MODERNA LITERATURA ANGOLANA: UMA CONVERSA COM HÉLDER SIMBAD

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Hélder Simbad
Hélder Simbad

Ibinda Kayambu ou Hélder Simbad é heterónimo de Hélder Silvestre Simba André, nascido aos 13 de Agosto de 1987, na província de Cabinda, em Angola. Professor, escritor, poeta e crítico literário. Licenciado em Línguas e Administração pela Universidade Católica de Angola. Publicou «Enviesada Rosa»(Prémio Literário António Jacinto) em Angola e «Insurreição dos Signos» em Portugal. Conta com vários textos e artigos publicados em antologias, revistas, jornais e sites nacional e internacional.

Hélder Simbad, um nome notório da nova geração das letras angolanas, autor galardoado com o Prémio Literário António Jacinto 2017. Engajado nos trabalhos literários em Angola, por meio de artigos e reflexões no Círculo de Estudos Litteragris.

Hirondina Joshua: Quando se fala do não desfalecimento do homem, da não cessação do que tem de mais valioso, fala-se na própria poesia.

Hélder Simbad: Para não ser supérfluo, de todo, eu diria que está também na «própria poesia» na medida em que a compreendo como um complemento – indispensável, diga-se – que decorre dessa necessidade de se expressar, que aflige os homens que nascem com essa predisposição para cultivar a arte poética.

A «poesia», apesar da sua condição de ser revelada ou de se revelar diariamente, apesar de ser uma matéria do universo interior do ser humano, não é oculta, pressupondo uma dimensão metafísica; e está indubitavelmente entre os mais bem guardados tesouros humanos. Nessa era em que o homem segue desprovido da razão, a poesia será aquele objecto de terapia que nos poderá curar da brutalidade.

HJ: Poesia não como um género literário, a construção de formas imperfeitas. Como se enquadra a nova literatura angolana.

HS: Nenhuma geração literária nasce de forma coesa e perfeita. Ademais, sabe-se que a excelência é uma construção que se dá por via de diversas operações: leitura, ouvir e exercícios sistemáticos de criação. Vivemos agora o período literário a que designámos por pós-4-de-Abril, período que nos remete aos acontecimentos do pós-guerra-civil, um dos períodos mais negros e complexos da nossa história. Esse período de paz efectiva, uma paz consubstanciada apenas no calar das armas, porquanto continuamos a ver esse processo de reconciliação nacional como uma utopia cujas barreiras assentam em assuntos complexos como tribalismo entre outras sombras.

A nova literatura angolana é multiforme e assume, portanto, diferentes tonalidades. Há os da continuidade, há os iconoclastas e os que se colocam entre a continuidade e a iconoclastia.  Ela concretiza-se, hoje, principalmente por via das Associações Cívico-literárias e Movimentos Literários (Lev’Arte, Movimento Cultural do Cunene, Círculo Literário Letras Vivas, o Movimento de Spoken Ward, ALCA e o Movimento Litteragris).

Essa «construção de formas imperfeitas» a que te referes faz-me lembrar de uma pergunta de Tzevetan Todorov, cuja interpretação confluiria na seguinte questão: se é possível a não compreensão da poesia desembocar em um Movimento Literário?

Quase todas as associações cívico-literárias tinham como pretensão à criação de um Movimento Literário nos termos clássicos (romantismo, simbolismo, surrealismo etc.). Falharam porque decidiram afirmar-me primeiramente como instituições que, através de algumas acções subjectivas conseguem algum poderio financeiro para se afirmarem socialmente, esquecendo-se do objecto principal: a qualidade da literatura e uma ideia de arte a apresentar para essa sociedade. Essas associações caracterizam-se como grupos heterogéneos sem uma ideo-estética comum, cujos integrantes, na sua maioria, vagueiam à deriva num mar desconhecido e aqueles que o conhecem efectivamente vêem-se impossibilitados de orientar porque os líderes não perseguem os desígnios da literatura.

Dentre todos os grupos, o Movimento Litteragris afirmou-se como movimento literário: possui uma ideo-estética comum, uma revista (Tunda Vala), manifestos e homogeneidade reticente. O Movimento Cultural do Cunene e o Círculo Literário Letras Vivas do Uíje caminham para a mesma direcção, mas vêem-se em dificuldades por estarem distante de Luanda e Angola, infelizmente, continua a ser um país em que o poder e a economia se restringem à capital, Luanda, e às províncias do litoral.  

Em termos de qualidade destacaria uma dezena de obras: Raízes Cantam, de Job Sipitali; As Simetrias de Mulheres, de Cíntia Gonçalves; Todos Nós Fomos Distantes, de Luaia Gomes Pereira; Enviesada Rosa e Insurreição dos Signos, de Hélder Simbad; Mahambas, de Oliver Kiteculo; O Candidato, de Jeremias Manuel etc.

Importa referir que a minha a visão sobre o devir da literatura angolana não é apocalíptica. Existem muitos jovens, bons, que ainda não publicaram e poderão enriquecer a nossa geração.

Capa do livro “Insurreição dos Signos” de Hélder Simbad

HJ: Há condições para se ser poeta? O que mais a poesia anseia na voz do autor?

HS: Há sempre condições para se ser poeta, mesmo quando não há materialmente, se estivermos a falar de um país como o meu, em que o livro é um produto de quinta categoria. Ser poeta é uma forma de estar. Quando vou com amigos meus a um evento de elite, antes de entrar activamos o «modo poesia» e somos capazes de entrar com a roupa que nos convier e divertir-se livremente sob o olhar atento dos estereótipos. Repito: há sempre condições para se ser peta. O livro é só um pretexto e por vezes nos faz retirar o título a indivíduos que um dia autoproclamaram-se poetas.

