibilidade da plateia. Quando se falam verdades não há quem não aplauda ainda que não concorde. Assim foi: público mais atento e, se calhar, a vasculhar, cada um, a sua intimidade, quem sabe, para encontrar algumas semelhanças com a vida do Allan.

A seguir veio a música de amor – “Sozinho em casa”. Aí Allan envolveu, de certeza, as minúsculas mulheres que estavam no Beergarden. Aliás, a prova que foi uma música envolvente foi, na certa, o toque sensual que a corista desprendeu. Mas o recorrer à música de Guto era tudo que aquela faixa não precisava, já se tinha atingido o clímax. Não sei porque obras o rapper enveredou por esse tenebroso caminho.

Segundo round

Kloro volta com “A música da Sociedade” e o microfone já um pouco saudável. Era mais som que ruído. Eis, talvez, a traição que teve no primeiro round. A seguir veio “Par Ideal” e depois “J’yeah J’yeah” embrulhado com “Continência” mesmo a recordar os Trio Fam. Na terceira música o microfone jogou pesadamente contra o Teknik no “Bem vindo ao nosso mundo”. Foi uma passagem mais retumbante e certeira, embora a revisitação ao passado foi desnecessariamente forçada.

Allan entrou queimando, mas quase foi um balde de água fria para os presentes. Só no fim virou o jogo, imitando os nossos profetas milagrosos. Se não fosse aquela brincadeira os que estavam no bar não teriam nem virado a cara.

A primeira participação da noite foi de Case com “Tou no Hustle”, mas Kloro já tinha chamado uma legião e, inclusive, vasculhado o baú para atacar… Nesse quesito, o jovem do Genises ganhava todos os créditos.

O “Run Nigga”, emprestado do Classic la Família, agitou o pessoal e, não era para menos, o beat bem tocado mereceu. E mesmo “É só fazer katlha” foi uma boa proposta, com um liricismo à altura. Mas sempre estraga no fim. Era para mostrar o que é capaz e não estar a engraxar o Duas Caras.

A história que se seguiu era digna de ser contada. E assim foi: “Ninguém sai vivo” não só é a música mais bem conseguida do álbum, como também do universo Hip-Hop moçambicano. Se Case quiser o trono de melhor realizador, que transforme aquela obra numa curta-metragem. “Sister Petina” garantiu, com certeza, a vitória daquele round. Não preciso dizer mais…

Terceiro round

O gajo lhe spidou e ofereceu relógio. Os que estavam ao meu lado gritaram: é para ele dropar dentro do tempo. Brincadeira, na certa, aquelas palavras ao Kloro. Mas, cá entre nós, Allan foi mais incisivo e um pouco “baixo” naquelas rimas introdutórias. Molwene, diria. Já Kloro sempre manteve a postura e, se quisermos, golpeou-lhe com mais inteligência. Se calhar reside ai o problema: quem disse que nas batalhas vence a inteligência?! Foi por isso, constato, que se disse na altura que Kadabra venceu Tanay Z.

Repou, bem feito, “Sonhos” e na hora do jump só um punhado deles saltaram. “Revolução Cultural”, tema pertinente que a mim me enche de sei lá o quê quando escuto foi a verdadeira dose de sapiência que Kloro tirou da cartola, e fechou a festa com o melhor do seu Xigumandzene: “Já não posso esperar”. Uma passagem muito mais bem conseguida, com uma sincronia satisfatória com o resto da banda.

Allan chamou os “old school” – Armadu, Squeeza – para uma prestação digamos que pertinente mas dispensável. Penso que se não fosse por esse caminho a sua actuação não teria nenhuma mancha barulheira, até porque era trabalhoso perceber exactamente as letras dos manos. Bom, perdoou o Allan por eles serem os “mais velhos do hip-hop nacional”.

Quando o colectivo abandonou o palco voltou o “Bom feeling” e a homenagem aos mambas deixou, de certeza, Domingues (algures no bar) encatado e nós outros com um pouco mais de fé em relação à nossa moçambicanidade.

Foi um prazer conhecer a mestria do Allan e ele soube posicionar-se perante o gigante Kloro que parece ter deixado suas armas letais em casa.

Nos instantes finais, mesmo para mostrar que o espectáculo era contra a tão propalada batalha, os dois juntaram-se em dois temas que tão amigavelmente os aproxima: “Marandza”, do álbum de Allan e “Tu”, uma narrativa de ataque muito bem idealizada por Hernani. A pena mesmo foi ele ter-se ausentado naquela actuação. Se não, diria com os pulmões cheios de oxigénio: não faltou nada no concerto.

Bom, devem ter notado que não disse uma palavra sequer sobre a perfomance dos instrumentistas, tanto os acompanhantes de Kloro bem como os de Allan. Ficarei a dever essa análise (minuciosa). O que me apetece dizer agora, em linguagem simples e parca é o seguinte: gostei.

Gostei mais da abertura do Beergarden para conceitos como aqueles e da presença de uma boa nata de fazedores de RAP. Pecou mesmo por, no mesmo dia, outro show estar a acontecer a mesma hora.

E então, tal batalha que foi, quem é o vencedor? Puxo o ar, inspiro – se fumasse me socorria de um agora –, sem mais delongas, respondo: é, sem dúvidas, a música moçambicana!

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