A poesia anseia a verdade na voz do autor e de quem a lê. Pessoa dizia que o poeta é um fingidor; Drummond, na sua procura pela poesia ensina a não mentir. Os dois dizem a mesma coisa. A dor de outrem é nossa, não podemos mentir ao expressá-la.

HJ: Será a poesia um espaço de debate ou um processo de falhas contínuas e invisíveis?

HS: É tudo isto. A poesia é uma construção humana que nos remete no domínio da antropologia cultural. As culturas não são estáticas. Na poesia vive-se o conflito dialéctico entre as diferentes gerações, a aceitação ou assimilação, a recusa e etc. As falhas nunca são invisíveis. O ego do poeta é que vende quimeras e leva-o a crer que atingiu a perfeição, até um judas chegar e repor a verdade. A tua pergunta é a resposta à questão por que, dentre vários textos ou obras, destacar um, dois, três, quatro, cinco poemas ou obra?

HJ: Centro dos palcos do mundo, a mulher é evidência mesmo quando oculta. Como ela é na literatura angolana.

HS: A mulher, vista pelos poetas de sexo masculino, continua a ser um objecto estético e ser tematizada sob diferentes prismas: erotismo, hipersexualização, fenómeno zungueira, mãe, causadora de traumas etc. Do lado das próprias mulheres, estando em voga o feminismo, a atitude é, como é óbvio e muitas vezes justa, de reivindicação social, emancipação e outros assuntos atinentes. Por outro lado, essa hipersexualização da mulher a que criticamos de forma implícita ao nos dirigirmos aos homens, é reforçada pela própria mulher, principalmente no discurso spoken word.

HJ: Diz-se que quem escreve vive uma infância perpétua; gêmeos: Moçambique e Angola. Olha semelhanças nas suas escritas?

HS: Algumas apenas. O que é normal, atendendo a distância e a dificuldade de circulação de livros. De moçambique conheço a poesia de Amosse Mucavele, Hirondina Joshua, Jaime Munguambe, Norek-Red d’Esperança. Sinto que a poesia surrealista, metafísica vai unindo alguns poetas. Mas cada um vai assumindo um tipo de poesia de acordo com o contexto, apesar de quase similar.

O colonialismo logrou-nos uma língua que nos obriga a sermos solidários no contexto geopolítico global, ao ponto de lembrar uma relação entre irmãos; a nossa Literatura.
A nossa historiografia literária se configura como uma rede de influências que se remontam desde os escritores nacionalistas como Agostinho Neto, Alda Lara, José Craveirinha e Noémia de Sousa; e actualmente Mia Couto e Agualusa. Luandino Vieira e Mia Couto partilham os neologismos de Guimarães Rosa.
Há uma boa relação entre escritores da nova geração de Angola e Moçambique.

HJ: É jovem, poeta e crítico literário. Que anseia para a nova poesia angolana?

HS: Futuro risonho. Conheço os autores de perto, na sua maioria. Está a crescer qualitativamente porque as pessoas estão a descobrir que já mais escreverão bons poemas se não lerem.

Obrigado em nome de todos os jovens angolanos e por essa relação. Para nós vocês têm servido de exemplos.

Três poemas de Hélder Simbad

é estranha a rua em que moro
estou sentado no muro
olho construções abandonadas
sempre um mistério na escuridão
banheiras da zunga flutuando
como caveiras voadoras

sangram nuvens no suicídio das estrelas
uma lua sobre flutuantes espumas
perto de mim não passou ninguém
não passou ninguém perto de mim
ouvi passos vozes no fundo da silenciosa ravina
ventoso ser abraçando-me
diálogo interrompido
pelo messiânico latir de cão tinhoso
mana Cati passará por aqui
– filho, estou a sardar o tudo que restou

Metafísica da espera

*

todos esses anos de 1987 meus olhos
não assistem as exéquias das zungueiras
nem ouvem os tristes coros dos familiares
nem abraçam os trilhos dos órfãos

sim. eu vejo eu ouço eu toco eu sinto
com os olhos. sempre com os olhos


todos esses anos de 1987 eu não vi nada
por isso não lutei não luto não lutarei


até os cegos vêem suas razões
eu não vejo nada não sinto nada
eu não toco nada e se acaso quiserdes saber
agora mesmo zungueira correndo com as mulheres de Herberto
agora mesmo pinta o asfalto com seu sangue
nem isso eu vi porque todos esses os anos de 1987
não vi nada

Com os olhos nem sequer vi

*

Prefiro seguir andrajoso
a me definirem rotas
espinhosas montanhas
no beijar dos cus dos judas

irmãos em rota arrotam Cains e Abeis
ubuntu e genocídio nas costas de Mandela

espiei a ribalta o céu
a urbe os tais
espíritos indigentes e umbigo
apenas

enfrento o espectro
arrepiante vulto de Herberto Neruda
Breton nas sombras utopistas
conjecturam guerras
o assalto à inexistente coroa
sonhada pelos poetas de 80

poesia é o instante
poetas de pouca pinta
podem inventar eternidades no caos

esperar o despertar da Preguiça
empurrar a lenha
quando a chama chama quem chama

posso ser cinza e fagulha
presumi um só rio de aspiração
mas os egos se confundiram
soltaram-se nas redes sociais
e más bocas verborreavam ignorâncias

Assim se desenhou o fim

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